quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Obsessão pelo tempo 1



O tempo, em seus múltiplos aspectos, é uma das minhas principais obsessões (diria que a maior delas), quer como escritor, quer como intelectual em busca do sentido das coisas e, sobretudo, da vida. Não por acaso, o livro que escrevi e pelo qual tenho a maior afeição (não só entre os que publiquei, mas entre todos os que produzi, incluindo os dezesseis inéditos), é “Cronos e Narciso”. Ou seja, é o que tem por tema central esse abstratíssimo conceito, paradoxalmente com tão concreta importância em nossas vidas. Redigi centenas de crônicas tendo-o por foco. Abordei-o em dezenas de extensos e analíticos ensaios. Um número que nem consigo contabilizar de poemas que compus trata de sua passagem e, principalmente, conseqüências. Vários dos meus contos tratam, sutilmente do tempo. Como se vê, ele é, mesmo, minha obsessão, no mais lato sentido, sem tirar e nem por.

Quando penso em mudar de assunto, eis que termina mais um ano e, por conseqüência, outro começa na sequência (como é o presente caso). E lá vou eu de novo tratar batidíssimo, porém inesgotável tema, enfocando novos ângulos que não havia, ainda, abordado. Hoje resolvi fazer algo diferente a respeito: realizar uma rápida e informal pesquisa, sem nenhum método especial, sobre como alguns dos meus poetas preferidos trataram e têm tratado do assunto. Claro que, se eu fosse me aprofundar, reuniria poemas suficientes para preencher não só um espaço, como este, mas toda uma coleção de antologias sobre o tema. Talvez um dia eu elabore uma, mas não para publicação, contudo para meu próprio deleite.

Pesquisando alguns livros de poesia a esmo, reuni alguns (poucos) versos e até poemas completos alusivos ao tema que peço licença para partilhar com vocês. A primeira peça literária do gênero é uma jóia de sensibilidade e inteligência de Cecília Meirelles. Separei de um de seus poemas (cujo título esqueci de anotar, mas não importa) quatro expressivos versos. No primeiro deles, a poetisa indaga: “De que são feitos os dias?”. E na sequência responde, de forma lírica e bela:

“De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças”.

E não são essas, ao fim e ao cabo, as matérias-primas dos dias? Claro que são!!! Já a poetisa norte-americana Emily Dickinson explora outro aspecto desse abstrato, posto que tão concreto ditador de nossas vidas, nestes dois magníficos quartetos:

“Dizem que o tempo ameniza
Isto é faltar com a verdade
Dor real se fortalece
Como os músculos, com a idade

É um teste no sofrimento
Mas não o debelaria
Se o tempo fosse remédio
Nenhum mal existiria”.

O tempo não ameniza coisa nenhuma nossas dores e frustrações. Apenas “encrua-as” e as mantêm, digamos, “congeladas”, em uma hibernação que pode acabar a qualquer momento, voltando à tona não raro com redobrada intensidade. Já o “poetinha” Vinícius de Moraes trata da principal conseqüência da passagem do tempo: o envelhecimento. Conclui, nos versos mágicos deste “Soneto de aniversário”, que há algo que nunca fica velho, passem quantos anos passarem. Diz:   

“Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envelhecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece”.

Pois é, o amor genuíno, profundo, correspondido ou não, nunca fica velho. Ou seja, não acompanha o envelhecimento dos respectivos amantes. O meu, pelo menos, nunca envelheceu e nem dá o mínimo sinal de velhice próxima, embora eu esteja prestes a completar meu 74º aniversário. Certamente o seu também, prezado leitor, nunca envelheceu. Querem versos mais bonitos e verdadeiros sobre o tempo do que este trecho da composição “Roda Viva” de Chico Buarque?:

“Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu (...)”

Lindo, lindo, lindo! Como lindo, também, é este soneto do meu conterrâneo Mário Quintana (este não poderia faltar!), intitulado “Recordo ainda”:

“Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!”

Encerro estes descompromissados comentários à margem com versos “mágicos” de outro “monstro sagrado” das letras mundiais, que foi este gênio francês chamado Victor Hugo:

“Desejo que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a desejar”.

Isso é o que também lhe desejo, amável e fiel leitor. E não apenas para o próximo ano que se aproxima, mas ao longo de toda a sua vida. Ou seja, que você se ame, e que ame ao próximo, “hoje, amanhã e nos dias seguintes”, enquanto houver tempo para amar, o que significa viver. E que este seja, como é para mim, também a sua obsessão!!! E, como Hugo afirma, “não tenho mais nada a desejar” a você e ao mundo, se não um dilúvio de amor!!!

Boa leitura!

O Editor.


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Um comentário:

  1. Como escrevi no Facebook, as suas escolhas foram tão boas que emudeci.

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