O chapéu de meu pai
* Por
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
A Arnon de Melo.
A lívida luz dos
círios é agora mais triste, à claridade da manhã nascente que vai aos poucos
invadindo a sala. Da cadeira onde me acho sentado, na saleta de espera, vejo as
mãos de meu Pai cruzadas sobre o peito. O ventre, timpanoso, sobreleva as
bordas do caixão. Vem de lá dentro um choro abafado. Alguns dormem, exaustos:
ligeira trégua ao sofrimento. Ardem os olhos, da noite sem sono e do muito que
chorei. Tenho a cabeça reclinada no encosto da poltrona, numa postura de
aparente sossego, e chego por momentos a enganar-me, a pensar que estou sereno.
Na janela que daqui avisto, a cortina preta drapeja manso, agitada pelo brando
vento do amanhecer. Do porta-chapéus, a um canto da parede, pende um chapéu,
como coisa abandonada. É o chapéu de meu Pai. É um pedaço daquele que se
encontra ali perto estendido, morto, as largas mãos cruzadas sobre o peito, e o
rosto, em vida tão vermelho, agora de uma brancura macilenta. É alguma coisa
dele, que a morte não destruiu.
Meus olhos se cravam
no chapéu. Está no cabide tal como meu Pai o usava - quebrado para a frente - o
chapéu marrom, comum, de abas debruadas, o chapéu de meu Pai. Por menos que
deseje pensar nisto, meu Pai começa a emergir, vivo, bulindo, desse chapéu, que
era seu. Vendo de lado o chapéu, estou a ver o dono de perfil, o nariz breve e
saliente, o rosto sangüíneo, um tanto cavado nos últimos tempos, a costeleta
curta, uma parte do bigode, ruivo e ralo, de que ele nunca abriu mão.
O chapéu acompanha meu
Pai nos seus movimentos, sombreando-lhe um tanto a face. Está no seu verdadeiro
lugar, a cabeça de meu Pai. Sim, está. Lá vem o velho chegando para casa, nos
fins de tarde, cansado, já doente. Lá vem. É ele: o chapéu marrom, comum,
desabado na frente, aquele jeito de andar, meio curvado, lento, da velhice.
Chega. Empurra um lado da veneziana, puxa o ferrolho, entra. Põe o chapéu no
cabide, ali mesmo onde o vejo agora, bem junto do espelho do móvel. Algumas
vezes, olha-se ao espelho, cofia rápido o bigode, e vai entrando. Na sala de
jantar, senta-se e com minha Mãe começa a falar das eternas coisas do
dia-a-dia. Mamãe conta dos incidentes domésticos: falta de água; o leite que
talhou, aborrecimentos com a empregada, "uma grandessíssima
respondona". Meu Pai se queixa dos negócios, que vão de mal a pior -
"uma crise pavorosa, o comércio um paradeiro medonho, e o governo é
impostos, e mais impostos um fim de mundo". Mamãe é mais calma: -
"Ora homem! Vamos vivendo. Os meninos trabalham, vão ajudando. Já estamos
velhos. Paciência." Ele dirá que trabalhou a vida toda, e era para ter uma
velhice descansada.
O chapéu fica sozinho,
até o dia seguinte, pois geralmente meu Pai não sai de casa à noite de uns
tempos para cá. A gente olha o porta-chapéu e adquire a certeza de que o dono
da casa não saiu. Não é só porque vê o chapéu: é porque vê a pessoa. Se nos
descuidarmos, diremos, apontando o chapéu: - "Olhe Seu Manuel ali."
Pela manhã - assim, de
dia - o chapéu é posto com o maior cuidado. Meu Pai se mira demoradamente ao
espelho. Está bem barbeado. Faz a barba em casa, à navalha - nada de gilete. O
rosto passa. Algum tanto chupado, uns pés-de-galinha perto dos olhos (procura
estirar a pele com os dedos), o par de rugas muito fundas descendo-lhe das abas
do nariz ao canto dos lábios... Mas passa. O diabo é a falta dos dentes. Breve
mandará fazer uma chapa dupla. Tolice: não irá andar rindo com as folhas.
