Não julguem
* Por
Maria Luiza Falcão
Que direito temos,
nós, pobres e falíveis mortais de julgar o próximo?
Tantas vezes
assistimos notícias sensacionalistas na mídia e num instante irrefletido
formulamos um juízo de valor. Diante dos fatos expostos, palavras ditas, e
baseados em nossas vivências em fatos anteriores, aparentemente semelhantes,
julgamos. Não raro condenamos e aplicamos a pena.
Tristes de nós, pobres
humanos.
Nos esquecemos das
tantas ocasiões em que inocentes são condenados e, quando têm sorte, são
absolvidos mais tarde, pela lei dos homens. Livres aparentemente. Mas quem
pensa naquele ser humano que durante pouco ou muito tempo sofreu sem culpa? Das
humilhações que passou? Do pavor diante da violência de um ambiente hostil? Das
oportunidades que perdeu, dos amigos que lhe viraram as costas, da vida da qual
foi “abduzido”, jogado num mundo surreal, improvável, injusto?
Quem são estas pessoas
que são acusadas de crimes que não cometeram? Quem eram elas antes de uma
acusação insana mudar suas vidas? O que elas representavam na pequena ou grande
comunidade em que viviam suas vidas simples? Que marido ou esposa eles eram?
Que pai ou mãe? Irmão ou irmã? Que dedicação tiveram à família? Quantas noites
insones passaram velando pelos seus, enfermos, carentes, necessitados? Quanto
buscaram conhecer sobre os problemas de saúde dos que amavam? Quanto se doaram,
quanto amaram, quanto abriram mão de si próprios, de sua própria saúde, sonhos,
por aqueles que chamaram de família?
Quem são estes que,
sem ter a mínima chance de serem ouvidos, foram jogados na lama, no esgoto,
expropriados de tudo?
Quem são estes que têm
hoje seus braços vazios, quando tudo que queriam era ter a família, os filhos
pequeninos e assistir no sofá da sala um programa de TV de domingo?
Toda história tem dois
lados, ou até mais. Às vezes um fato isolado precisa ser analisado seguindo
toda uma cronologia, toda uma história pregressa. As pessoas não são um instante
em suas vidas. Elas têm uma vida, dias, anos. Não se pode destruir tudo num
instante.
Por isso, diante das
próximas notícias, seja de onde for, ou sobre qualquer assunto, não julguem. Se
possível, coloquem-se no lugar dos acusados e lhes dêem o benefício da dúvida.
Questionem
simplesmente: e se não foi assim?
*
Escritora e artista plástica
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