Passou
* Por
Rubem Braga
O ano passou. Não sei
se vós, leitor amigo, ou vós, distinta leitora, o passastes bem. Eu, como já
passei muitos, os tenho passado de todo jeito, e ainda hoje esse segundo que
vem depois da meia-noite me perturba.
Já passei ano só, em
terra estranha, ou – o que é mais amargo – na minha; ou andando como um tonto
na rua ou afundado num canto de bar ruidoso; ou tentando inutilmente telefonar;
dormindo; com dor de dente. E quando digo de todo jeito estou dizendo também de
jeito feliz, entre gente irmã ou nos braços de algum amor eterno – braços que
depois dobraram a esquina do mês e da vida, e se foram, oh! provavelmente sem
sequer a mais leve mágoa nos cotovelos, apenas indo para outros braços.
Passam os anos, passam
os braços; mas fica sempre, quando a terra dá outra volta em si mesma, essa
emoção confusa de um instante. Conheço pessoas que fogem a esse segundo de
consciência cósmica, afetando indiferença, indo dormir cedo – como se não
estivessem interessadas em saber se esta piorra velha deste planeta resolveu
continuar girando ou não. É singular que entre tantas festas religiosas e
cívicas nenhuma chegue a ser tão emocionante e perturbe tanto a humanidade como
esta, que é a Festa do Tempo. É como se todos estivéssemos fazendo anos juntos;
é o Aniversário da Terra.
Se a alma estremece
diante do Destino, o espírito se confunde; reina uma tendência à filosofia
barata; vejam como eu começo a escrever algumas palavras com maiúsculas, eu que
levo o ano inteiro proseando em tom menor, e mesmo o nome de Deus só escrevo
assim para não aborrecer os outros, ou para que eles não me aborreçam..
Já ao nome do diabo,
não; a esse sempre dei, e dou, o 'd' pequeno, que outra coisa não merece a sua
danação. A ele encomendamos o ano que passou - e a Deus, o Novo. Que vá com
maiúscula também esse Novo; fica mais bonito, e levanta nosso moral.
E se entre meus
leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro
consigo mesmo, e viveu esse instante na solidão, na tristeza, na desesperança,
no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido
dizer: "Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e
maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; é menos
mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, ás vezes dá uma aragem. Dá,
sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito sol
nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está
rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e
tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão.
Rio, janeiro de 1952
* Escritor lembrado como um dos melhores cronistas brasileiros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário