Órfãos dos
filhos
* Por Pedro J. Bondaczuk
A melhor maneira de mostrarmos apreço e
veneração pela vida, esse magnífico mistério, que é, ao mesmo tempo, um
privilégio e um desafio, é cultivarmos a alegria. É jamais nos deixarmos abater
pelo que de ruim nos aconteça, ou ocorra ao nosso redor, mas sempre extrair
lições dos sofrimentos e tragédias.
É atentarmos para os pequenos episódios
positivos do dia a dia que, somados, se revelam maiúsculos, mas que, muitas
vezes, entregues a tolas mágoas e estúpidos rancores, não sabemos valorizar
devidamente. Viver é bom, é magnífico, é transcendental, sejam quais forem as
circunstâncias. Não há como não concordar com Aléxis Carrel, quando afirma: “A
alegria é o sinal pelo qual a vida marca seu triunfo”.
Sejamos, pois, vencedores. E brindemos
cada vitória da vida com aquilo que caracteriza com perfeição esse sucesso: a
inarredável alegria. Difícil? Sem dúvida! Impossível? Jamais, a menos que
sejamos renitentes derrotistas. Este longo preâmbulo (que em jornalismo se convencionou
chamar de “nariz de cera”), vem a propósito de uma singela confissão que vou
fazer.
Minhas quatro maiores alegrias na vida
– e olhem que já tive muitas, tantas que se me torna impossível até de
contabilizar – foram os nascimentos dos meus quatro filhos. Foi uma sensação
que até hoje, passados tantos anos daquela experiência até então ímpar, não
consigo verbalizar. Tudo o que disser (ou escrever) a respeito será pouco,
pálido, mesquinho, embora até por dever profissional nunca tive dificuldades em
expressar o que quer que fosse.
Talvez a intensidade do primeiro
nascimento tenha sido um pouco maior (mas não tenho certeza se de fato foi),
por não haver tido antes, claro, essa transcendental experiência. Mas não creio
que emoções tão fortes e profundas possam ser medidas ou classificadas. Digamos
que, embora diferentes, por inúmeros motivos, essas quatro alegrias tenham sido
de igual intensidade ou, no máximo, muito próximas uma da outra.
Vivi, intensamente, cada momento desses
“milagres” de multiplicação que ocorreram por quatro vezes, dessa renovação da
vida, dessa magia de se ver reproduzido em outros seres – que são partes de
você e, ao mesmo tempo, tão diferentes e autônomos em relação à sua pessoa –
desde que tomei ciência da gravidez da minha amada, até o nascimento, o
primeiro sorriso de cada filho, a primeira palavra, o momento em que cada um
deles se sentou pela primeira vez, em que engatinhou, em que andou etc.
O primeiro momento em que tive que
aceitar que geramos filhos para o mundo, não para nós mesmos, foi quando a
primogênita teve seu primeiro dia na escola. Foi outra emoção intensíssima, que
nunca consegui descrever, misto de perda, de ciúme, de preocupação, de temor
pelo que lhe pudesse acontecer, e, sobretudo, de frustração por não mais poder
proteger essa criança querida dos potenciais perigos do mundo nas 24 horas dos
dias. Confesso que chorei nessa ocasião (embora discretissimamente, sem que ninguém percebesse, já que fui criado nos
estúpidos princípios machistas de que “homem nunca chora”, ou, pelo menos, não
deve chorar).
O interessante foi que essa mesmíssima
emoção, com idêntica intensidade, se repetiu mais três vezes, nos primeiros
dias de aulas dos outros três filhos. Voltei a ter essa mesma sensação, ainda,
em outras circunstâncias. Quando, por exemplo, a minha menininha mais velha
(já, então, não tão menina assim), me apresentou seu primeiro namorado. Ou
quando anunciou que iria se casar. Ou no dia do seu casamento. Mas... a vida é
assim: uma sucessão interminável de perdas e ganhos.
Subitamente, senti-me “órfão” dos
filhos. Calma, nenhum deles (felizmente) morreu. Um a um foi crescendo, se
formando, definindo seu rumo, deixando nossa casa para formar suas próprias
famílias. Subitamente, olho ao redor e não vejo nenhum deles a brincar, a rir,
a brigar, a me fazer carinho ou a reclamar da disciplina que procurava impor em
“meu castelo”. Nas paredes do casarão – envelhecido, assim como eu – que parece
ter multiplicado suas dimensões, ainda ressoa o riso alegre de crianças, ou o
choro manhoso, de birra, das garotinhas e do garotão, ou a barulheira das
músicas que gostavam. Tudo, agora, é passado. Parece que não passou de um
sonho...
O poeta Affonso Romano de Sant’Anna (igualmente
exímio cronista) definiu à perfeição, na crônica intitulada “Antes que elas
cresçam”, num jornal do Rio de Janeiro (não me lembro se no “O Globo” ou se no
“Jornal do Brasil”), essa nossa “orfandade” paterna. Peço licença ao leitor
para reproduzir o trecho mais enfático desse texto que diz: “Há um período em
que os pais vão ficando órfãos de seus próprios filhos. É que as crianças
crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre e, às
vezes com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias, de igual
maneira, crescem de repente”.
E não é assim que as coisas acontecem?!
Pois é, isso ocorreu comigo, e exatamente dessa maneira descrita pelo poeta. O
crescimento dos filhos não se deu (ou, pelo menos, não tive essa percepção),
lenta e paulatinamente, como seria de se esperar, dando-me tempo para assimilar
essa realidade. Pelo contrário, ocorreu de repente, de súbito, de supetão!
Quando me dei conta... os quatro já estavam criados, crescidos, educados,
encaminhados, casados, vivendo suas próprias vidas, nas quais meu papel
diminuiu bastante, para se tornar em (somente) mero referencial. “C’est la
vie”, diriam os franceses. “C’est la vie...”, repito, com nostalgia.
* Jornalista, radialista e escritor.
Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981
e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras
funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no
Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e
“Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos &
Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da
Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário),
página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia
Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
Para as mulheres maduras - faixa de 50 anos-, convencionou-se chamar o momento da última partida, como "síndrome do ninho vazio", um estado em que a depressão bate à porta, algumas vezes para ficar.
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