Demais, a expressão da fisionomia é relativamente boa. Corado, os cabelos em
ondas, louros, raros fios brancos, apesar dos seus bons sessenta anos, e os
olhos azuis, dum azul claro, herdados do avô português. Não é careca: só isto!
E os óculos de aros de ouro são vistosos. - "Manuel!" Responde meio
aborrecido: - "Que é?" Estava dando um jeito melhor ao quebrar do
chapéu. - "Sim, eu trago, não se incomode, não." Ótimo assim.
Vai saindo. Agora o
chapéu anda na mão, um pouco acima da cabeça: - "Bom dia, D,
Hortênsia." A vizinha desmancha-se num sorriso. (Mamãe não gosta nada
desses sorrisos da vizinha.) De onde em onde o chapéu sai por alguns segundos
da cabeça de meu Pai, muito relacionado nesta rua. Por vezes o cumprimento é
menos solene – apenas um toque de dedos na aba. E rua fora lá vai o chapéu,
integrado em meu Pai - órgão do seu corpo, complemento essencial da sua cabeça,
do seu todo.
Chegando à casa
comercial, se não encontrar tudo em ordem, é possível que o chapéu venha a
perder, por momentos, o ar composto, a dignidade habitual. Talvez meu Pai,
zangado, tirando-o, bata com ele no balcão, como quem dá murros. Mas a raiva
passará depressa, e meu Pai começará a compor o chapéu, a ajeitá-lo, a
reimprimir-lhe a feição própria. Desamassa-o, sulca-o no centro da copa com as
pontas dos dedos da mão espalmada, e, com o polegar e o indicador, concava-o
lateralmente. Pronto.
Mais tarde, à hora do
almoço, como está fechado o comércio, há pouca gente pela rua e meu Pai tem
fome, botará o chapéu à vontade e caminhará menos lento que de costume. Entrará
em casa suado; nos dias quentes, enxugando o rosto com o lenço: - "Diabo!
isto é um calor insuportável. Não há quem agüente..." Tomará seu banho
antes de almoçar, e falará como sempre, da crise pavorosa.
O pãozeiro deixa na
porta a mochila, suspensa de um ferrolho. Vão surgindo os primeiros transeuntes
- a gente humilde, que principia a trabalhar cedinho, quando os galos ainda cantam,
para ganhar a vida e garantir a tranqüilidade dos mais felizes. Alguém chora lá
dentro, choro convulso: é minha irmã.
Pendente do gancho,
ali, abandonadamente inútil, o chapéu me recorda um despojo de guerreiro
vencido. Serve-me de ponto de referência para a reconstituição, sem ordem
cronológica, de um passado inteiro. O pranto me devolve à realidade do momento,
e agora o chapéu me oferece de meu Pai uma imaginação muito próxima - do velho
tirando-o quando entrava na casa de saúde, para nunca mais o usar. Estava
pálido, então. O chapéu, acompanhando-o inseparável. O doente torcia-se a
gemer; dilaceravam-no dores agudas: e de repente o chapéu saía do lugar e ia
para a cabeça de meu Pai, que andava, a passeio ou a negócio, tirando-o para
cumprimentar alguém, ao passar diante de uma igreja, ou cortejo fúnebre, ou por
outro motivo. E, ao trazer do hospital o chapéu – há coisa de cinco ou seis
horas, parecia-me trazer comigo um pouco (digo mal), uma parte essencial de meu
Pai, que ficara no leito de morte, até ser conduzido num carro para casa, onde
se acha, ali na sala, no caixão, com o rosto lívido, o ventre inchado, as mãos
em cruz sobre o peito.
As velas ardem. Estão
já no fim. A cera escorre em gotas pelo fuste e acumula-se ao pé dos castiçais.
À cabeceira do morto, o crucifixo - um Cristo de metal por cuja presença
consoladora Seu Sampaio da casa mortuária cobra caro, acrescentando não se
tratar de aluguel, que "santo não se vende nem se aluga".
