Império e sua metáfora
* Por
Jair A. Alves
Que relação existe
entre Império e a peça Feliz Ano Velho? Ambas falam do sumiço de corpos e focam
a Liberdade de Imprensa e Expressão. Por ser esta telenovela a programação de
maior audiência da tevê brasileira, vale uma reflexão mais apurada do que ela
pode representar como “espelho” da realidade atual. Nesse contexto, dois
“personagens” inevitavelmente merecem atenção: O autor, Aguinaldo Silva, e o
próprio espectador que, de segunda a sábado, entrega o melhor de sua imaginação
para “viajar” na trama rocambolesca, recheada de excelentes atuações. Quem é,
verdadeiramente, o protagonista da novela das nove? Em tese, seria o “José
Alfredo” (o ator Alexandre Nero), caracterizado como um herói medieval
remasterizado pelas invenções da modernidade. Usar este aventureiro como herói
romântico, no entanto, não passa de um “truque” que o autor tem para driblar a
censura política dos tempos atuais. No que consiste esta “censura? Eis aqui a
questão!!!
A censura não passa de
um “acordo de cavalheiros”, até o próximo escândalo de corrupção. Quem
participa deste “acordão”? A censura ou, o que não pode ser citado, foi
costurada desde Tancredo Neves e a Nova República, inclusive com a participação
passiva do próprio autor privilegiando “os efeitos”, em detrimento da leitura
da realidade imediata. É como se aplicassem, com rigor, a regra “perco um amigo,
mas não a piada”. Este primarismo, característico da subliteratura inventando
coisas que o verossímil não comporta, criou um “beco sem saída” para a
dramaturgia nacional. Por esta razão perdeu espaço para programas como “Casseta
e Planeta”, além dos horrorosos “Pânico” e “CQC”. Esse é o tema da nossa
conversa.
Na visão de Doc
Comparato, criador desta “solução mágica” e parceiro inseparável de Aguinaldo
Silva em seus primeiros trabalhos para a tevê, dizia algo parecido com: “em
dramaturgia o mais importante são seus efeitos cênicos”. Tão equivocado estava
Doc que sumiu do cenário nacional. Sem contar que sua visão estreita de
dramaturgia se restringe a telenovelas e definitivamente não é só isso, como
sabemos.
Sem mais delongas
introduzo aqui a tese de que a telenovela “Império” tem relação direta com a
peça teatral “Feliz Ano Velho” (1983) que estreou, há pouco mais de trinta
anos, servindo de ponto de convergência, um resumo da ópera nos tempos de
então, numa livre adaptação de Alcides Nogueira para o teatro, do livro de
Marcelo Rubens Paiva. A montagem se transformou à época num fenômeno de público
pelo Brasil afora, viajando por praticamente todas as capitais brasileiras,
aliando arte e diversão e política de novos rumos para a juventude de um Brasil
que saia do regime militar. O grupo “Legião Urbana” é um destes exemplos, o que
não é pouco.
A importância de Feliz
Ano Velho na época se revelou até pelo que não deu certo. O mesmo texto levado
ao cinema com outro enfoque não obteve a menor repercussão, apesar de o autor
do livro já ter se constituído numa celebridade. Montada na Argentina, foi
quase um fracasso. Prova que o elenco, formado no Brasil, não se desligava do
que aqui acontecia (nas ruas, corações e mentes). Era o tempo da “Campanha
pelas Diretas”. Na estreia nacional, na cidade de Sorocaba, lá estava Doc
Comparato querendo “tirar a azeitona da empada”. Polemizando com Adilson Barros
(que interpretava Rubens Paiva), a respeito do excesso de “teatro verdade”, na
sua visão de “novo teórico das artes dramatúrgicas brasileiras”. O mal estar aconteceu
no jantar de confraternização pós espetáculo. Na mesa, além desse que “vos
fala”, o dramaturgo Fauze Arap e a “rinha” não durou mais do que os primeiros
copos de cerveja. O tempo demonstrou o quanto o “teórico” estava equivocado.
Nos tempos atuais de
Império, com elevadíssimo nível de audiência, o que salva na escrita de
Aguinaldo Silva é o seu talento. Inegavelmente, supera “certos obstáculos” com
inovações que não sei o que os demais “autores de novelas” conseguem captar e
praticar. Uma das descobertas de Aguinaldo é resolver logo conflitos menores,
no máximo em dois ou três capítulos. Raramente estes pequenos conflitos se
estendem por mais de uma semana. A maioria dos pequenos personagens está sempre
a serviço de uma “trama” mais complexa e absolutamente previsível. Nem por isso
deixa de ser fascinante. O truque do Autor disfarça tão bem ao ponto do espectador
não perceber que ele faz parte do enredo (como personagem invisível). Ouso
dizer que Aguinaldo Silva foi o profissional que melhor entendeu a interação
com público, através das “pesquisas de rua”, hoje tão comuns nas equipes de
apoio ás telenovelas. Um outro truque é usar os “fofoqueiros” que vazam pela
Internet os lances dos próximos capítulos, ás vezes com semanas de antecedência.
Os “furadores de notícia” devem se achar o máximo, mas estão sendo usados pelo
Autor, não tenho dúvidas. Esta é a melhor parte de tudo, como veremos a seguir.
Quanto á relação com
Feliz Ano Velho, basta dizer que dois dos mais importantes criadores daquele
fenômeno teatral estão em cena diariamente em Império. Falo de Paulo Betti,
diretor de “FAV” e Lilia Cabral, respectivamente, “Teo Pereira” e “Maria Marta”,
a meu ver, os verdadeiros protagonistas da telenovela. O “jogo” é tão
fascinante que Teo Pereira passa uma noite detido entre marginais, numa
eletrizante noite de botar inveja para “Geni”. De quebra, revela Paulo Betti
“gay”. Já “Maria Marta” demonstra como o ser humano é perverso, ao mesmo tempo
em que emociona os que assistem, em lances que lembram as mais belas passagens
da tragédia grega.
Neste momento rivaliza
com outra atriz de Feliz Ano Velho: Denise del Vecchio (atualmente desmoronando
ritos, em “Trágica Três”). Através desses dois personagens (Teo e Maria Marta)
como alterego do Autor, todos os nossos demônios são “expiados”. Vem daí
indagar: “O que dizer da nossa realidade mais imediata?”. Ele até chega muito
próximo, mas Aguinaldo pode estar perdendo a chance de se transformar no único
dramaturgo brasileiro de sucesso da atualidade. Por que não encontra uma forma
mais explicita como, por exemplo, desbancar os “vilões” da atualidade –
Bolsonaro e os bispos deputados? Por que não explicita que a sua telenovela
está focada em duas realidades distintas, como as dependências que compõem as
empresas de Império e a vida que corre lá fora, no Morro de Santa Tereza? A
magnitude de José Alfredo tem a ver com o emblemático “Lampião” (alusão ao
pequeno tablóide gay, liderado por ele, Aguinaldo, onde trabalhou durante os
tempos da “Dita Dura”). A inclusão de Othon Bastos, personagem misterioso (foi
agente da ditadura ou militou em organizações clandestinas contra o regime?)
tem a ver com a sua participação como ator do clássico “Deus e o Diabo na Terra
do Sol”, filme de Glauber Rocha.
Não nos restam dúvidas
que vivemos “momentos de encruzilhadas”, tal como se referiu Godard a respeito
da obra de Glauber e do Cinema Novo. Com a voz, os interessados na discussão.
*
Dramaturgo
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