Morar bem ou morar mal?
* Por
Núbia Araujo Nonato do Amaral
Morei muitos anos em
São Gonçalo, lá no fim do fim do mundo, é verdade! A pracinha mais bonita era
longe, as farmácias, postos de saúde e etc.
Ah!!!!! Mas tinha um
poço que quando estava vazio me dava respostas. Tinha uma ilha no quintal da
dona Maria cuja areia, clarinha, flertava com a nossa imaginação. Nos fundos da
casa dela tinha uma floresta (exagero de imaginação de criança) e no fim dela
um rio.
Dona Maria tinha uma
plantação de inhames, nunca mais os comi depois que a vi fazendo xixi em cima
deles. Tinha, também, um quarto repleto de revistas; depois de muito raciocinar
é que descobri que eram todas de cunho pornográfico, um dia conto uma do super
homem.
Lembrei-me das
meméias! Elas tinham um cabelinho difícil, minha mãe generosa que só, tacava
pente quente nas madeixas das meninas que ficavam tão felizes com os seus
cabelos dançantes. Pena que, na ilusão da cabeleira lisa, achavam que molhando,
eles ficariam mais esvoaçantes.
A gente até se dava
bem, o problema é que elas cuspiam que era uma beleza.
O terreno do turco e
seu lixo maravilhoso. Nunca me faltaram frutas, nem brinquedos. Podiam não ser
novinhos em folha, mas encaixavam tão bem no nosso universo!
As rezas da benzedeira
dona Lourdes, uma "nega" enorme com cara de anjo, se era boazinha eu
não sei, nunca nos fez mal. Minha mãe lavou bastante roupa pra ela.
Os gatos que no
inverno a gente botava pra dentro de casa sem que minha mãe soubesse.
O café fresquinho com
pão de ontem, duro feito pau que a gente aquecia no fogão.
Morei bem ou morei
mal? Se puder somar, como eu fiz, tantas lembranças, e se estas lhe causam
sorrisos, não cabe julgar. Vai depender de tuas lembranças...
* Poetisa, contista, cronista e colunista do
Literário
A pobreza nossa de cada infância. Apenas agora temos consciência do tamanho que ela era.
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