Coincidência que me apresentou um gênio
Acredito em coincidências e muitas delas tornaram-me, se não
mais sábio, pelo menos mais esclarecido. Uma das tantas delas ocorreu-me em
1986. Em setembro desse ano, recebi, na redação do Correio Popular de Campinas,
jornal no qual era editor, mas também redator de páginas especiais –
normalmente ensaios, de temas que eu escolhia, vários deles abordando livros e
escritores, contudo não especificamente de Literatura, mas “também” dela –
entre volumosa correspondência, um livro de autor que até então desconhecia. Na
oportunidade eu não sabia, mas a coincidência de haver sido procurado
propiciou-me o privilégio de conhecer um gênio das letras.
Hoje, não só sei bastante a seu respeito, como o considero
um dos meus gurus literários, além de um dos mestres das letras nacionais. Até
hoje não sei como ele descobriu meu nome, minha função e a empresa jornalística
em que eu trabalhava. Na oportunidade, esse escritor já era justamente famoso
em todo o País, embora até então eu nunca tivesse ouvido falar dele. Há que se
considerar que isso aconteceu há 28 anos, quando eu não tinha, digamos, sequer
20% de conhecimento de Literatura, de livros e de escritores que tenho hoje.
Desde então, “muita água rolou por baixo da ponte”. Não
afirmo que atualmente conheço “todos” grandes expoentes das letras nacionais.
Duvido que alguém conheça. Mas minha ignorância a propósito não vai ao ponto
que foi, em 1986, de desconhecer um mestre, como Salim Miguel, que foi quem me
obsequiou, na ocasião, com uma de suas obras. O livro que então me enviou foi “O
Castelo de Frankenstein”, o segundo que publicou pela Editora da UFSC
(Universidade Federal de Santa Catarina) e que na oportunidade era o oitavo da
sua posteriormente vasta e excelente bibliografia. Tão boa, que em 2009 recebeu
o cobiçado Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo
conjunto da sua obra.
Fiz, na oportunidade, o que sempre fazia quando recebia
algum livro (e, creiam-me, tinha o privilégio de receber muitos) e o que faço
até hoje. Antes de emitir qualquer opinião, li-o, de capa a capa, fazendo
anotações á margem. Meu critério continua o mesmo desde que me atrevi, pela
primeira vez, a comentar obras literárias alheias. Só comento – e algumas
extensamente, em longos e detalhados ensaios –, os que gosto e que não tenho
restrições a fazer. Os lançamentos em que detecto defeitos (de lógica, estilo,
etc.etc.etc. ou mesmo gramaticais), mas que tenham conteúdo aproveitável, não
ignoro por completo (como gostaria que meus livros não fossem ignorados). Redijo
uma nota, que nem é tão pequena assim, destacando suas virtudes, sem mencionar
suas deficiências. Afinal, não sou o dono da verdade e posso estar enganado.
Não raro estou.
E como procedo em relação aos livros que não gosto e não
considero “recomendáveis”? Ignoro-os por completo? Não!! Mas não ponho minha mão
no fogo por eles. Escrevo uma breve carta (hoje o mais comum é escrever um
e-mail) registrando o recebimento e agradecendo a lembrança. Todavia, não
publico nenhuma avaliação a propósito. Se elogiasse o que não é elogiável
estaria sendo hipócrita e correria o risco de cair em ridículo, pois muitos
outros, além de mim, detectariam as deficiências e concluiriam (com razão), que
não tenho critério, ou bom gosto, ou conhecimento ou tudo isso reunido. E por
que, então, não “esculhambo” o tal livro, com todas as letras, apontando a
totalidade de suas falhas? Porque não aceito o papel de destruidor dos sonhos
de ninguém. Porque sei que quem escreveu e publicou essa obra se esforçou para
fazer o melhor. Há quem considere essa minha atitude como mera omissão. Que
seja! Mas jamais, em circunstância alguma, irei tripudiar sobre a imperícia de
quem quer que seja. Outros que o façam.
A propósito de “O castelo de Frankenstein”, de Salim Miguel,
escrevi todo um extenso ensaio – cujos principais tópicos partilharei com
vocês, nos próximos dias – publicado no Correio Popular de Campinas na edição
de 19 de setembro de 1986. Nem é preciso declarar que o livro me agradou.
Aliás, muito mais do que simples agrado: encantou-me, entusiasmou-me, embeveceu-me.
E olhem que esse entusiasmo todo não teve nada de subjetivo. Foi objetivíssimo.
Há livros, de escritores famosos, que nem são tão bons, mas que consideramos “excelentes”
pelo que conhecemos sobre seu autor. Não foi, todavia, o caso de “O castelo de
Frankenstein”. Confesso minha ignorância na época. Não sabia nada, absolutamente
nada de Salim Miguel Se conhecesse sua brilhante trajetória literária, como
conheço hoje, provavelmente não me limitaria a escrever um único ensaio.
Escreveria todo um livro a propósito.
Para quem eventualmente não conheça nada de Salim Miguel,
que em 30 de janeiro de 2014 completou noventa anos de idade, peço licença para
fazer brevíssima apresentação (mais detalhes, a seu respeito, darei nos
próximos dias). Para tanto, recorro a um parágrafo do texto de Luciana Wrege
Rassier, publicado na edição de setembro de 2011 da Revista Litteris (WWW.revistalitteris.com.br), em
que ela escreve: “Homem de cultura e de ação, homem de palavra e da palavra,
Salim Miguel atua desde a década de 1940 escrevendo, lendo, criando projetos,
consolidando parcerias. Escritor, jornalista, editor, redator, crítico
literário, roteirista, dono de livraria, diretor da Agência Nacional de Santa
Catarina e da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, superintendente
da Fundação Cultural Franklin Cascaes, esse respeitado intelectual é múltiplo e
uno”. E pensar que vim a conhecer esse magnífico escritor por pura coincidência!!!!!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Eu ainda não o conheço, mas logo saberei algo através de você.
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