Impressões de Camus do “país da
desmedida”
“ (...) Às quatro da manhã, um estardalhaço no convés
superior me desperta. Saio. Ainda está escuro. Mas a costa está muito próxima:
serras negras e regulares, muito recortadas, mas os recortes são redondos –
velhos perfis de uma das mais velhas terras do globo. Ao longe, luzes. Seguimos
o litoral, enquanto a noite clareia, a água mal estremece, fazemos uma grande
manobra e as luzes agora estão diante de nós, mas longínquas. Volto para o meu
camarote (...)” Esta é a forma com que Albert Camus inicia sua descrição da sua
chegada à cidade do Rio de Janeiro, ponto inicial de sua longa e estafante
visita à América do Sul e, sobretudo, ao Brasil, onde permaneceu por 48 dias,
com uma pauta de compromissos capaz de estressar e esgotar o mais pacato e
resistente dos homens. Imaginem um sujeito então doente (acabou tendo uma
recaída da tuberculose) e com mais coisas a fazer do que meramente jogar
conversa fora com intelectuais e os que se julgavam tal, sem que o fossem (a
maioria, por sinal).
Mas, prossigamos na leitura dessas suas primeiras
impressões, que constam de seu livro “Diário de viagem”. “(...) Quando torno a
subir, já estamos na baía, imensa, um pouco fumegante no dia que nasce, com
súbitas condensações de luz, que são as ilhas. A névoa desaparece rapidamente.
E vemos as luzes do Rio correndo ao longo da costa, o ‘Pão de Açúcar’, com
quatro luzes no seu topo, e no mais alto cume das montanhas, que parecem
esmagar a cidade, um imenso e lamentável Cristo luminoso. À medida que nasce a
luz, vê-se melhor a cidade, espremida entre o mar e as montanhas, estendida no
comprimento, interminavelmente estirada. No centro, prédios enormes. A cada
instante, um ronco acima de nós: um avião decola no dia nascente,
confundindo-se, de início, com a terra, elevando-se depois em direção a nós,
passando por cima de nossas cabeças (...)”
O primeiro grande erro de Albert Camus, em sua vinda para a
América do Sul, foi viajar de navio, em vez de se utilizar de avião. Por mais
luxuosa e confortável que seja uma embarcação (e nem parece que tenha sido o
caso), é um trajeto irritantemente moroso para quem venha para cá a trabalho,
no caso o estreitamento de laços culturais da França com os países visitados, e
não para fazer turismo, ou seja, a passeio. Há, entre outras coisas, a
inevitável ansiedade pela chegada e pelos compromissos a cumprir. Ademais, o
mar não é para pessoas fragilizadas, como era Camus, por sua recente doença.
Otto Lara Resende, prefaciador da edição brasileira do “Diário de Viagem”, revelou
que o escritor francês chegou a pensar em cometer suicídio durante a viagem.
Chegou, portanto, ao destino, com ânimo em baixa, para não dizer deprimido,
completamente desanimado.
Outro erro de Camus foi o fato de deixar a pauta de
compromissos a cargo de terceiros. E estes exageraram na dose, programando uma
infinidade de homenagens, jantares, palestras e todos os tipos de exibições
artísticas características do Brasil por todos os lugares que deveria passar.
Mas as primeiras impressões do Rio de Janeiro, ainda a bordo do navio, foram
favoráveis, posto que sinceras e realistas. Leiamos mais um trecho do seu
relato desse seu encontro com a “Cidade Maravilhosa”: “(...) Estamos no meio da baía e as montanhas,
à nossa volta, fazem um círculo quase perfeito. Finalmente, uma luz mais
sanguínea anuncia o raiar do sol, que surge por trás das montanhas a leste, em
frente à cidade, e começa a subir, num céu pálido e fresco. A riqueza e a
suntuosidade das cores que brincam sobre a baía, as montanhas e o céu, fazem
calar a todos, uma vez mais. Um instante depois, as cores parecem as mesmas,
mas é o cartão-postal. A natureza tem horror dos milagres longos demais (...)”
Perfeita essa descrição, como só um gênio, como ele, seria
capaz de fazer. Essa primeira impressão favorável do Rio de Janeiro começou a
se dissipar tão logo pisou em terra firme. Por exemplo, ficou chocado com o
contraste entre o luxo e a miséria, um praticamente ao lado do outro, no caso
os nababescos palacetes de então confrontados com a absurda e chocante precariedade
das favelas, o que comentei em texto anterior. E olhem que o Rio daquele tempo
não tinha a violência de hoje. Os morros não eram “terra de ninguém”, sob o
domínio do tráfico de drogas, como ocorre atualmente. O tráfego de veículos foi
outro aspecto que o impressionou bastante. Tanto que escreveu a respeito: “(...)
Os motoristas brasileiros ou são alegres loucos ou frios sádicos. A confusão e
a anarquia deste trânsito só são compensadas por uma lei: chegar primeiro,
custe o que custar (...)”. Imaginem o que diria hoje, com a quantidade de
veículos multiplicada por mil ou mais, em relação aos de 1949!
E o que dizer dos seus contatos com alguns dos principais
escritores e intelectuais brasileiros? Albert Camus ficou divididíssimo a esse
respeito. Alguns (presumo que a maioria) ele detestou. Achou-os, para dizer o
de menos, petulantes, chatos, arrogantes e mal-educados. É verdade que
simpatizou de imediato com um ou outro, como por exemplo os poetas Manuel
Bandeira e Oswald de Andrade, os quais alçou à condição de “amigos”. E olhem
que o Rio foi, apenas, a primeira escala de longuíssima visita, nas quais esse
tormento repetiu-se com infalível freqüência. Para o professor Lourival
Holanda, da Universidade Federal de Pernambuco, esses encontros de Camus com a
intelectualidade brasileira foram, na verdade, “desencontros”. E explica por
que: “(...) Ele ficou espantado com a excessiva familiaridade (Seu Albert) e
com a estupidez dos nossos tocando ‘La vie em rose’ sem parar”. E o professor
não inventou isso. Camus descreve essas chateações em seu diário, que virou
livro.
Eu havia pautado estes comentários para serem redigidos em
2013, quando o mundo celebrou o centenário de nascimento do escritor. Na
oportunidade, porém, por uma série de razões, fui adiando, e adiando e adiando
a tarefa, até que o ano acabou e perdi o bonde da história. Mas... nunca é
tarde, não é fato? Cito isso não propriamente para me penitenciar, mas para
referir-me a um evento em particular que considero oportuno pelo título que lhe
foi dado. Foi uma exposição fotográfica, realizada em São Paulo, em 2013, com
imagens da visita de Camus ao Brasil. Sabem como a mostra foi batizada? “O país
da desmedida”!!!! Existe definição melhor do que esta para esta nossa
heterogênea república dos trópicos?!!!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
O país da desmedida vem bem a propósito do nosso exotismo, para não dizer atraso.
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