De Porto Alegre Camus elogia somente a
luz
“A luz é muito bela. A Cidade, feia. Apesar dos seus cinco
rios. Essas ilhotas e civilização são frequentemente horrendas”. Essa seca, rápida
e sincera observação reflete a impressão que Porto Alegre deixou no espírito de
Albert Camus, quando lá esteve, em 9 e 10 de agosto de 1949. Os portoalegrenses
não ficaram sabendo disso, na oportunidade, porquanto essa opinião do escritor só
ficou conhecida anos depois da sua morte, quando da publicação, em português,
do seu livro “Diário de Viagem”. Mas os moradores atuais, que conhecem, agora,
o que Camus escreveu sobre a cidade, não se sentem nada confortáveis com essa
avaliação. Eu, que embora não seja portoalegrense, sou gaúcho, a princípio
também detestei essas palavras. Ponderando, porém, sobre o contexto que
originou essa impressão, dou o devido desconto.
Porto Alegre, afinal, foi o último compromisso (no Brasil,
mas não na América do Sul) de uma viagem absurda e desumana, que só em nosso
País, consumiu 48 frenéticos dias, com uma programação maluca, dessas de esgotar
o mais resistente dos resistentes super-herois de histórias de quadrinhos e de
deixar furioso até um monge de pedra. Falar das dimensões continentais do
Brasil é chover no molhado. É ser mais óbvio do que aquele famoso personagem de
Eça de Queiroz, o conselheiro Acácio, protótipo de obviedades. Imaginem
atravessar esse gigantesco território, quase das dimensões da Europa Ocidental
inteira, duas vezes, de alto a baixo, com escassas horas de descanso, mas não
para fazer turismo, e sim para cumprir uma série de intermináveis compromissos,
com expectativas (justamente) excepcionais, por se tratar de personalidade de
grande relevo no mundo literário (e também jornalístico) e, por consequência, cultural.
Para o leitor ter uma idéia, informo o roteiro de Camus no
Brasil. Desembarcou, primeiro, no Rio de Janeiro, após incompreensível viagem
de navio (ninguém sabe por que) e, mal pisou em terra, teve que dar entrevistas
e mais entrevistas, participar de almoços, jantares e coquetéis, ouvir discursos
longos, monótonos, vazios e sem sentido e ter de se pronunciar a seguir em
conferências marcadas em cima da hora. Ficasse, somente, na Capital Federal,
seria assim mesmo cansativo, mas passável. Porém não ficou. Fez uma viagem de
automóvel, em estradas de terra lamacentas e esburacadas, mais picadas do que
propriamente rodovias, para conhecer o Vale do Ribeira, passando por Registro.
Para complicar, o motorista se perdeu. E para complicar mais ainda, teve que se
hospedar num hospital, por falta de hotel.
Dali, regressou ao Rio, contudo mal pôde respirar. Embarcou,
incontinenti, para o Nordeste, visitando Salvador, Recife, Fortaleza e retornando,
mais uma vez à Capital Federal. É
verdade que essas viagens foram todas de avião, mas nem por isso foram menos
cansativas. As aeronaves de então, a hélices, lentas e desconfortáveis, não
eram nem remotamente parecidas com as atuais. Nas capitais nordestinas, Camus
passou pela mesma provação anterior: jantares, almoços, coquetéis, entrevistas
com perguntas repetitivas e óbvias (não raro imbecis), discursos e mais
discursos, além de conferências dele. Findo esse périplo, voltou, de novo, ao
Rio de Janeiro. Mal tomou fôlego, já teve que ir para São Paulo, com a
mesmíssima recepção das escalas anteriores. Depois de tudo isso, tinha,
finalmente, o compromisso de ir a Porto Alegre. Responda, caro leitor, mesmo
que fosse a turismo, como você se sentiria após essas idas e vindas, vencendo distâncias
tamanhas e encarando tantas chateações?
Comentei, dia desses, essa viagem para lá de maluca com um
amigo, e este argumentou: “Camus não deve ter sentido tanto assim. Afinal, era
jovem, com 36 anos de idade, praticamente no auge da maturidade”. O amigo se
esqueceu, todavia, que se tratava não de um homem saudável, mas de alguém
adoentado. Tanto que, quando regressou à França, teve recaída da tuberculose, o
que, na verdade, ocorreu ainda no Brasil, e precisou ser internado em um
sanatório. A experiência foi tão desagradável, pelo exagero, que o escritor
decidiu não viajar mais para lugar algum. É verdade que abriu duas exceções:
foi para a Itália e para a Grécia. Mas nenhuma dessas visitas foram nem de
longe parecidas com a que fez à América do Sul.
Quanto à opinião de Camus sobre Porto Alegre, os gaúchos não
deveriam ficar agastados. É certo que os que testemunharam sua visita à cidade
se decepcionaram com o que escreveu. Argumentam: “Afinal, não foi ele que
classificou o Brasil como o país da indiferença e da exaltação? Por que, pois,
não exaltou Porto Alegre?”. Porque não o deixaram conhecer a cidade. Assediaram-no
de tal forma, que ele não pôde sequer dar uma simples caminhada pelas ruas. Na
verdade, não pôde nem ver praticamente nada dela. Avaliou, portanto, a capital
gaúcha pelo pouquíssimo que viu dela, da janela do avião. A coisa já começou
mal, durante o próprio vôo de São Paulo a Porto Alegre. O escritor sentiu-se
mal e registrou em seu diário que, “pela primeira vez, tive pequena crise de
falta de ar”.
Desembarcou sob uma temperatura baixíssima, de 2 graus
centígrados (em dez cidades gaúchas havia nevado), sofrendo um baita choque
térmico. Relatou que ao descer do avião, “havia quatro ou cinco franceses
congelados”, esperando-o no aeroporto. E havia outro complicador para um
sujeito já esgotado, como ele, contando os minutos para ir embora, tendo à
frente ainda mais três escalas – Montevidéu, Buenos Aires e Santiago: “Anunciam
que devo fazer uma conferência à noite, o que não estava combinado”. Eu, no
lugar de Camus, cancelaria esse compromisso marcado à sua revelia. Ele, porém,
foi gentilíssimo em não cancelar. Ou não?
Além do que, o escritor não morria de amores por nenhuma
cidade do mundo. Não achava nenhuma particularmente bela. Vejam, por exemplo, o
que escreveu sobre Nova York, quando lá esteve: “Seu cheiro é ruim. É um aroma
de ferro e cimento – o ferro predomina”. Na sequência dessa sua viagem à
América do Sul, não poupou Buenos Aires. Escreveu, sobre a capital argentina,
onde pelo menos pôde dar breve passeio: “Dei uma volta pela cidade, de uma feiúra
rara”. De Porto Alegre, pelo menos, elogiou a luz. E também o que chamou de “kapotes”,
ou seja, os ponchos que os gaúchos trajavam, o que era normal num dia de agosto
supergélido na congelante capital gaúcha durante o inverno.
Boa leitura.
O Editor.
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As celebridades sabem ser insuportáveis.
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