Homem inacreditável
O verdadeiro sonhador, o idealista, o
que tem obsessão por justiça, igualdade, paz e harmonia, não é o que se limita
a sonhar, sem nada fazer para concretizar seus sonhos. Pelo contrário, é o que
vai à luta e, contra tudo e contra todos, dedica a vida à construção desse
ideal. E se fracassar? Não, ele nunca fracassa!
Seu empenho resulta, invariavelmente,
em algum tipo de progresso. E essa tocha sagrada da liberdade e justiça que
conduz será empunhada por outro sonhador, que a passará a outro e assim
sucessivamente, promovendo contínua evolução dos povos.
Quem se limita a sonhar, sem nada
fazer, é omisso. Espera que outros executem a tarefa que lhe compete. A poetisa
Fabiana Bórgia define, com precisão, o perfil do verdadeiro sonhador, nestes
versos do poema “Pedaços juntados”:
“O sonhador
tem a alma no céu
e os pés no chão”.
É esse o tipo de pessoa de que a
humanidade precisa para evoluir. Ou seja, com a alma no céu, mas com os pés bem
fincados no solo da realidade.
Há quase 70 anos, em 30 de janeiro de
1948, o mundo recebeu, chocado, a notícia do assassinato de um dos homens mais
notáveis que já passaram pela Terra: Mohandas Karamanchand Gandhi, conhecido
como “Mahatma”, palavra que significa “grande alma”.
O irônico disso é o fato do apóstolo da
não-violência haver morrido de forma tão violenta: abatido com um tiro pelo
jornalista Nathuram Godse. Na oportunidade, Jawaharlal Nehru, que se tornaria
primeiro-ministro da Índia, ao anunciar pelo rádio a morte do companheiro de
lutas e, sobretudo, amigo (passou a adotar Gandhi como sobrenome de família),
disse: “A luz apagou-se de nossa vida e há treva por toda a parte”. E havia...
Esse foi um evento que me marcou para
sempre. Eu tinha, na ocasião, apenas cinco anos de idade (que havia completado
dez dias antes, em 20 de janeiro) e meu pai já me havia ensinado a ler, em uma Bíblia que guardo,
ainda hoje, como uma das maiores, se não a maior relíquia que possuo. Apesar de
ser tão criança, fixei na memória aquele dia especial e me lembro nitidamente
de tudo o que aconteceu, como se houvesse ocorrido há alguns minutos apenas.
Por que? Jamais soube explicar.
Soube do infausto acontecimento ouvindo
a conversa do meu pai com um senhor negro, com o qual ele tinha enorme amizade.
Essa pessoa visitava a nossa casa com freqüência, diria que semanalmente, e por
um motivo bastante peculiar: para praticar o idioma russo. Sim, ele falava essa
língua tão complicada, que aprendera em Moscou, onde havia estudado! De volta
ao Brasil, temia esquecer essa maneira insólita de falar, que para nós,
brasileiros, parece tão rude e bárbara, mas que, na verdade, é sonora e bela.
Esse amigo da família trocava com o meu
pai livros e revistas russos. E nos seus encontros, raramente os dois falavam
outra língua que não essa. Meu conhecimento desse idioma é ínfimo, mas na
oportunidade, não era tão ruim como é hoje. O tempo e a falta de prática fizeram
com que me esquecesse quase que por completo do russo.
Lembro-me que meu pai estava bastante
triste ao dar a notícia, que ouvira horas antes no rádio, do assassinato de
Gandhi. Uma frase dele, em particular, ficou retida em minha memória de criança
de cinco anos na ocasião: “Mais uma vez, a força bruta venceu a razão”. Claro
que, na oportunidade, não apreendi o significado dessa declaração. E nem
poderia. Com aquela idade, o que eu entendia da vida?!
Hoje, sei perfeitamente o que meu pai
quis dizer e lamento profundamente que a violência ainda prepondere sobre a
racionalidade. Quando do assassinato de Martin Luther King, muitos anos depois,
quando eu já era jornalista e comentarista de política internacional,
lembrei-me dessa frase, dita pelo meu pai. E finalizei com ela o artigo que
escrevi na oportunidade, sobre a morte desse não menos notável líder
negro.
Mas a manifestação mais enfática a
respeito do assassinato de Gandhi foi de Albert Einstein, que declarou: “As
futuras gerações talvez não acreditarão que uma pessoa assim andou em carne e
osso pela Terra”. Tenho-a, comigo, em meu arquivo, extraída de uma entrevista
que o físico nuclear concedeu à imprensa na ocasião.
E não é o que acontece? Ouço, amiúde,
jovens afirmarem que há muito exagero na avaliação de Gandhi. Digo-lhes,
invariavelmente, que estão enganados. O mártir da independência indiana foi
mais, muito mais do que a imprensa falou dele. Se houve exagero, portanto, ao
avaliarem-se os seus méritos, este foi para menos, muito menos. Homens com
tamanha envergadura moral, lucidez e grandeza, infelizmente, são incomuns e,
sobretudo, inacreditáveis. Mas existem (felizmente)!
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Tive experiência semelhante, Pedro, mas um pouco mais velha. Em 1963, com 8 anos mal completados, estando sentada no chão do quarto da minha mãe, soube através dela, que amplificou noticia do rádio, que John Kennedy havia sido assassinado. Ela teve e eu também tive medo de uma guerra atômica. Nunca me esqueci daquele momento.
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