Na Itália dos meus sonhos IV
* Por
Adair Dittrich
Sempre com o
Mediterrâneo nas adjacências há vários dias já nós circulávamos. E, por mais
algum tempo por perto dele ainda permaneceríamos. Tantos lugares históricos
restando para visitarmos na Itália e, infelizmente, não seria possível. Mas o
imprescindível era ver Davi. Davi, a estátua de Davi em mármore esculpida por
Michelangelo.
Então, o nosso próximo
destino era Firenze, a linda e florida Florença, a Florença dos encantos da
Toscana. Florença, a cidade onde nasceu e viveu o poeta-maior Dante Alighieri.
Não era necessário
madrugar. Inúmeros trens fazem o percurso diário entre Roma e Florença.
E seguimos então rumo
à Roma Termini puxando nossos carrinhos com nossas bagagens.
Desde nossa chegada à
Europa, já em Portugal, encontrávamos grupos de ciganos circulando por todos os
lugares. Mas Roma parecia ser a capital, a cidade predileta desse povo nômade.
E todos, com aquele treinamento ancestral e peculiar com o qual abordavam, sem
cessar, as pessoas que encontrando fossem pelas ruas, praças e avenidas. E
tanto grudavam nos transeuntes que, muitas vezes, difícil era deles
desvencilhar-se sem que a seus rogos se cedesse.
No nosso primeiro dia
circulando pelas ruas de Roma deparamo-nos com a inusitada cena de um cidadão
que, deles tentando livrar-se só uma palavra gritou para ficar em paz. Uma
única palavra que pôs o bando a correr e a espalhar-se pelas adjacências.
Carabinieri! Ou seja, Polícia!
E nós estávamos
andando, lentamente, puxando nossa bagagem, rumo à estação ferroviária quando
um sorridente grupo de ciganos nos aborda. E Juci Seleme, minha companheira de
viagem, de imediato soltou aquela palavra-chave. Carabinieri! E o nosso
caminho, milagrosamente, em segundos livre ficou. Evaporaram-se os sorridentes
gitanos e as sorridentes gitanas que obstruíam nossa passagem querendo nos
vender joias de legítimo ouro, pequenos tachos de puro cobre e ler as nossas
mãos para nos indicar o melhor caminho a seguir no futuro.
Com a corrida nossa
através do calçamento milenar o meu carrinho-porta-malas começou a se
desintegrar. Sorte a minha de encontrar na plataforma da estação vendedores
deste indispensável produto. E lá mesmo deixei o meu nem tão velho, mas
alquebrado carrinho e acomodei minha bagagem em um novo, reluzente e forte que
guardo comigo até hoje.
Em menos de duas horas
desembarcávamos em Florença. E a paisagem da Toscana, de encher os olhos,
deslizava ao lado com seu colorido multiforme. Com o comboio em alta velocidade
não se distinguia, com percepção, o motivo de tanto colorido a cobrir campos e
colinas. Eram flores, muitas flores lá plantadas ou do solo emergindo há
milênios, as maravilhosas flores da terra das flores, da cidade das flores, de
Florença. E flores pela cidade toda. Nas janelas das casas e dos prédios. Em
jardineiras espalhadas pelas ruas. Defronte a restaurantes e cafés. Flores,
sempre flores.
E de Florença ainda
guardo um lindo chapéu de palhinha muito fina com um ramo de róseas pequenas
flores a enfeitá-lo.
Foi naquela bela
cidade que Michelangelo esculpiu o seu Davi. A primeira obra de arte a ser
procurada por quem lá chega. Que, na Accademia di Firenze exposta se encontra,
em um canto especial de uma sala especial onde, em êxtase, milhões de olhos a
admiraram já. E, tenho certeza que, todos, como eu, ficam a espera que Davi
fale. Ele é real. Com a sua funda pronta para ser usada. Com a sua funda pronta
para atirar a pedra que derrubaria Golias, o gigante bíblico.
Réplicas de Davi são
vistas em várias áreas externas. E pequenas réplicas que cabem em uma caixa de
sapatos são vendidas pela cidade toda. E a mais perfeita que eu encontrei, em
mármore esculpida, foi na Ponte Vecchio, a ponte sobre o rio Arno, a ponte
repleta de lojas, de ourivesarias, de artesanatos finos.
Ali eu adquiri uma
pequena imagem de Davi que, depois de devidamente acondicionada e embalada,
foi, pelo correio, enviada a meu amigo, artista plástico, Zezé Ganem. Ele me
encomendara uma estátua, em mármore, de Firenze. E eu, tão entusiasmada estava
com o Davi de Michelangelo que nem pensei duas vezes. Tinha que ser Davi. Zezé
deixara a meu encargo a escolha e confiara em meu bom gosto. Só não me avisara
que a predileção dele recaia sobre uma estatueta moderna. Mas, apesar da frustração
inicial, a pequena réplica de Davi no estúdio de Zezé Ganem, em destaque,
permaneceu enquanto entre nós ele esteve.
Aquilatar o
surpreendente impacto que o Duomo de Florença me causou é impossível.
Majestosa. Linda. Como um todo. Duomo de Santa Maria del Fiore. Na escadaria do
seu museu, estática ali sentada eu fiquei, em longa meditação, enquanto meus
olhos, marejados de lágrimas, embevecidos olhavam a Pietá de Michelangelo lá
exposta.
Visitar a Casa de
Dante Alighieri foi mergulhar em um passado distante quando Dante, o
sumo-poeta, publicava suas obras em língua italiana, a língua que ele unificou,
enquanto poetas e escritores de seu tempo só em latim escreviam. Sua obra
maior, a Divina Comédia lá está impregnada em todas as paredes da casa onde
viveu.
Escurecia, já, quando
melódicos acordes de inebriantes obras clássicas foram nos convidando para
entrarmos em uma grande tenda branca, retangular, em meio a uma praça instalada
para receber o Festival de Verão que lá estava acontecendo. Ambiente repleto de
mesas, quase lotado. Não se pagava para entrar e ouvir um piano e um quarteto
de cordas multiplicando sons. Pagava-se o que se consumiria. E o único produto
para se beber, cujo preço não fosse tão alto para as nossas minguadas liras era
uma xícara de café com leite. Que parecia termos sorvido com um conta-gotas
enquanto esperávamos findar o concerto que estava sendo executado.
Mas, quem chega a
Florença, a Pisa, ali tão pertinho, também vai. Menos de uma hora de trem para
vislumbrar a famosa Torre inclinada. Não se sobem aquelas escadarias.
Escalam-se os degraus. E escalá-los até o topo é uma aventura que merece um
diploma, um troféu.
A Torre que pende e
está sempre em pé. A Torre da qual, já em criança, eu tanto ouvira falar. A
Torre da canzoneta que minha Nonna já entoava:
“Evviva la Torre di
Pisa, che pende, che pende, ma sempre sta su”.
“Evviva la Torre di
Pisa, che pende, che pende e mai non vien giú”.
“Evviva la Torre di
Pisa, che pende, che pende e mai non cadrà”. (*) (**)
(*) Música e letra de
Paola Marchetti, compositora e pianista italiana.
(**) Só coloquei os
refrãos.
*
Médica e escritora.
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