Recepcionando 2015
O ano de 2014, que em nossa mente
parece recém-começado, está prestes a se ir de vez, sob o espocar de fogos
(costume dos mais estúpidos e chatos), estouros de champanhas, abraços, beijos,
votos de felicidade para o nascente 2015 e muitas esperanças das pessoas (de
algumas), de que as coisas vão melhorar. Uns dirão: "Já vai tarde".
Outros, mesmo 2014 não tendo acabado, já sentem saudades das coisas boas que
lhes aconteceram. Outros, ainda, estarão tão bêbados na entrada do novo ano que
não pensarão em nada. Ou, quem sabe, em meio ao torpor produzido pelos vapores
etílicos, vão elucubrar se devem ou não tomar mais um copo. É a ronda
inexorável e inflexível do tempo, que encerra mais um capítulo em nossas
biografias, que não poderá mais ser retificado e muito menos refeito, de um
número que não sabemos quantos serão.
Com a entrada do novo ano, nos
aproximamos de outro evento esportivo, a exemplo da Copa do Mundo de futebol
deste ano, que foi enorme sucesso fora de campo (e contundente vexame nos
gramados, com a humilhante goleada que a Alemanha aplicou à Seleção
Brasileira). Claro, refiro-me àqueles fatídicos 7 a 1 do Mineirão. A nova
oportunidade de recepcionar atletas e torcedores de várias partes do mundo será
a disputa das Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016. Espera-se que o País brilhe
não apenas no que diz respeito à organização e ao legado que o evento possa
deixar, mas também no terreno esportivo. A probabilidade, porém... não é nada
animadora.
Lembro-me que, quando criança, o ano
2000 parecia ser um período remotíssimo, algo tão distante que não chegaria
nunca e que a maioria achava que jamais testemunharia. Muitos não testemunharam
mesmo. No entanto... já se passaram catorze anos, e entraremos no
décimo-quinto, de um novo século (o XXI) e de outro milênio, o terceiro da Era
Cristã e nada de tão especial aconteceu. Inúmeras fantasias, que nos meus
tempos de menino – e de adolescente também, por que não? – eram divulgadas em
relação a essa data, em um estéril e inútil exercício de futurologia, provaram-se
ser o que sempre foram: fantasias, tolices, bobagens.
As previsões eram tão absurdas, que
raiavam ao delírio. E o pior é que milhões e milhões de pessoas mundo afora
acreditavam sem vacilar nelas e as difundiam, não sem alguns acréscimos
próprios, pessoais. Falava-se –
pensando no aspecto otimista – que as viagens interplanetárias seriam rotina,
por exemplo. Não são! Que as máquinas governariam o mundo e fariam todo o
trabalho do homem e que este poderia gastar todo o tempo que tivesse apenas
para o prazer e para as artes. Nada disso aconteceu! E diziam-se (e
escreviam-se) outras tantas bobagens do tipo, como a construção de imensas
cidades nos oceanos, a comunicação interpessoal por via telepática e vários e
vários outros disparates do gênero.
Os pessimistas também não se faziam de
rogados. Para eles, a humanidade jamais chegaria ao ano 2000, que seria o
limite do "fim do mundo". A rigor, essa hecatombe ainda pode
acontecer, independente de data, pelos mais diversos meios. Sempre pôde, dada a
fragilidade deste pequeno planeta azul. Basta lembrar o que “teria” acontecido
com os dinossauros há 65 milhões de anos, muito antes do surgimento do homem.
Se aconteceu de fato, ou não, fica por conta da imaginação de cada um. No
entanto... Pouca coisa mudou em relação aos anos 40 ou 50, por exemplo. Ou à
primeira década do ano 2000, que veio, passou e nenhuma das previsões feitas em
torno dele, boas ou más, se concretizou.
A Terra ficou mais povoada e poluída, é
verdade. Agora, somos mais de 7,2 bilhões de tripulantes nesta cada vez mais
apertada e suja nave cósmica. Algumas engenhocas tecnológicas tornaram a vida
de alguns mais fácil, mas complicaram as de muitos outros, suprimindo-lhes
empregos. As mazelas políticas, econômicas e sociais continuam as mesmíssimas,
assim como as guerras, a criminalidade, o tráfico e consumo de drogas, o
fanatismo religioso ou ideológico etc. Tudo isso aumentou apenas em quantidade.
Pudera! A população do Planeta mais que dobrou em escassas quatro décadas.
Muitos podem achar que esta não seja
reflexão oportuna, ou apropriada, para véspera de virada de ano. Essa é ocasião
em que as pessoas planejam o futuro, embriagadas de esperança, achando que nada
pode dar errado em suas vidas e no mundo. Mas esse planejamento é necessário? É
útil para alguma coisa? É, pelo menos, viável ou possível? Não sabemos sequer
se iremos sobreviver a esta noite! Além disso, é a imprevisibilidade que torna
a vida esta aventura fascinante que de fato é.
Santo Agostinho deixou registrada uma
reflexão muito sensata, e exata, sobre o tempo, esta sim oportuníssima para
esta ocasião. Escreveu: "Se nada passasse, não haveria passado, se nada
adviesse, não haveria futuro e, se não fosse, não haveria presente. Nem o
passado nem o futuro existem de fato. Daí ser impróprio se falar em três
tempos. A rigor o correto seria falar no presente do passado, no presente do
presente e no presente do futuro. Os três modos estão em nosso espírito. O
presente das coisas passadas é a memória, o presente das coisas presentes é a
visão direta, o presente das coisas futuras é a espera". E não é? Já fiz
essa mesma citação em outro texto alusivo à passagem de ano, mas ela continua
oportuna como sempre foi e não faz mal algum repeti-la e reiterá-la;
O sociólogo Roberto da Matta tem outra
colocação para este caso. Acentua: "Tal é o tempo que corre, como lágrimas
e sangue por dentro do espaço da casa. Casa que passa pelo tempo que tudo
destrói, menos a vida contida pela teia de relações que constituem o nosso
mundo social. Esses elos, que apesar do nosso individualismo e cosmopolitismo,
ainda nos dobram e nos obrigam a fazer e a dizer coisas que não queremos e
sabemos". Daí a conclusão lógica de que o mais racional e inteligente é
viver cada momento com a máxima intensidade, já que pode ser o último.
O mais sábio é aproveitar cada
oportunidade que surgir para acrescentar algum episódio marcante à nossa
biografia e, principalmente, para fazer com que ela seja digna de ser escrita.
Nem sempre, ou nem todas o são. Compete-nos nos empenhar para produzir obras e
obras e mais obras consistentes, materiais ou no terreno das idéias, que evitem
nossa segunda morte, esta sim definitiva: a do esquecimento. Que os próximos
365 dias sejam feliz ronda no tempo, não
grotesca ou penosa, mas repleta de episódios marcantes e inesquecíveis. Que
sejam, sobretudo, o tempo do encontro da felicidade, a principal das nossas
obrigações enquanto seres racionais. Feliz ano novo (antecipado) para todos!
Boa
leitura
O
Editor
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Eu não espero nada, então, certamente nada terei.
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