A mais longa duração da juventude
* Por
Urariano Mota
A jornalista e
escritora Christiane Brito assim abriu o meu texto no jornal português Tornado:
“Urariano Mota é um
grande escritor do Recife (Pernambuco). É autor de Soledad no Recife (Boitempo,
2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em
1973, e de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel
e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil.
Aqui ele apresenta seu
novo livro, belíssimo “A mais longa juventude”, que está disponível para leitura gratuita no Kindle. Fala de política, amor e sexo, num
tempo que flui na ilógica da memória da ditadura e no resgate da força de uma
juventude eternamente indignada contra a opressão.
Bom, Urariano é um
brasileiro de Olinda e Recife, tem outra riqueza cultural, linguajar, fiquei
muito feliz quando ele quis colaborar com o Tornado”.
A seguir, a breve
apresentação que escrevi para o Tornado:
Sobre o meu mais
difícil romance ainda não posso falar. Ele fala por si, desde o título. Creio
que dele falarão melhor alguns trechos, que copio a seguir:
“Há um pensamento de
Goethe, registrado por Eckermann, que fala da puberdade repetida. É um conceito
luminoso, sem dúvida. Mas essa juventude ampliada ainda não seria uma ambição
desmedida, pois mais adiante, ainda segundo Eckermann, o poeta de gênio insaciável
expressou uma crença na imortalidade com estas palavras:
‘A crença em nossa
imortalidade vem do conceito de atividade, pois se eu me conservo ativo
ininterruptamente até a morte, a natureza vê-se obrigada a conceder-me uma nova
forma de existência logo que o meu espírito não possa suportar mais a minha
atual forma corpórea’.
Narro com os olhos que
não se negam a ver. Atravessamos o tempo como uma flecha cujo alvo é o que
canto e conto.
Acompanho os fios
brancos de suas cabeças se tornarem frágeis, quebradiços, e me falo e percebo
que algumas não piscaram no alto. No píncaro do tempo, não decaíram, como se
fossem uma revolta contra a biologia, contra a organização da vida que se
desorganiza e se desintegra quando chega ao fim. Parodiando Goethe no poema Um
e Tudo, eles foram atravessados pela alma do mundo, e com ela lutaram sem
descanso, como se vivos pudessem ter a eternidade. Tomaram outras formas, é
certo, mas mantiveram a permanência do ser da juventude. Como? Não sou um
filósofo, e assim não posso escrever “uma análise concreta de uma história
concreta”, para usar frase dos anos de 1970, que parecem vir de longe. São anos
de outro século, de outras vidas, de outros costumes, de outro país. Até de
outra humanidade, eu diria. Para os mais jovens, seria como entrar em uma sala
do cinema para ver um encantador filme em preto e branco. “Eles eram assim? Meu
Deus, que doidos”. E como não sou um filósofo, tenho que falar desses
companheiros de jornada como um escritor. E por isso as minhas mãos tremem. Em
lugar de gelo ou de as amarrar, livro-as pela crueldade, que pode ser remédio
para a ternura que me embaraça. Mas como ser cruel com o objeto que nos assalta
e se revela como uma perseguição? Então que sejamos verdadeiros, apenas. Isso é
o máximo dos máximos que poderei sonhar.
Há uma raiz que brota
e não a cultivamos. Ela é maior que as nossas forças para soterrá-la, vem,
cresce e rebenta. É a nossa cara de infância. É a nossa cara de juventude. Nós
não somos esses senhores que andam por aí sérios, graves, portadores de
condecorações e votos de louvor. Não. Nós somos os anteriores. Nós somos os
filhos de Maria, Dagmar, Ana Rita. Não passamos de filhos sem mãe que nos
metemos nessa cara de importantes senhores na superfície. Essas roupas, bens,
cargos, lustres e lixos não nos dizem respeito. Falamos grosso e somos frágeis.
Levantamos cacetes, falos, coxas e seios, mas não passamos de crianças que
perderam seu colo e remédio. O melhor de nós é o que sobrevive a essa pele de
rugas. E volta à tona em irrupção súbita, vulcão silencioso e ativo. Ainda que
sentimento, não é sentimental. É alma fina alma, que sempre houve e se
ocultava. E retorna em ataque vitorioso de guerrilha. Em lugar de derrotados,
aqui nos subjugamos para melhor honra.
Pergunto ao novo dono
do prédio onde morei se existe acima de nós uma água-furtada. Ele me olha como
os cidadãos saudáveis olham os assaltantes ou loucos. Corre sobre mim, de alto
a baixo, a sua diferença e me responde: ‘Eu não sei’. E não posso nem devo lhe
dizer que procuro Selene, Zacarelli, Batráquio, Luiz do Carmo e o jovem que fui
ali.
‘Onde estão todos
eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente’
Assim escreveu Manuel
Bandeira ao evocar a casa do avô na Rua da União, que fica na esquina. Mas isto
não é o poema de Bandeira. Isto é uma narração de revolta, que exige o retorno
do que fomos. E por isso desço e procuro a água-furtada onde um dia me escondi.
O lugar onde à noite ouvi Ella Fitzgerald sem vitrola. Aquele, onde ouvi Ella somente
ao alisar a capa do disco, que girava em mim. E por isso vou ao muro do Parque
13 de Maio e nele subo, eu, este senhor que não pula mais de qualquer altura,
eu, este senhor que deseja a vida de antes retornada, com esforço vou à grade
sobre o muro e busco o pássaro da juventude. E o encontro numa pequena elevação
do telhado, oculto da vista do público, das pessoas que na calçada estranham um
senhor obeso arfando. Eu te achei, nós te achamos, pássaro...
- Nós estamos no XXI.
Temos informações que antes não existiam. Isso quer dizer, por exemplo: a
ciência caminha para a descoberta da imortalidade. É claro, é tudo muito
rudimentar ainda. Mas pode ser alcançada ainda em nossa geração – Zacarelli me
fala.
Mas o que faremos da
imortalidade? O que plantaremos no lugar do que é efêmero, que retira do
próximo fim o seu gozo? Como teremos a saciedade sem a fome? Seria a
imortalidade o paraíso sem o seu contrário, uma duração eterna do que é fluido
e fugaz?
O que não é mais Luiz
do Carmo está entre flores. O que foi, eu sei. O que não é, é este sobre o qual
os amigos têm os olhos com lágrimas. Então, não sei de onde me vêm palavras que
digo a ele me dirigindo a seus filhos. Não sei bem o que falei, apenas possuo imagens
que destaquei sobre o escritor. O jornalista. O homem de partido. Mas acima de
tudo o companheiro de geração. Olho para o corpo de Luiz do Carmo, olho para os
filhos, e só me vem o mais íntimo, o que não posso falar. Eu sei e não posso,
não devo, para não cair no mais lamentável espetáculo que um homem pode cair.
“Como escutar Ella Fitzgerald? Você não tem vitrola”, ele me disse. O mais nu e
mais íntimo, que fala da entrega da alma ao melhor, à fruição da arte, ao
espírito mais belo e rebelde da juventude. Engasgo, e por estar engasgado sei
que devo sair do velório. A minha mulher me dá o braço. Me atormenta, mas não
falo a pergunta que escrevo agora:
- Para onde vamos?
Saio carregado”.
O personagem sai
carregado. Mas assim não acabo o livro. Até mesmo a cópia do fim me dói no
peito. Eu só espero que o romance A mais longa juventude alcance o coração de
todo humano, porque do meu ele saiu.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho
renegado de Deus”, “Dicionário amoroso de Recife” e “A mais longa juventude”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros
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