O preço do pioneirismo de Giovanni Boccaccio
O escritor checo, de língua alemã, Franz Kafka, afirmou,
certa feita, que “a literatura é sempre uma expedição à verdade”. Eu acrescentaria:
“Mesmo quando recorre à ficção, portanto, à fantasia”. Muitas vezes, as
histórias inventadas tendem a ser mais verdadeiras, no sentido de retratar
determinadas realidades, costumes e comportamentos do que acontecimentos reais,
caso sejam mal-interpretados. Determinados escritores, vez ou outra, fogem dos
padrões convencionais, os estatuídos e, mesmo que suas obras a princípio choquem
seus contemporâneos (as novidades, geralmente, enfrentam resistências em
quaisquer atividades), se o que escreveram for, realmente, de qualidade, acabam
por se impor e se constituem em marcos de novos caminhos que, com o tempo se
impõem e passam a ser seguidos por muitos, se tornando, praticamente, em novas
regras.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com Giovanni Boccaccio e
com seu livro mais famoso, “Decamerão” (há quem grafe “Decameron”, o que dá na
mesma). Ele inovou e sua inovação foi aperfeiçoada por muitos, ao longo dos
séculos e hoje está consagrada, sem que a maioria sequer reconheça seu
pioneirismo. Todavia, admitam ou não, ele é um marco no que se convencionou
chamar de “Realismo” na Literatura de ficção. Conversando, dia desses, com
amigos, a propósito dessa obra fundamental, alguns se disseram decepcionados
com seu teor. Acharam muitas das cem novelas curtas que ela contém óbvias
demais. Outros tantos, criticaram o tom muitas vezes caricato adotado pelo
autor, exagerando nas virtudes e nos defeitos dos personagens envolvidos. Esse,
porém, é o preço pago pelos pioneiros: a incompreensão.
É fácil criticar o que outros escreveram, mesmo que ninguém
tenha escrito dessa mesma forma antes. Para valorizar Boccaccio e seu “Decamerão”,
é indispensável contextualizar essa produção. É preciso atentar para a época em
que o livro foi escrito, em como era a Literatura até que ele fosse redigido e
como passou a ser depois. E nesse contexto, não há como não concluir que ambos,
a obra e seu autor, são geniais. Não fossem, há tempos já estariam esquecidos e, se eventualmente
fossem lembrados, seriam citados, apenas, como exemplos de “exotismo” e nada
mais. Mas... não é o que acontece. E nem poderia ser. O “Decamerão” é original
desde sua concepção (é, como diriam os jovens no seu linguajar característico,
uma “boa sacada”) e ao seu próprio título. Este é uma composição das palavras
gregas “deca” (que significa dez) e “hemeron” (dias, ou jornadas).
Quanto às novelas, desafio, quem procura defeito nessas
narrativas, a escrever cem histórias, absolutamente diferentes umas das outras,
e torná-las todas “geniais”. Algumas serão (e no caso, são) melhores do que
outras, como não poderiam deixar de ser. Tanto que várias delas inspiraram (e
inspiram) escritores do passado e do presente, que escreveram (e escrevem)
versões das mesmas, mas raras sequer parecidas às originais, quanto mais
melhores. Em linhas gerais, o “Decamerão” começa numa manhã de terça-feira do
ano de 1348. É quando sete moças e três rapazes resolvem deixar a cidade de
Florença para fugir da peste negra. O grupo resolve exilar-se em um castelo,
onde seus integrantes estariam a salvo da doença. Essas pessoas, porém,
precisariam arrumar alguma ocupação para espantar o tédio. O que fazer? Para se
distraírem, alguém sugeriu uma brincadeira, logo aceita por todos. Cada dia, um
deles reinaria no castelo por uma jornada completa. E essa pessoa seria
obrigada a narrar dez contos. Foi daí que surgiram as cem histórias que compõem
o “Decamerão”. Isso não é original? É originalíssimo! Além do que, apresentava
um desafio para o autor: o de inventar cem enredos diferentes para serem
narrados pelas dez pessoas do grupo.
Contudo, a vida desses “exilados” não se restringia a
inventar e narrar historinhas, o que já era, por si só, enorme desafio. Eles
passaram dias entre a nobreza, em vida refinada, na qual se entrelaçam
divertimentos campestres, conversas, jogos, jantares e danças. É, pois, um
retrato fiel do comportamento dos florentinos daquele tempo. Enquanto os que
ficaram na cidade morriam como moscas, por causa da peste negra, esses exilados
nada faziam de prático e de útil para socorrer, de alguma maneira, seus desesperados
e aterrorizados concidadãos. Todos os
dias da semana (com exceção de sexta-feira e do sábado, por respeito às
conveniências religiosas), cada um contava uma história, com tema livre, sendo
apenas decidido quem deveria narrar pelo rei ou rainha na véspera.
Há quem encare o “Decamerão” como coleção de anedotas, como as que consagrariam,
muito tempo mais tarde, o português José Maria Du Bocage, incorporado ao
anedotário de Portugal (e posteriormente do Brasil). Quem pense assim, ou não
leu o livro ou o fez sem a devida atenção que ele merece. Concordo com um
crítico (não consegui identificar qual) que alerta que no “Decamerão” “há mais
que riso, sexo e padres nas histórias criadas por Boccaccio. O tom cômico, que
na obra assume um caráter crítico, se enquadra numa tradição mental típica da
narrativa medieval”.
As novelas, que à primeira vista podem parecer sem nenhuma relação
umas com as outras, seguem um padrão lógico, que com um pouquinho de
observação, fica claro. Constituem um discurso progressivo. Querem ver como isso é real? Observe-se que as
primeiras histórias versam todas sobre vícios: pederastia, mentira, violência,
representadas especialmente pelo pederasta, usurário, violento, mentiroso,
falsário. Já as últimas tratam de algo que ocorre ainda nos dias de hoje: das provações
que uma esposa suporta pelo marido. Quem critica o livro, insisto, ou não o leu
e sabe, apenas, de uma coisa ou outra do seu conteúdo, por “ouvir dizer”. Ou
não tem capacidade de entendimento, por isso perde o que ele tem de melhor. Na
verdade, a magistral pena de Boccaccio traçou o que o tal crítico, que não consegui
identificar, destacou como sendo: “Todo o tipo de encruzilhada humana, fruto da
fortuna, do amor e da inteligência”. E isso na metade do século XIV, fazendo,
em Literatura, o que ninguém havia feito antes. Como classificar um escritor
assim se não com a designação que ele tanto fez por merecer, a de gênio? Sim,
caro leitor, como?
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Os desbravadores são analisados com lupa, só pode ser.
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