Ronda no tempo
O ano de 2016, que em nossa mente
parece recém-começado ou que nunca vai terminar, se irá, no final de semana,
sob o espocar de fogos, estouros de champanhas, abraços, beijos, votos de
felicidade para o nascente 2017 e muitas esperanças das pessoas (de algumas),
de que as coisas vão melhorar. Uns dizem: "Já vai tarde". Outros, já
sentem saudades das coisas boas que lhes aconteceram. Outros, ainda, estarão
tão bêbados na passagem que nem pensarão em nada. Ou, quem sabe, em meio ao
torpor produzido pelos vapores etílicos, elucubrarão se devem tomar mais um
copo ou não. É a ronda inexorável do tempo, que encerra mais um capítulo em
nossas biografias, de um número que não sabemos quantos serão.
Com a entrada do novo ano, nos distanciaremos
mais e mais do mítico 2000. Lembro-me que, quando criança, esse parecia ser um
período remotíssimo, que a maioria achava que jamais alcançaria. E as fantasias
que então eram divulgadas em relação a essa data, em um estéril e inútil
exercício de futurologia! As previsões eram tão absurdas, que raiavam ao delírio.
Falava-se que as viagens interplanetárias seriam uma rotina, por exemplo. Que
as máquinas governariam o mundo e fariam todo o trabalho do homem e que este
poderia gastar todo o tempo que tivesse apenas para o prazer e para as artes.
Para os pessimistas, a humanidade
jamais chegaria ao 2000, que seria o limite do "fim do mundo". A
rigor, essa hecatombe ainda pode acontecer. Sempre pôde, dada a fragilidade
deste pequeno planeta azul. Basta lembrar o que aconteceu com os dinossauros há
65 milhões de anos, muito antes do surgimento do homem. E no entanto... Pouca
coisa mudou em relação aos anos 40 ou 50, por exemplo. A Terra ficou mais
povoada e poluída, é verdade. Algumas engenhocas tecnológicas tornaram a vida
de alguns mais fácil e complicaram as de muitos outros, suprimindo-lhes os
empregos. As mazelas políticas, econômicas e sociais continuam as mesmas, assim
como as guerras, a criminalidade, o tráfico e consumo de drogas, o fanatismo
religioso ou ideológico, etc. Tudo isso aumentou apenas em quantidade. Pudera!
A população do Planeta dobrou em apenas quatro décadas.
Muitos podem achar que esta não seja
uma reflexão oportuna nas vésperas de uma virada de ano, quando as pessoas
planejam o futuro. Mas esse planejamento é necessário? É útil para alguma
coisa? É, pelo menos, viável ou possível? Não sabemos sequer se iremos
sobreviver a esta noite! Além disso, é a imprevisibilidade que torna a vida a
aventura fascinante que de fato é. Santo Agostinho deixou registrada uma
reflexão muito sensata, e exata, sobre o tempo. Escreveu: "Se nada
passasse, não haveria passado, se nada adviesse, não haveria futuro e, se não
fosse, não haveria presente. Nem o passado nem o futuro são, daí ser impróprio
se falar em três tempos. A rigor o correto seria falar no presente do passado,
no presente do presente e no presente do futuro. Os três modos estão em nosso
espírito. O presente das coisas passadas é a memória, o presente das coisas
presentes é a visão direta, o presente das coisas futuras é a espera".
O sociólogo Roberto da Matta tem outra
colocação. Acentua: "Tal é o tempo que corre, como lágrimas e sangue por
dentro do espaço da casa. Casa que passa pelo tempo que tudo destrói, menos a
vida contida pela teia de relações que constituem o nosso mundo social. Esses
elos, que apesar do nosso individualismo e cosmopolitismo, ainda nos dobram e
nos obrigam a fazer e a dizer coisas que não queremos e sabemos".
Daí a conclusão lógica de que o mais
racional e inteligente é viver cada momento com a máxima intensidade, já que
pode ser o último. É aproveitar cada oportunidade que surgir para acrescentar
algum episódio marcante à nossa biografia e, principalmente, para fazer com que
ela seja digna de ser escrita. Compete-nos nos empenharmos para produzir obras
e obras e mais obras consistentes, que evitem nossa segunda morte, a do
esquecimento. Que os próximos 365 dias sejam uma feliz ronda no tempo, não
grotesca ou penosa, mas repleta de episódios marcantes e do encontro da
felicidade, a principal das nossas obrigações enquanto seres racionais.
Boa leitura!
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Nenhum comentário:
Postar um comentário