Cristo é filho de
Deus, explicava meu Pai, ao falar-me do mistério da Santíssima Trindade, que eu
não havia jeito de compreender bem. Meu Pai acreditava em Deus, na religião. Só
não ia lá muito com os padres, tanto que, sabendo que morreria, não pediu confessor.
E, católico, não participava do horror de alguns aos protestantes - os
"freis-bodes", como dizia minha avó - e gostava de, uma vez ou outra,
ir às suas sessões de espiritismo. Contudo, esse ecletismo religioso não
excluía uma crença poderosa, entranhada, que não o desamparou nem nos
derradeiros momentos: a crença em Deus. Ao fazer um plano, ao sacar sobre o
futuro, invariavelmente Deus entrava em cena, como força de que dependesse a
concretização daquele desejo: - "Este ano as coisas estiveram muito ruins.
Uma crise pavorosa. Mas o ano vindouro, se os negócios melhorarem, com os
poderes de Deus, eu..." Se estava de chapéu, tirava-o na certa, erguia-o
por um instante, muito respeitoso, ao dizer - "com os poderes de
Deus". "Eu tenho fé em Deus", "Deus há de me ajudar",
"Deus é pai" - estas frases não lhe saíam da boca sem lhe sair da
cabeça o chapéu.
Volto-me para um
retrato dele rapaz. Já muito desbotado, quase não deixa divisar os traços
fisionômicos de meu Pai nessa época. Devia ser por volta dos começos da
República. Morava ele, então, em Tatuamunha, sua terrinha natal. Falava dos
pastoris do seu tempo - bom tempo! -, da graça de algumas pastoras, do encanto
das jornadas que cantavam, e das paixões que acendiam nele e noutros jovens do
seu grupo. Imagino o entusiasmo de meu Pai, moço, ardente, romântico, até meio
chegado à poesia, pela beleza de uma daquelas matutas. As pastoras - cordão
azul e cordão encarnado - surgiam alegres, agitando os pandeiros:
Belas companheiras,
vamos a Belém
ver quem é nascido
para o nosso bem.
Vinham outros números.
O Pastor sempre a arrastar o seu cajado. Chegava o Fúria:
Olha, pastora, eu
venho falar-te.
Queres ser minha? Eu
posso levar-te.
As jornadas
sucediam-se. Começavam a dividir-se os grupos; apareciam os exaltados. Meu Pai
seria pelo cordão azul. Discussões. A Contramestra, maravilhosa. Sabia
requebrar-se com tanta graça, cantava tão bem, e dirigia a meu Pai um olhar tão
temperado, tão intencional, que ele sentia bulir-lhe no sangue a sensualidade
lusitana, o coração pular-lhe no peito. - "Bravo da Contramestra!" -
"A Mestra em cena!" Digladiavam-se os partidos. Haveria presentes,
muitos presentes. Um arrebatado chamava a Mestra com todo o cordão. Novas
jornadas. A Diana:
Sou a Diana, não tenho
partido,
o meu partido é os
dois cordão.
Eu bato palmas,
ofereço flores;
digam, meus senhores,
vossa opi-nião-ão-ão...
Havia uma curiosa
espécie de torcedores: os que pediam a presença da Diana por um dos lados: -
"A Diana em cena pelo lado azul!" - "A Diana em cena pelo lado
encarnado!" Tinha a Diana, assim, boa renda de sua neutralidade: recebia
vivas e presentes dos partidários das duas cores. Ia correndo o tempo, e talvez
os torcedores bebessem um pouco. Sempre a subir-lhes o entusiasmo, a certa hora
se viam apaixonados que jogavam chapéus para o ar, depois ao tablado: -
"Pise aí a Mestra!" Repetiam-se os aplausos: - "Bonito!" -
"Bravo do cordão azul!". A contramestra vinha oferecer um cravo a meu
Pai:
Seu Manuel,
me faça um favor:
Por sua bondade
receba esta flor.
Eu não venho dar,
venho oferecer;
Seu Manuel,
queira receber.
