sexta-feira, 24 de junho de 2016

Meu São João inesquecível



Neste 24 de junho de 2016 emerge-me, subitamente, à memória, sem nem mesmo pedir licença, a suave lembrança de um dos momentos mais marcantes da minha vida. Refiro-me a uma festa de São João, realizada em São Paulo, há exatos 66 anos, ou seja, no já distante ano de 1950. Eu era, então, um garotinho sapeca (“levado”, como me caracterizavam, com indisfarçável ternura, os mais velhos), loirinho, com cabelos tão dourados que até pareciam brilhar e com olhos azuis, azuis, que eram o encanto da mulherada que orbitava ao meu redor. Destaco, como subsídio a essa incompleta descrição  que, embora atingido pela poliomielite que reduzia drasticamente minha locomoção, eu tentava me “reinventar”, para viver, com intensidade e alegria, minha infância, como todo menino normal naquela idade (sete anos e meio) vivia.

Estou certo de que, por mais que tente, não conseguirei descrever esse momento com a mesma graça e beleza com que alguns escritores (estranhamente, poucos) descreveram as respectivas festas de São João que viveram e que são jóias da Literatura de língua portuguesa. Aqui, observo, não se trata de questão de memória, mas de talento literário. Espero compensar minha deficiência descritiva com a emoção que então senti e que sinto agora, ao recordar esse evento. Lembro que na ocasião, essa data era feriado. Aliás, as três dedicadas aos santos do mês de junho (Santo Antonio, dia 13; São João, dia 24 e São Pedro, dia 29) eram. Não tínhamos que nos preocupar, portanto, com várias obrigações diárias (nós, crianças, especificamente, com a ida à escola).

A São Paulo de então não era, nem de longe, o que é hoje. Embora já fosse gigantesca, em termos nacionais, estava anos-luz de se comparar a esta metrópole vibrante (e estressante) do século XXI, a terceira megalópole mais populosa do mundo. Era uma cidade grande, é fato, mas, em muitos aspectos, com ares deliciosamente provincianos (digo isso sem nenhum demérito), com muita coisa que hoje só encontramos em remotas cidadezinhas interioranas, cada vez mais raras. Festas juninas, então, eram sagradas. Eram promovidas por famílias e não, como hoje, restritas a seletos clubes aos quais a maioria de nós, brasileiros, não temos acesso. Hoje, à exceção do Nordeste, estes festejos tão ingênuos, e por isso encantadores, praticamente desapareceram, ou estão em vias de desaparecer, sobretudo do tal “Sul Maravilha”.

Lembro-me de tudo, como se tivesse acontecido há horas, daquela festa de São João de há exatos 66 anos. Da fogueira, que de tão alta, parecia imitar o Prédio Martinelli, então um dos edifícios mais altos do País. Dos quitutes – batatas doces, carás com melado, bolos de fubá, bons bocados, paçocas, pés de moleque, pinhões e uma fatura de amendoins torrados – cujo sabor sinto ainda agora, na ponta da língua, bastando me concentrar e fechar os olhos. Lembro, claro, da criançada correndo sem parar, entre risos e caçoadas, soltando bombinhas, traques, buscapés e riscando estrelinhas, enquanto os adultos soltavam rojões e morteiros, que já então me causavam intenso desagrado. E dos tantos que, no final da festa, atravessavam, com os pés descalços, extenso lençol de brasas, sem se queimarem, “façanha” acompanhada da preocupada e prudente recomendação dos adultos, para que nós, crianças, não os imitássemos, pois eles “teriam truques que nós não conhecíamos”. Claro que não tinham. Não era bem isso. Mas... ingênuos, como éramos, acreditávamos.

Houve, como em toda festa junina, a tradicional quadrilha, com casamento caipira e tudo. E cantos, muitos cantos. Duas canções, em particular, ficaram gravadas para sempre em minha memória, na verdade, na alma, como se fossem hinos entoados por um coral de anjos. Uma delas tinha esta letra:

“Serenô, eu caio, eu caio
Serenô, deixai cair
Serenô da madrugada
Não deixou, meu bem, dormir
(Bis)

Minha vida, ai ai ai
É um barquinho, ai ai ai
Navegando sem leme e sem luz
Quem me dera, ai ai ai
Ter agora, ai ai ai
Os faróis dos teus olhos azuis

Serenô, eu caio, eu caio
Serenô, deixai cair
Serenô da madrugada
Não deixou, meu bem, dormir
(Bis)

Vivo triste, ai ai ai
Soluçando, ai ai ai
Recordando o amor que perdi
O sereno, ai ai ai
É o pranto, ai ai ai
Dos meus olhos que choram por ti

Serenô, eu caio, eu caio
Serenô, deixai cair
Serenô da madrugada
Não deixou, meu bem, dormir
(Bis)”.

Mas a canção que me arranca lágrimas de saudade e de emoção, neste momento, e que me parecia então de uma harmonia inigualável, sem que nenhuma voz destoasse (é o que hoje me parece), foi a cantada por todos, adultos e crianças, no final da festa, composta originalmente para a despedida dos soldados que partiam para a guerra (que naquele 1950 fazia só cinco anos que havia acabado, enchendo o mundo de esperança de que nunca mais os homens iriam guerrear), era esta:

“Adeus amor
Eu vou partir
Ouço ao longe um clarim
Mas onde eu for irei sentir
Os teus passos junto a mim

Estando em luta
Estando a sós
Ouvirei a tua voz

A noite brilha em teu olhar
A certeza me deu
De que ninguém pode afastar
O meu coração
Do seu

No céu, na terra
Onde for
Viverá o nosso amor

A luz que brilha em teu olhar
A certeza me deu
De que ninguém pode afastar
O meu coração
Do teu.

No céu, na terra
Onde for
Viverá o nosso amor”.

Peço-lhe, paciente leitor, compreensão e, sobretudo, perdão se você achar que estas reminiscências tão distantes são piegas (e provavelmente são mesmo). Eu avisei que não tenho o talento de tantos e bons escritores que descreveram suas respectivas festas de São João que os marcaram, construindo imortais jóias literárias. Mas duvido que eles me suplantem (ou até mesmo me igualem) em um quesito dos mais importantes, pelo menos para mim: em emoção.

Boa leitura.

O Editor.

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Um comentário:

  1. Conseguiu transparecer toda a emoção do momento e isso basta.

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