Harmonia entre o historiador
e o ficcionista
O escritor – e também
historiador, professor de História e jornalista – Luís Henrique Dias Tavares
conseguiu a façanha de ser bem sucedido em todas as atividades citadas que
exerceu. Em Literatura, por exemplo, marcou território como um dos mais
criativos e férteis ficcionistas regionais e não apenas da sua região, o
Recôncavo Baiano, e nem só do seu Estado, mas do Brasil. E isso, com um único e
solitário livro de contos publicado, “A noite dos homens”, datado de 1960. Mas
se produziu (ou pelo menos publicou) pouco no gênero das histórias curtas, mais
do que compensou isso escrevendo (e publicando) novelas. As duas mais
conhecidas são: “Não foi o vento que levou” (1996) e “Nas margens do leito seco”,
cuja redação iniciou, ainda, por volta de 1963, mas que foi lançada apenas
agora, neste ano de 2013, pela Editora Universidade da Bahia.
Este último livro
merece algumas considerações à margem, porquanto fica absolutamente nítido o harmonioso
“casamento” de suas duas principais habilidades: a de ficcionista e a de
historiador. O enredo é baseado em fatos reais. Começa com um leilão de uma
virgem (que realmente aconteceu), cuja virgindade é renhidamente disputada,
principalmente pelos “coronéis” locais. Luís Henrique inspirou-se em um
acontecimento de 1920, na Bahia. O cenário principal do enredo é Salvador, mas
a trama se desenvolve, também, em Ilhéus (no Sul da Bahia) e na cidade italiana
de Florença.
A narrativa é posta na
boca de Juca, principal personagem, repórter novato, aquele que é chamado nas
redações de “foca”, em sua primeira missão jornalística, que se apaixona por
Gina. Esta é uma jovem italiana, levada para Salvador para “trabalhar” na casa
de uma “exploradora de mulheres”, ou seja, para fins de meretrício. Como se vê,
é uma situação complicada para propiciar o nascimento, e principalmente, para
prosperar uma paixão entre o casal de protagonistas. Luís Henrique, no entanto,
não se limita a narrar as venturas e desventuras dos dois pombinhos apaixonados.
Revela, como uma espécie de pano de fundo, de maneira sutil, mas realista, qual
era a mentalidade da época, ou seja, do ano de 1920. Desnuda aquela sociedade,
aparentemente moralista e calcada em valores morais tradicionais. Mostra que
esse moralismo era, em última instância, hipócrita, aparente, apenas de
fachada. Documenta, sobretudo, costumes, valores, moralidade, além do grau de
tolerância que então imperavam. É mais do que uma novela, é um estudo de
comportamento, embora assim não pareça aos desatentos e desavisados.
Claro que não vou
sequer resumir o enredo, para não estragar o prazer da surpresa, o da
descoberta dos leitores que eventualmente vierem a adquirir o livro. Todavia,
recomendo, se puderem, que o adquiram. E não somente isso, mas que, sobretudo,
o leiam atentamente, de capa a capa. Ponho a minha mão no fogo como irão gostar
dessa narrativa. O autor, provavelmente, deixará no espírito do leitor a mesma
dúvida que inicialmente deixou no meu: Luís Henrique é melhor ficcionista ou
melhor historiador? Minha conclusão – e não se trata de ficar “em cima do muro”
– é que há “empate” nesse aspecto. É excelente em ambos os casos.
O prefácio de “Nas
margens do leito seco” foi escrito pelo escritor e doutor em letras Aleilton
Fonseca, que citei em outros textos desta série de estudos sobre alguns dos
principais ficcionistas baianos. O ilustre prefaciador destaca, entre outras
coisas, o que já afirmei anteriormente e que considero o principal fator
diferenciador dessa novela, em relação a tantas outras. Observa: “(...) o
leitor percebe a proximidade do texto literário com o estilo do registro
historiográfico, podendo confundir, deliberadamente ou não, a ficção com a
realidade factual. O texto seria percebido, assim, como um relato de época, de
caráter memorialístico ou até mesmo biográfico”.
Para muitos críticos
literários e estudiosos da matéria, porém, a obra-prima de Luís Henrique não é algum
livro de ficção. Trata-se da “História da Bahia” (não confundir com o título da
antologia que serve de referência para esta série de estudos, que tem um “s” a
mais que este compêndio não tem). É uma produção tão importante, que quando iniciei
minhas pesquisas, já estava em décima primeira edição. Não há dúvida que o
autor é, se não o maior (creio que o seja), pelo menos um dos maiores experts
em história do seu Estado. Alguns outros livros de pesquisa histórica dele,
são: “O primeiro século do Brasil: da expansão da Europa Ocidental aos governos
gerais das terras do Brasil”, “Independência do Brasil na Bahia”, “Da sedição
de 1798 à revolta de 1824 na Bahia”, “Abdicação de Dom Pedro I: derrota do
absolutismo”, “Bahia, 1798”, História da sedição intentada na Bahia em 1798”, “Comércio
proibido de escravos”, “Nazaré, cidade do Rio Moreno” e “A independência do
Brasil na Bahia”.
Mantenho, todavia,
minha opinião. Luís Henrique é tão bom ficcionista quanto historiador, o que,
se fosse melhor numa coisa do que na outra, convenhamos, não haveria demérito
algum. São atividades sobretudo opostas: uma, vale-se, principalmente, da
imaginação e da criatividade e a outra requer rigor dos fatos, baseados sempre
em documentos e outras provas incontestáveis.
Boa leitura.
O Editor.
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Seus comentário foi instigante.
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