Todo pachola, meu Pai
subia ao palco, punha a flor na botoeira e uma pelegau estalante no peito da
Contramestra. Embaixo, os correligionários deliravam em aplausos.
Meu Pai descia, feliz
da vida. Naturalmente, lá pela madrugada, à pressão de um entusiasmo mais
forte, o seu chapéu voaria, iria ter ao tablado, para que o pisasse a
Contramestra.
Como seria o seu
chapéu desse tempo? Preto, grave, solene, de abas viradas para cima. Usaria ele
chapéu de palha? Não importa. Para mim, o chapéu de meu pai ali suspenso do
cabide é o chapéu que meu Pai sempre usou. É o chapéu de meu Pai. Lá vai pelo
ar o chapéu, cai no palco, onde as pastoras cantam uma jornada linda. Candeias
de querosene, atadas a postes raquíticos de madeira, iluminam o tablado, e o
largo todo, em frente à igreja de S. Gonçalo. (Como eram plangentes as vozes,
na igreja, pelas novenas: "S. Gonçalo de Amarante, / glorioso
padroeiro.."! Vozes femininas, quentes de fé, que pediam felicidade ao
santo seu patrono: boa sorte para os maridos nas pescas; boa produção dos
roçados, que as formigas invadiam; bom casamento para as meninas; a cura da
maleita dos meninos; tranqüilidade e tortura para os lares humildes, tantos
deles perdidos dentro do coqueiral que ensombrava quase por inteiro o povoado.)
Também se vêem, acesos de pé dos tabuleiros de bolos, brandões de carrapato -
sementes de mamona enfiadas em talos compridos. A multidão comprime-se. Vai
animada a festa.
O leilão tem muitos
licitantes. Grita a pregoeiro, alto e pausado, depois de pedir que
"batizem" o objeto:
- Mil-réis me dão por
uma melancia que deram ao milagroso S. Gonçalo...
Alguém oferece mais:
- Mil e quinhentos.
- Mil e quinhentos me
dão...
- Dois mil-réis.
Todos desejam possuir
a melancia do santo. Em pouco ela está valendo cinco mil-réis. Rompem as
pilhérias:
- Seis mil-réis para o
Silva não ver.
O leiloeiro:
- Seis mil-réis...
- Seis e quinhentos
para o Chico não cheirar...
Até que, já não
havendo quem dê mais, o leiloeiro faz a afronta, num português castigado:
- Afronta faço que
mais não acho; se mais achara, mais tomara. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe
três: já entreguei, está entregue.
A chegança, por outro
lado, está dando a nota. No de um mastro da embarcação, o gajeiro procura ver,
cumprindo ordem, se avista "terras de Espanha e areias de Portugal",
Canta: na sua voz, fanhosamente arrastada, como na de todo o pessoal da
Catarineta, há uma tinta de melancolia.
Indiferente ao leilão,
alheio à chegança, meu Pai vibra com o pastoril. Limpará o chapéu, empoeirado,
amarrotado, enquanto as pastorinhas maravilham a assistência com as suas
jornadas e os partidários suam de exaltação.
Pipocam foguetes nos
ares. O chapéu de meu Pai sobe e desce, anda para um e outro lado, defendendo-o
das tabocas.
Passaram-se alguns
anos. Meu Pai faz serenata - o luar é claro que parece dia – perto da casa onde
Mamãe veraneia, com os seus, fugindo à vida monótona do engenho. O namoro está
pegado. Dias antes ele passou pela porta da amada com uma acácia na lapela
(significa - "sonhei contigo"), e a moça deu-lhe um sorriso que o
deixou tonto. Um tio de Mamãe; apaixonado por ela, faz concorrência a meu Pai.
Este põe na voz toda a atávica saudade lusitana, e canta, pensando na amada,
com o chapéu abandonadamente derreado para a nuca:
Ó palidez imácula,
bendita,
a palidez serena do
teu rosto,
que me tem sido tanta
vez maldita
e tem sido na vida o
meu desgosto!
