Realidade que parece sonho
A vida, muitas vezes, parece-me tão irreal, tão maluca, tão
repleta de surpresas (boas e más) e apresenta tantos mistérios insondáveis, que
fico, volta e meia, com a estranha impressão de que tudo isso se trate de mero
sonho. Claro que não é. Caso fosse, uma dessas duas coisas diferentes (na
verdade antagônicas) com certeza iria ocorrer. Se o que estivesse me acontecendo
fosse muito bom, eu ficaria frustradíssimo se “acordasse” e se descobrisse que
nada daquilo, que tanto prazer me dava, era real. Ou seja, de que eu apenas
estivesse sonhando. Em caso contrário, claro, a sensação seria oposta. Seria a
de alívio, caso se tratasse de mero pesadelo. Feliz ou infelizmente, trata-se,
somente, de uma sensação passageira. Embora poeta, até por temperamento,
procuro manter os pés bem firmes no solo da realidade;
Tanto as coisas boas que me acontecem (admito, a maioria e
sinto-me privilegiado por isso) são reais, quanto as ruins, das quais busco me
livrar com o menor prejuízo possível (e o mais rápido que puder), tentando
extrair lições delas, no mínimo, para me prevenir (se possível) para que não se
repitam. Às vezes, é verdade, se repetem, e se repetem, e se repetem à minha
revelia. E, infelizmente, não são pesadelos (o são, apenas, em sentido
metafórico, mas não literal). Nos sonhos, coisas malucas acontecem. Já sonhei,
muitas vezes, por exemplo, que estava voando. Mas como? Meu subconsciente, em
algum momento, deve ter cogitado disso, mas reprimido, para evitar que eu
caísse em ridículo caso revelasse a alguém essa pretensão.
E o que isso tem a ver com literatura? Depende! Pode ter
muito, como pode não ter absolutamente nada. No sentido positivo, confesso que
pelo menos dois dos melhores contos que escrevi nasceram de sonhos. Claro que “podei”
alguns excessos, adaptei-os, fiz alguns providenciais acréscimos e... assim
nasceram histórias, surreais, como seria
de se esperar. Mas que nunca seriam escritas caso eu não sonhasse com tais
enredos. Infelizmente, essa fonte não é tão farta como gostaria que fosse. Mas
já rendeu frutos, o que não deixa de ser lucro. Há pessoas que dão importância
excessiva aos sonhos, entendendo que sejam premonitórios. Recorrem a algum dos
tantos “dicionários” de interpretação que há por ai e se angustiam se o que lêem
neles indicar problemas, ou mesmo tragédias. Raramente, porém, esses “interpretadores”
acertam. Nem poderiam.
Fosse Sigmund Freud que os interpretasse, com rigorosos
métodos psicanalíticos que desenvolveu, seria caso de levar esses sonhos a
sério. Afinal, segundo o “pai da psicanálise”, eles são frutos de coisas que
ocorrem ao nosso redor, mas que passam despercebidas do nosso consciente. Nossos
olhos não vêem, nossos ouvidos não ouvem, apenas o subconsciente as capta,
processa e nos transmite, durante o repouso, numa espécie de “descarga”. Todavia
não de forma literal, mas de maneira cifrada, mediante “símbolos”. Podem ser
premonitórios? Podem! Mas têm que ser interpretados, insisto, por algum hábil
psicanalista e não por meros palpiteiros de plantão, quando não rematados charlatães.
Sonhei, por exemplo, em determinada ocasião, que era mestre
de cerimônia de um evento em que as figuras centrais homenageadas eram o
falecido presidente norte-americano Ronald Reagan (na época ele ainda estava
vivo) e a rainha da Inglaterra, Elizabeth II. Censurei meu subconsciente por
esse arroubo de megalomania!!! Como ele se atreveu a cogitar isso?!! Óbvio que
nenhuma dessas personalidades públicas sequer desconfiava que eu existia. Bem
que gostaria que algum psicanalista interpretasse esse sonho específico que,
provavelmente, estava anos-luz de distância da tacanha interpretação que lhe
dei na ocasião. Pensei inúmeras vezes nessas personalidades, já que na ocasião
eu era editor do noticiário internacional do jornal Correio Popular. Meu
subconsciente aproveitou para fantasiar uma situação nitidamente impossível.
Como será que Freud interpretaria essa “viagem” do substrato mais íntimo da
minha psiquê? Nunca saberei!
A poetisa portuguesa Florbela Espanca não dava a mínima para
essas estripulias do subconsciente. Tanto que escreveu, em uma das tantas
cartas que enviou aos seus correspondentes (transformadas em dois interessantes
livros): “Não costumo acreditar muito nos sonhos... porque de todos se acorda”.
Há, porém, quem acredite piamente neles e que se apavore com seu teor, tentando
o impossível: adivinhar o que não aconteceu e provavelmente jamais acontecerá. Eu,
depois de haver sonhado com Reagan e com Elizabeth II, não consigo levá-los as
sério. Mas fico atento para detectar outro possível enredo para um novo conto.
Nunca se sabe. Se ocorreu mais de uma vez, não se pode descartar a possibilidade
de que volte a ocorrer novamente.
Estou tratando aqui de sonho, sonho, ou seja, daquele que
temos enquanto dormimos e não o do sentido metafórico que se dá a essa palavra:
o de desejos intensos, que pareçam (ou de fato sejam) improváveis, quando não
impossíveis. O ex-Beatle John Lennon fez a seguinte distinção entre ambos: “Um
sonho que sonhes sozinho é apenas um sonho. Um sonho que sonhes em conjunto com
outros é realidade”. Se não for, pode se
tornar, desde que ajamos para que se torne, caso valha a pena. Nem sempre vale.
Todavia, encerro estas reflexões como as iniciei: A vida, muitas vezes,
parece-me tão irreal, tão maluca, tão repleta de surpresas (boas e más) e apresenta
tantos mistérios insondáveis, que fico, volta e meia, com a estranha impressão
de que tudo isso se trate de mero sonho. E se for?
Boa leitura.
O Editor.
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Então Raul Seixas plagiou John Lennon pois cantou : "sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, sonho que se sonha junto é realidade".
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