Realidade ou ficção?
A disciplina chamada de “História” reflete – e já nem digo
com exatidão, mas com mínima aproximação – o que de fato aconteceu em algum
lugar específico e, mais amplamente, no mundo todo em algum tempo ou no tempo
todo? Quanto ela tem de verdade e quanto de fantasia, de suposição, de pura
imaginação do historiador? Da minha parte estimo que no máximo 1% do relatado é
verídico e que 99% não passa de pura ficção, mesmo que aparente
verossimilhança. E olhem que posso estar sendo demasiado otimista. Não por
acaso a mesma palavra designa a disciplina, o supostamente relato fiel de
acontecimentos e a ficção criada pela fértil imaginação de romancistas, contistas,
novelistas... enfim, de escritores de ficção. Houve tentativa dos gramáticos de
diferenciá-las, criando, para designar a segunda, a palavra “estória”, com a
letra “e” em vez do “h” na frente. Todavia... não colou.
Destaco que sempre que trago o tema à baila sou contestado,
e não raro sem argumentos (pelo contrário, argumentos sólidos e inteligentes,
eles sim, são raridades), mas com meras ofensas, muitas vezes chulices absurdas
e abomináveis, que nunca levam a nada, a lugar algum, a não ser causar irritação
e desídia, tentando realçar, na maioria
dos casos, minha presumível ignorância. A maioria das pessoas é incapaz de
abrir mão de suas convicções, opiniões que sustentam a ferro e fogo, mesmo que
sejam ostensivamente equivocadas e até ridículas. Com isso, perdem preciosa oportunidade
de se esclarecer e de aprender o que realmente valha a pena.
O que se denomina, pomposamente, de “História da Humanidade”,
ou de “História da Civilização” ou de qualquer outro nome correspondente “vende”,
mesmo, o que anuncia? Ora, ora, ora... Se hoje, com todo o aparato tecnológico
ao nosso dispor, se com a infinidade de meios de comunicação que contamos, se com
a fartura de notícias, de várias partes do mundo a que temos acesso, é
rigorosamente impossível de saber TUDO o que se passa no mundo em um único dia
(e até mesmo em uma única hora), imaginem como era, digamos, na Grécia Antiga,
para não recuarmos muito! E o que dizer do tempo anterior à invenção da
escrita? Afinal, milênios antes dessa genial criação (e é impossível de se
saber quantos) havia povos, cidades, países, guerras, invenções, personagens de
todos os tipos e jamais iremos saber quantos ou quais eram. Só podemos “imaginá-los”.
Isso sem falar nas dificuldades de locomoção, quando os meios mais velozes de
transporte eram, até pelo menos o século XVI, os cavalos.
“Bem” – arguirá aquele leitor sequioso por desnudar
publicamente minha (suposta) macro-ignorância – “você está sugerindo que a História
é absolutamente inútil, por não refletir o que aconteceu?”. Não, amigo, não
diria tanto. Até porque, desde que me tomei consciência como gente, ela sempre
foi minha disciplina favorita. E por gostar tanto dela foi que me propus a me
preparar para ser um escritor. Mesmo os supostos fatos reais que ela narra
sendo, na verdade, na maior parte (quando não na totalidade) fictícios, meras
versões dos narradores, eles têm o condão de nos induzir à reflexão. E pensar,
óbvio, sempre foi, é e será saudável e indispensável. Afinal, foi para isso que
a natureza nos dotou da nobre capacidade de raciocínio. O que contesto é
tomarmos a História ao pé da letra, como relato fiel de fatos reais e
incontestáveis, o que a própria lógica indica ostensivamente que eles não são.
Napoleão Bonaparte, que no seu auge conquistou, a poder de
armas, praticamente toda a Europa, antes de ser vencido em Waterloo, quando
exilado na remota ilha de Santa Helena, no Atlântico, refletiu sobre o que
viveu e registrou em suas memórias, pouquíssimo citadas hoje em dia por motivos
óbvios (afinal, “aos perdedores as batatas”, é a grande realidade da vida). Num
certo trecho de suas anotações, o Grande Corso observou: “Essa verdade
histórica, tão implorada, à qual todos se apressam a apelar, na maioria das
vezes não passa de uma palavra: ela é impossível no próprio momento dos
acontecimentos, no calor das paixões cruzadas; e se, mais tarde, nos pomos de
acordo, é porque para os interessados, os contraditores não existem mais. Mas o
que é então essa verdade histórica a maior parte das vezes? Uma fábula
combinada...”
O antropólogo, professor e filósofo belga Claude Levy-Strauss
– que levou suas luzes à Universidade de São Paulo, onde lecionou – disse a
mesma coisa, posto que com outras palavras. Escreveu, em “O pensamento selvagem”:
“Assim como se diz de certas carreiras, a história leva a tudo, mas contanto
que se saia dela”. Ou seja, é válida e útil, como destaquei. Todavia... sem
tomá-la ao pé da letra, como expressão da verdade, como relato fiel do que
algum dia teria acontecido em algum lugar. Este é o senso crítico que tem que
nos nortear, sem que formemos dogmas inquestionáveis aos quais nos aferremos
fanaticamente, que apenas retardam, quando não impedem, nossa evolução mental e
intelectual. Diz-se, amiúde, que a “História é a mestra da vida”. Eu não diria
tanto. Diria que a vida é a única mestra à qual devemos nos curvar e aprender
com ela.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Dependendo de quem contar a história, teremos dezenas de versões, uma em cada livro escrito sobre os anos/fatos pelos quais vivemos. Escolhendo os autores, jornais, blogs, canais de TV e rádio, parece que vivemos situações opostas. Qual versão prevalecerá?
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