A voz é grave até o
tem sido, para subir muita na tanta vez, ainda mais no maldita, bem prolongado,
e em seguida baixar, depois de uma volta bonita, em que meu Pai dá tudo que tem
o coração, tirando, talvez, o sono à namorada.
Qual foi o seu
primeiro cuidado ao saltar em Maceió, pouco antes de noivar? Comprar o Dicionário
das Folhas, Flores, Frutos e Raízes, para poder dizer ao seu amor, a quem nunca
falara, aquilo que os olhos e as mãos não bastavam a exprimir. Imagino o
acanhamento do matuto ao entrar na livraria, de chapéu na mão, amassando-lhe a
aba, meio sem jeito para pedir o livro, como se estivesse expondo a estranhos a
pureza do sentimento.
Um dia - o pedido já
foi feito - aparecerá no engenho, o Boa Esperança, muito ancho, no seu cavalo
castanho, em visita à noiva. Apeia, tira o chapéu, cumprimenta a noiva e a
futura sogra, respeitoso. Conversam algum tempo na sala de visitas, grande,
paredes cheias de retratos, enquanto Maria Araquã, ex-escrava, acende o belga.
Depois, passarão à sala de jantar. Senta-se à mesa comprida, patriarcal, à
direita de minha avó, logo junto da cabeceira (que D. Luísa faz questão de
ocupar), tendo a amada em frente. Os futuros cunhados, para ele é como se não
existissem. Muito cheio de si, os louros cabelos ondeados com uma liberdade ao
lado esquerdo, o bigode pedindo-lhe sempre o afago das mãos. Capricha no pegar
do talher; come pouco, e, como D. Luísa insiste - "O senhor não está
gostando..." -, afirma que tudo é ótimo, mas recusa, com um sorriso
civilizado. Após o jantar, minha avó manda retirar a toalha da mesa e meu Pai
começa a leitura de um romance de Escrich, de que ele e a futura sogra gostam
muito. Volta e meia os seus olhos procuram os olhos da noiva, que a timidez
mantém sempre descidos. Lê bem: a voz pausada, com as inflexões características
da fala de cada um dos personagens, moldadas segundo as circunstâncias em que
as palavras são ditas. O diálogo sai animado, vivo: dá gosto ouvir.
No outro dia, pela
manhã, despede-se de todos, no alpendre, e sai no seu cavalo, galopando, para
voltar-se na curva da estrada e acenar com o chapéu feito lenço:
Como vem altivo,
petulante, o chapéu de meu Pai, no dia do casamento! O cavaleiro todo de
escuro, as boas botinas Bostock, a camisa branca, de punhos, peito e colarinho
duros, o chapéu preto de copa alta e abas viradas... Seria assim mesmo? Com que
elegância o tira ao entrar, para os primeiros cumprimentos! Daí a pouco,
emocionado, dá para sentir calor, um calor fora do comum, e o chapéu serve-lhe
de leque.
O Sol aparece. É mais
intenso o movimento na rua. Transeuntes entreparam à porta, olhando o caixão. A
empregada entra e, surpreendida e triste, põe-se a chorar. Lá para dentro
cuidam do café. Os rumores vão enchendo a casa. Minha Mãe soluça alto. Chama por
mim. Ao levantar-me, olho para o corpo hirto, rígido, lívido, macerado, as mãos
cruzadas sobre o ventre intumescido. Meu Pai veste um fraque antigo, muito
antigo - de quando? nem sei. O enterro será às dez horas. As negras cortinas
tremulam ao vento, que, agora mais forte, invade a casa, faz dançar, indecisa,
a luz agonizante dos círios. Caminhando ao encontro de Mamãe, vejo no
porta-chapéus, bem junto do espelho, o chapéu de meu Pai, que, ao sopro do
vento, oscila, oscila - abandonado, triste, esquecido -, como se estivesse
acenando, chamando por alguém.
1939.
(Dois mundos, 1942).
*
Lexicógrafo, filólogo, professor, tradutor, ensaísta e crítico literário,
membro da Academia Brasileira de Letras.
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