História ou lenda?
O rei Arthur e seus lépidos e fagueiros Cavaleiros da Távola
Redonda existiram, de fato, de carne e osso, ou não passam de remotíssimas
lendas, contadas à exaustão e passadas de pai para filho, geração após geração?
E o tal reino de Camelot? E as façanhas do mago Merlin, com suas magias e
sortilégios? E o que dizer do romance de Sir Lancelot com a rainha Genevieve? E
o Santo Graal, foi encontrado? De fato existiu? Perguntas, perguntas e mais
perguntas. Seriam fatos históricos ou meras lendas, incorporadas à mitologia ou
ao imaginário popular? Tenho comigo que foi um pouco de cada.
Creio que esses personagens, de fato, existiram, mas não
foram tudo isso que se lhes atribui. Suas personalidades e feitos foram sendo
exagerados à medida que o tempo passava e que novos narradores de seus “feitos”
entravam em cena. Afinal, as coisas são, mesmo, como o povo afirma: quem conta
um conto... acrescenta um ponto. E de acréscimo em acréscimo... a realidade dos
fatos vai (ou no caso, foi) para as cucuias.
As histórias da busca do Santo Graal, do intrépido rei
Arthur e sua insólita troupe e de todos os heróis e vilões que movimentavam a
vida de Camelot, pouco depos do ano mil da nossa era, todavia, não
sobreviveram, apenas, na base do boca a boca. Foram reproduzidas, também, em
textos de vários autores. O mais famoso deles tem três alentados volumes,
manuscritos, contendo, de quebra, 107 ilustrações. Pena que se desconheça o
autor. Trata-se do super-romance “The Rochefoucauld Grail”, produzido na Idade Média,
uma preciosidade para nós que somos vidrados (não seria tarados?) por
literatura.
Se você, leitor amigo, tiver em seu cofrinho a “bagatela” de
dois milhões de libras esterlinas (equivalente a US$ 3,2 milhões) essa relíquia
poderá ser sua. Isto porque a renomada casa de leilões Sothesby’s, de Londres,
vai colocá-la em leilão. Se bobear, essa preciosidade poderá lhe custar,
“apenas”, um milhão e quinhentas mil libras esterlinas, isso se você souber
blefar bem. Se eu tivesse essa grana toda... sem dúvida que esse tesouro, que
vale não só pela antiguidade, como também pelo conteúdo, seria inteirinho e
rapídamente meu. Como não tenho...
Tudo o que se refira à origem e autoria dessa peça é um
tanto nebuloso. Não se sabe, por exemplo, onde os manuscritos foram concebidos,
se em Flandres ou em Artois. Isso pouco importa. Desconhece-se, também, a
ocasião em que foram redigidos. Os especialistas estimam que tenha sido entre
1315 e 1323, portanto, no período ainda da chamada Idade Média. Isso também é
irrelevante. Acho injusta, todavia, a falta de certeza quanto à autoria. Como
escritor, não gostaria que qualquer obra que produzi opu venha a produzir não
me fosse ou não me seja atribuída.
O título desse caudaloso (e precioso) romance medieval,
contudo, sugere que seu autor tenha sido um tal de Guy VII, Barão de La
Rochefoucauld, membro de uma das famílias aristocráticas mais importantes da
França. Se foi ele mesmo, deve-se acrescentar que se tratava do representante
do rei francês Felipe V em Flandres, região atualmente partilhada por Bélgica e
Holanda. E se confirmada algum dia a autoria (é possível que isso ocorra,
sabe-se lá), será outra façanha a tornar a obra ainda mais valiosa. Por que?
Porque na ocasião era uma espécie de “charme” os membros da nobreza serem analfabetos.
Havia exceções, claro, mas...
O leilão a que me referi vai ocorrer no próximo mês de
dezembro, possivelmente antes ainda do Natal. Se você tem toda essa grana para
torrar e gosta um tiquinho que seja de mim, que tal me presentear com essa antiguidade?
Uma das curiosidades em torno dessa lenda (ou história, sabe-se lá), refere-se
ao formato da mesa (távola) em torno da qual o rei Arthur e seus cavaleiros se
reuniam. Por que era redonda? Para simbolizar igualdade entre todos aqueles
nobres. Não tinha cabeceira, portanto, e o grupo não contava, por conseqüência,
com chefe algum.
E quantos eram esses cavaleiros? Aí é que a coisa pega e
entra aquele princípio do quem conta um conto, aumenta um ponto. Alguns dos
narradores asseguram que eram só doze, como os apóstolos de Cristo. Outros
dobram esse número e garantem que eram 24. Outros, ainda, elevam-no para 50.
Alguns vão mais longe e juram que eram 150 ou mais os tais cavaleiros do rei
Arthur. Não sei porque, mas acho esta última cifra (150) mais verossímil.
Questão de intuição apenas, claro.
Um texto anterior, todavia, aos manuscritos “Rochefoucaud”,
intitulado “A Winchester Round Table”, datado de 1270, menciona (e
nominalmente) uma lista de 25 cavaleiros da tal da távola redonda. Os
principais, que constam em todas as relações, são: Bedivere, Bloors, Caradoc,
Constantino, Daniel, Galahad, Gauvain, Kay, Lancelot, Lucan, Meleagant,
Mordred, Palamedes, Perceval, Safir, Tor, Tristão e o próprio rei Arthur.
Reitero a pergunta do início destas inúteis reflexões: esse reino e esses
cavaleiros existiram? E o Santo Graal? Em caso do cálice sagrado ter, de fato,
existido, foi encontrado por alguém? Por quem? Onde está? Perguntas, perguntas
e mais perguntas. Por isso é que tudo o que se refere a essa lenda (ou seria
História?) é tão fascinante.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
A história, pelos mistérios se torna ainda mais atraente.
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