“O
show vai começar”
* Por Mara Narciso
“Por favor, desliguem seus celulares
ou os deixem no silencioso. Peço para que não filmem nem tirem fotos. Obrigada!”
Sabe-se
que foram dez meses de trabalho do Pátio Flamenco em Montes Claros. Elisa
Pires, montes-clarense formada em psicologia, dedica-se à dança flamenca desde
a adolescência. Para horror do seu pai, o neurologista Francisco Almir Pires,
já falecido, largou uma carreira tradicional para se dedicar à dança e dela
entender tudo como dançar, ensinar, coreografar, dirigir, produzir, planejar
cenário, figurinos, maquiagem, adereços, entender os meandros de como
administrar, buscar patrocínio, contratar, divulgar, comprar, motivar e levar
grupos em viagem para o mundo flamenco com resultados inacreditáveis. A
professora, depois de possuir uma escola de dança em Belo Horizonte durante
anos, volta à sua terra para plantar sementes e, agora, colhe a boa safra no I
Festival de Dança Flamenca de Montes Claros, no Centro Cultural Hermes de
Paula, com duração de três dias.
Com
bom público, tem início a apresentação de quase duas horas, que começou no
horário e, sem intervalo terminou numa grande festa. Simples, porém eficaz, o cenário,
com forte componente vermelho, traz um pouco da Espanha para a nossa cidade.
Tudo acontece com música ao vivo, onde se ouve o brilho do som da guitarra
flamenca de Micael Pancrácio, de Belo Horizonte, um virtuose inegável e
parceiro musical de Elisa Pires. De Londrina veio o cantor Ozir Padilha, com
voz potente, emitindo sons de alegria ou lamento, o que dá um tom dramático em
certos momentos do festival. O cajon, instrumento de percussão, foi dominado
por João Paulo Drumond, também de Belo Horizonte.
A
apresentação dos grupos constou de onze músicas, sendo três solos da grande
bailaora Elisa Pires, uma artista cuja dança moldou seu corpo, mente e todo o
seu comportamento. A paixão pela profissão e a sua segurança no palco a fazem
se agigantar, e ao se aproximar dela observa-se que tem uma estatura menor da
que aparenta em cena. Sua força e energia intermináveis são para ser copiados,
além da feminilidade, graciosidade e garra, naturalmente transferidas aos seus
pupilos.
Ainda
que iniciantes, o resultado obtido pelos alunos da coreógrafa surpreende até a
eles próprios. Com visão e experiência, Elisa Pires consegue extrair o melhor
de cada um, exacerbando as qualidades e minimizando as falhas. Estas foram
poucas, como, por exemplo, a não cronometragem entre os gestos, mas que não
atrapalha o conjunto, devido à meiguice e delicadeza de algumas componentes,
especialmente crianças, meninas graciosas e encantadoras, que parecem ter
nascido para dançar. O flamenco também está indicado para homens e meninos, e a
maneira deles dançarem mostra as características do gênero, tais como força e
vigor. João Pires saiu-se bem representando o lado menino. Foi bom vê-lo
dançar, no centro do palco, solto, fazendo gestos de cavalheiro com seu chapéu.
Também Alê Teixeira fez dueto com a bailaora Elisa em dois momentos.
Houve
apresentação com leques e castanholas, adereços que enriquecem a dança, assim
como a presença dos palmeros postados ao lado dos músicos, incrementando a
percussão. Em cena, algumas alunas com habilidades incomuns saltaram do
conjunto, e irão longe.
A
dança flamenca, com seu sapateado firme e gestos delicados das mãos, no caso
das mulheres, traz inúmeros benefícios, pois desinibe, entrosa, exercita,
melhora a memória e a coordenação, traz convívio, segurança, equilíbrio, força,
alegria e prazer. Veja o show e depois vá se juntar aos alunos. Caso entenda
que não tem jeito para a coisa, saiba que Elisa Pires tira leite de pedra, e
quando encontra um terreno fértil, aí sim, sua obstinação cria uma nova pessoa,
num novo mundo.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
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