Derrotados por mosquitos!
* Por
Mouzar Benedito
Mutuca é que tira boi
do mato.
Morador de cidade
grande não deve conhecer mutuca, e pode não entender esse ditado. Mosquitinho
de picada dolorida, ele é temido. Seja boi ou gente que invada seu habitat, tá
ferrado.
Mas, se em São Paulo,
por exemplo, não tem mutuca, tem outro inseto pentelho que nos arrasa, o
maldito Aëdes ægypti, parente do pernilongo, mas pior do que ele, pois não se
limita a azucrinar o ouvido da gente e dar umas picadas. Malária, dengue e
febre amarela são algumas das coisas com que ele nos brinda.
Esse mosquitinho
bandido é originário do Egito, daí seu nome. Chegou ao Brasil e em outras
regiões tropicais em navios negreiros, traficantes de escravos, no século XVI.
A dengue também não existia por aqui, chegou só no século XIX, em Curitiba,
trazida por não sei quem, algum doente que veio com ela e o mosquitinho
desgraçado se encarregou de esparramar.
Esses mosquitos gostam
muito de atacar no amanhecer e no final do entardecer. Isso é, gostavam, pois
agora parecem não ter mais horário. E também lugar: chegam até a apartamentos
em prédios altos.
Segundo se diz, é no
verão, com temperatura alta, que tanto o Aëdes quanto o pernilongo infestam a
cidade de São Paulo, mas este ano esqueceram de avisar esses mosquitos que já
está na hora de pararem de incomodar a gente, pois já estamos entrando no
inverno, e faz frio.
Os desgraçados
continuam atacando, pelo menos na Vila Madalena, onde moro. E pior: parece que
gostam de inseticidas e mesmo daquelas pastilhas colocadas em tomadas que
deviam espantá-los.
Jogo inseticida spray
neles, sabendo que com isso estou contribuindo para ferrar a camada de ozônio,
e eles nem dão bola. Coloco as tais pastilhas na tomada antes de dormir, e os
canalhinhas parecem até gostar. Acho que estão é viciados nessas coisas todas.
E passado o surto de
dengue, parece que o governador e o prefeito não ligam mais para os mosquitos.
Vão pensar neles de novo quando vier outro surto de dengue, no próximo verão.
Enquanto isso, temos que aguentar.
O que diminui um pouco
a quantidade deles são as raquetes elétricas de matar mosquitos. Frito um monte
deles por dia, e cada um que acerto me dá um prazer enorme. Mas logo chegam
outros, em grupinhos pequenos ou em bandos.
Por causa da
infestação desses insetos, que este ano está inédita, andei me lembrando de um
profissional que não existe mais, e que teve uma grande importância para a
saúde pública no Brasil: o mata-mosquitos.
Quando criança, via
mata-mosquitos indo de casa em casa, principalmente as moradias mais precárias,
borrifando inseticida. Depois, na década de 1970, trabalhando ou passeando por
regiões bem “remotas”, sempre encontrava equipes da Sucam – Superintendência de
Campanhas de Saúde – indo de casa em casa, borrifando inseticida.
Foi o médico Oswaldo
Cruz quem criou o serviço de mata-mosquitos, em 1903, durante o governo
Rodrigues Alves, para combater a febre amarela que assolava o Rio de Janeiro,
cidade temida por muita gente, e até chamada de “túmulo de estrangeiros” por
causa dessa doença.
Oswaldo Cruz foi
ridicularizado por uma imprensa opositora de Rodrigues Alves. Não acreditavam,
ou fingiam não acreditar, que um mosquitinho era o responsável pela transmissão
da doença. Mas em 1908 já não havia mais casos de febre amarela no Rio de Janeiro.
O combate ao mosquito
continuou e foi muito eficiente em 1958 a Organização Panamericana de Saúde
declarou a extinção dos Aëdes ægypti no Brasil.
Mas como sempre
acontece aqui, com isso houve um relaxamento no combate a eles na década
seguinte e eles voltaram. E por causa disso, em 1986 e 87 houve uma epidemia de
dengue que deixou os brasileiros com muito medo.
Para piorar, em 1990 o
governo Collor acabou com a Sucam, que abrigava os mata-mosquitos, e houve um
desarranjo no serviço deles. O resultado foi um crescimento geométrico dos
casos de dengue.
O serviço de combate a
esses insetos ficou então a cargo da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), órgão
subordinado ao Ministério da Saúde. Durante a década de 1990, durante o governo
FHC, Adib Jatene assumiu o cargo de ministro da Saúde e fez um plano audacioso
para o combate ao mosquito e às doenças transmitidas por ele, prevendo gastar
R$ 4,5 bilhões em três anos. Mas ele foi substituído e o plano não foi
prejudicado. Pouco foi posto em prática, mas o número de vítima da dengue
diminuiu um pouco.
Em 1999, o então
ministro da Saúde, José Serra, demitiu quase seis mil mata-mosquitos no estado
do Rio, passando a responsabilidade de fazer o trabalho deles a órgãos
municipais, que não tinham preparação nem estrutura para isso, e foi um
desastre. Exemplos de ineficiência: a prefeitura de Nova Iguaçu contratou uma
empresa especializada em matar baratas para fazer o serviço, e a do Rio, se não
me engano, passou a responsabilidade para a empresa de coleta de lixo.
Aí é que a coisa
começou a desandar de vez.
O número de vítimas da
dengue no Brasil, que havia baixado de 558 mil em 1998 para 209 mil no ano
seguinte, começou a subir de novo. Em 2001 já chegou a 400 mil, e continuou
subindo.
No final de 2001 e
início de 2002, só no Rio de Janeiro uma epidemia de dengue atingiu 290 mil
pessoas, e 91 morreram. No dia 18 de janeiro de 2002, morreu a primeira vítima
da dengue hemorrágica do século XXI no Rio de Janeiro. A coisa se alastrou e
chegou até à vizinhança do palácio do governo federal: em 4 de março morreu a
primeira vítima da dengue em Brasília.
De lá pra cá, as
epidemias se sucedem cada vez atingindo mais gente em mais lugares. E o combate
ao Aëdes, sem os mata-mosquitos de antigamente, foi totalmente ineficaz. Em
2015 e 2016 o problema foi agravado pela chamada “crise hídrica” que levou à
necessidade de guardar água em latas, baldes, tanques e o que fosse, gerando
criadouros de larvas do Aëdes dentro das casas. Aí sim, houve uma “explosão” de
casos de dengue, principalmente no estado de São Paulo, onde poucas cidades
escaparam da doença.
E podemos esperar: no
próximo verão tem mais. E já que os governos não conseguem vencer o mosquitinho
miserável, tomara que pelo menos fique pronta – e funcione pra valer – a vacina
contra a dengue. E também para que não voltem outras doenças “antigas” pras
bandas daqui, porque se vierem de fora algumas pessoas com essas doenças, o
Aëdes, que continuará abundando, se encarregará de alastrar a praga. Se já
conseguimos trazer para o final do século XX e início do XXI a dengue que
julgávamos ser coisa de outro século, podemos trazer também, agora, a malária,
a febre amarela, a leishmaniose, a peste negra… Cruz credo! Pena que não dê
para trazer o Oswaldo Cruz de volta.
*
Jornalista
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