O cólera migrou do Oriente para o
Ocidente
O cólera é, basicamente, doença do século XIX. Pelo menos
foi quando ocorreram as piores epidemias (inclusive várias pandemias) de que se
tem notícia. Nenhuma, porém, foi tão severa como as tantas pandemias de peste
bubônica. Desconfio, todavia, que a patologia seja muito mais antiga do que se
pensa, mas, provavelmente pelo fato das pessoas não conseguirem identificá-la,
praticamente não há registros anteriores à Idade Média. Admite-se que tenha surgido
no Oriente e migrado para o Ocidente. Vários escritores importantes trataram
dela, posto que todos os que selecionei sejam dos séculos XIX e XX. Antes de
comentar alguns dos principais livros que têm o cólera como foco, é
indispensável “apresentar”, embora sob a visão de um leigo, como sou, algumas
características da doença, que há muitas décadas não se manifesta (não epidemicamente)
em países industrializados, mas que ainda é onipresente em vastas regiões da
África, do Sudeste asiático e em algumas partes da América Central.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, todos os anos
são registrados de três a cinco milhões de novos casos no mundo. E, em pleno
século XXI – este nosso, da tão decantada globalização – segue matando um
número considerável de pessoas. Conforme os citados dados da OMS, a quantidade
de mortes causadas pela enfermidade oscila entre 100 mil e 200 mil anuais. Onde
há tratamento de água e de esgoto, as ocorrências chegam perto de zero. Onde
não há... infelizmente milhares ainda pagam com a vida por esse descaso,
eliminados por uma doença facilmente evitável. Países industrializados, como
Estados Unidos, Alemanha, França, Inglaterra, Suécia e Suíça, entre tantos
outros, não têm nenhum surto desde o início do século XX. Já no chamado Terceiro
Mundo, estes se sucedem, periodicamente, sobretudo por falta de medidas mínimas
de higiene.
E o que vem a ser o cólera? É uma doença infectocontagiosa
do intestino delgado, transmitida, na imensa maioria dos casos, por meio de
alimentos e/ou água contaminados. Seu agente causador é uma bactéria, com
formato de vírgula, batizada de “Vibrio Cholerae”. Ele foi isolado, em 1883,
pelo mesmo cientista que isolou o chamado “bacilo de Koch” (causador da
tuberculose), ou seja, Robert Koch. Esta bactéria é gram-negativa, que tanto
pode se desenvolver em ambientes aeróbicos, quanto anaeróbicos. Sua dimensão
varia entre 1,4 a 2,6 micrômetros de comprimento.
Esse agente patogênico pode ser encontrado de forma livre na
natureza ou aderido a superfícies de plantas (arroz, milho, trigo etc), a algas
verdes filamentosas, a zooplânctons, a crustáceos e a insetos. Fatores
ambientais, como, principalmente, pH, temperatura, salinidade e concentração de
nutrientes, exercem importante influência em sua interação. O “Vibrio Cholerae”
é mais ativo, por exemplo, em condições que se aproximam das características
naturais dos estuários dos rios. Sua provável origem, conforme os pesquisadores
é o delta do Rio Ganges, na Índia, um dos mais poluídos do Planeta, dados os
costumes religiosos dos hinduístas, que o consideram “sagrado” e onde os fieis
se banham e depositam as cinzas de seus mortos. Reitere-se que o contágio se dá,
principalmente, por via oral, por
ingestão de água ou de alimentos contaminados por dejetos fecais.
O desenvolvimento da doença é rapidíssimo e a morte pode sobrevir
não em questão de dias, mas de horas. Conhecem-se casos de cólera, na Índia,
desde a Idade Média. Insisto ser provável que a doença seja muito mais antiga,
mas que não pôde ser identificada em passado remoto por desconhecimento do que
a causava. Seu primeiro relato chegou ao Ocidente através do navegador
português Vasco da Gama. Esse almirante, responsável por descobrir o caminho
marítimo para a Índia, registrou, em seu diário de bordo, que em 1503, uma
fulminante epidemia de diarréia, notavelmente letal, causou vinte mil mortes na
cidade indiana de Calcutá. Mas a Europa só veio a ser afetada já no século XIX.
Por volta de 1810, o cólera ultrapassou as fronteiras dos
países asiáticos e chegou, pelas rotas comerciais, à Rússia e ao Oriente Médio,
estendendo-se, com grande rapidez, por todo o continente europeu e chegando até
às Américas. A partir de 1817, sete pandemias da doença assolaram o mundo. A
última, ocorrida já no século XX, ou seja, em 1961, ainda permanece ativa,
causando vítimas aqui, ali e acolá. Em outubro de 2010, por exemplo, em conseqüência
de fortíssimo terremoto que arrasou o Haiti, 1.500 pessoas morreram de cólera
nesse país, e 23 mil foram contaminadas. A segunda epidemia da doença, originada
na Índia, também entrou na Europa através da Rússia. Foi a de 1826. Passando
por Moscou, Berlim (onde fez, em 1831, uma vítima famosa, o filósofo Georg
Wilhelm Hegel) e as ilhas britânicas, chegou à França, onde matou pelo menos
cem mil pessoas, entre as quais o rei Charles X.
Boa leitura.
O Editor.
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O cólera estava ausente do Brasil e não estudamos a doença na faculdade, mas voltou uns 25 anos atrás, no litoral da Bahia. Depois tornou a sumir. A pessoa doente elimina fezes líquidas como água de arroz, perde todo o líquido do corpo e morre. Nunca vi um caso. Sei apenas dos livros, que fui ler quando reapareceu. Assustador.
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