Por um congresso com a cara do povo
* Por
Emir Sader
Nos sistemas políticos
representativos, os cargos executivos representam a maioria da população. Os
legislativos representam as distintas posições em suas devidas proporções,
espelhando a diversidade – social, política, cultural – da sociedade.
No entanto, não há
nada mais oposto à cara da sociedade brasileira do que a composição dos
parlamentos, a todos os níveis. É como se os congressos fossem a sociedade
invertida: há muito mais parlamentares representando o agronegócio do que os
trabalhadores rurais enquanto que, na realidade do campo, são milhões de
trabalhadores trabalhando a terra por um lado e um punhado de donos de
agronegócio por outro.
Acontece que, entre a
realidade concreta e essa representação invertida intervém o poder do dinheiro,
produzindo todas essas distorções. Se os grandes temas discutidos pelo
Congresso fossem debatidos e definidos pela sociedade realmente existente,
frequentemente as resoluções seriam o oposto do que os parlamentares
decidem.
O financiamento
privado de campanha elegeu, até aqui, não bancadas de partidos, mas de empresas
que os financiam, os conhecidos lobbies: do agronegócio, da educação privada,
da mídia, da bala, da vaca, dos evangélicos, dos planos privados de saúde,
etc., etc. O financiamento é um investimento, que tem como retorno o apoio aos
interesses dos que financiaram os parlamentares. É na verdade uma compra do
mandato deles pelo dinheiro que os financia. Torna abertamente a vida política
parlamentar um negócio.
É o neoliberalismo
invadindo a política. A concepção de que tudo tem preço, tudo se vende, tudo se
compra, tudo é mercadoria. Então parlamentares e partidos inteiros são reduzidos
a mercadorias, compradas, vendidas, reduzindo a isso o que deveria ser a
vontade popular.
Dados mostram que os
parlamentares que mais foram financiados pelas grandes empresas, são os mais
votados. Que um total de menos de 10 grandes empresas são responsáveis pela
eleição da maioria dos parlamentares.
A retirada dos
financiamentos empresariais pode representar a verdadeira possibilidade de se
eleger Congressos com a cara do povo e não das suas elites. Deve haver um
rígido controle – talvez levado a cabo pela OAB – das campanhas, mas a
possibilidade de uma disputa menos desigual é real. Menos desigual, porque a
mídia seguirá sendo um instrumento de promoção das candidaturas conservadoras,
mas as escandalosas campanhas recheadas de grana, com outdoors, cartazes, cabos
eleitorais, etc., etc..
Mas será necessária
também uma mudança de atitude dos movimentos populares em relação à luta política.
A influência liberal levou à exaltação da “sociedade civil” e ao desprezo pela
política, pelos partidos, pelos governos – típica das ONGs. Mas como a via
insurrecional atualmente é inviável, porque a correlação de forças levaria a um
massacre dos movimentos populares que se aventurassem por essa via, a
alternativa para realizar as profundas transformações necessárias para
democratizar radicalmente a nossa sociedade passa pela democratização do Estado
e da política. Provavelmente até mesmo da refundação do Estado mas, de qualquer
maneira, evitar retrocessos e avançar, requer uma maioria popular, de esquerda,
no Congresso.
Para isso, é preciso
eleger bancadas que representem diretamente o movimento popular, por exemplo,
da educação publica, da saúde pública, dos setores do movimento sindical –
metalúrgicos, bancários e tantos outros. Traduzir a maioria social em maioria
parlamentar. Só quando a esquerda conseguir maioria no Congresso, poderá se
desvencilhar de aliados incômodos e poderá realizar seu programa político.
O fim dos
financiamentos empresariais é uma grande oportunidade para realizar isso.
*
Sociólogo e cientista político
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