Como é a sua letra mesmo?
* Por
Marcelo Sguassábia
Ninguém sabe mais como
é sua letra. Nem você. Por mais intelectualmente articulado que seja e por mais
Pós-Doutorados que possua, se tiver que escrever alguma coisa você vai se pegar
desenhando as palavras. De um jeito desengonçado, como se estivesse aprendendo
a andar de bicicleta.
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O teclado da máquina de
escrever, e depois o do computador, foram os primeiros culpados. Acabaram
matando aos poucos o meio físico que ligava o que se quer dizer ao que saía
escrito, ou seja, a caneta ou o lápis. Mas ainda havia algo entre a intenção e
o resultado: o teclado. O frio e insípido teclado, essa coisa infestada de
migalhas de bolacha entre as letras. Por questões de conforto nos textos de
longo curso, ele ainda resistirá um pouquinho mais, embora tecnologicamente já
esteja liquidado.
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Do toque ao touch na
tela, diretamente no vidrinho sensível do tablet ou do celular. As teclas de
pixels, espremidas. Esbarrões frequentes nas letras vizinhas resultaram no
amaldiçoado corretor ortográfico, cybercausador de mal-entendidos, divórcios e
demissões por justa causa. Dorretor mwtido a busta, và cuidar da sua fida!
***
O número de mortes/ano
por digitação em trânsito, dentro do carro ou atravessando a rua, dão sinal
verde para o avassalador sucesso dos aplicativos de escrita por ditado. Por
meio de reconhecimento de voz, transformam em texto o que se diz, liberando as
mãos e a atenção do indivíduo. Fanhos, gagos e gente de língua presa devem
tomar cuidado ao utilizá-los.
***
A escalada tecnológica
alcança níveis inimagináveis. Canetas, lápis, teclados, celulares, tablets e
aplicativos que escrevem o que se fala também estão condenados à extinção. Em
várias partes do mundo, testemunhas relatam ter visto gente falando diretamente
com gente, sem intermediação de nenhum instrumento ou aparelho eletrônico.
Conforme a pessoa vai falando, a outra já escuta, entende perfeitamente e
responde na sequência. Um avanço sem precedentes na longa história da
comunicação humana.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
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