Fálicas
* Por
Rosane Magaly Martins
Ela descende de uma
linhagem de mulheres às quais foram negados quase todos os direitos. Não sabia
disso, nem se poderia ter mudado seu destino, traçado quando nasceu. Tinha
escrito na testa e no braço direito duas sinas: a de pobre e a de pecadora.
Lembrou de sua mãe
pedalando pelos morros da cidadela, pelas madrugadas que salvavam cristãos,
para não perder os prêmios miseráveis no final do mês. O prêmio era sempre algo
que não servia para ninguém, a não ser para aqueles mortos de fome que tinham
como destino acordar todos os dias às quatro da madrugada.
Ela colocava aquele
vestido surrado, branco com pequenas flores - doado por uma família menos
pobre, a sandália gasta e pedalava. Pedalava seu tempo, suas ruas, cada
pedrisco e buraco que se avizinhava. Nestes trajetos da madrugada silenciosa,
lhe vinham sonhos magros.
Recordou de sua
pequena avó paterna caminhando morro abaixo - antes que qualquer galo da
vizinhança despertasse, com um punhal escondido na bolsa, e descia entre os pés
de carrapicho, de língua de vaca que cortavam suas pernas ainda quentes da cama.
Ela tinha medo das maldades do mundo, dos homens que espreitavam as virgens que
iam ao trabalho pra separação das folhas frescas de tabaco, antes do sol
nascer.
A avó não tinha
sonhos, pois nunca havia dormido uma noite completa. Não havia cinema, radionovela,
nem revistas. Era só acordar e trabalhar até que novamente o corpo, fadigado
por caminhadas e horas sucessivas cheirando fumo, com mãos grossas e ardidas,
pudesse finalmente descansar.
A outra avó - mãe da
mãe, não vinha de melhor estirpe. Desde os 14 anos tinha sido entregue a um
homem que só fazia-lhe às vezes de fêmea para satisfazer seu pau que lhe
estocava várias vezes ao dia. Era homem rude, que cuspia fumo mascado e
levantava seu vestido quando lhe proviesse. Eram filhos e filhos saindo de si,
sem que tivesse tempo de chorar, de fugir ou de trocar seu vestido emprestado,
roto e sujo.
Não sabia de cantigas,
de carinho, de banhos em tinas quentes, nem de bonecas. Tudo era feito a
navalha, no frio. O banho diário, a roupa que deveria ser limpa semanalmente, a
louça suja passada nas águas frias do rio que escorria perto. Não olhava nos
olhos, pois poderiam descobrir seus segredos. Desde que sangrara sentia os
olhares desejosos dos homens. Não entendia as obscenidades que ouvia quando
passava com o vestido muito curto, os seios meio em riste, as cochas firmes
pelos exercícios de ir e vir do trabalho.
A avó paterna não
podia mais com aquilo. Morava feito macaco, em lugar íngreme, feio e úmido. Seu
filho mais velho havia tido o crânio amassado por um ônibus - enquanto dava a
ré, em frente da igreja. O filho mais novo, desde então, nunca mais riu nem
falou. Ele lembrava da cabeça do irmão escorrendo pelo meio fio, dos gritos
desesperados das vizinhas e do motorista que não havia visto o menino na bicicleta.
O filho mais novo da avó esqueceu o que era sonho, e desde então suas noites
longas eram banhadas de choros e lamentos das carpideiras do velório do irmão.
A bordadeira deixou o
pano de enfeitar a cozinha pronto, em ponto cruz azul, sobre a mesa. No outro
dia a vizinha viria apanhá-lo, para dar à amiga que iria casar sábado ao final
da tarde. Soube que ela tinha conseguido um bom homem - um homem para casar.
Quem o apresentou foi a irmã, que trabalhava num prostíbulo por dinheiro e
prazer. A irmã disse: com esse você vai casar. É homem direito.
A avó materna chorava.
Não queria mais tanto filho, nem ser trepada todas as noites pelo marido
cachaceiro. Não tinha mais forças para dizer nem que sim, nem que não. Nem a
reza lhe salvaria, pois não havia lugar no céu pra tanto filho. Ela limpava o
gozo do marido com o paninho que a filha trouxera da malharia. Não havia
sorriso, só as brigas dos filhos, aquele que fugia para mendigar, o outro para
roubar e a mais velha, pra trepar com qualquer um.
Lembrava da mãe,
chorando na morte do marido tão bom, escolhido a dedo pela irmã puta. Os bons
morrem antes. Ela havia ficado para purgar seus poucos pecados, sua aspereza,
queimar a carne sem prazeres, aprender a cerzir-se por dentro.
A avó paterna, melhor
sorte não teve. Dizem até que rezou muito pela própria morte. O marido a deixou
com a miséria nas mãos, um contrato de aluguel vencido e onze filhos doentes.
Por sofrer tanto haveria de ser recebida com dádiva das novenas, lugar num
prometido céu.
A outra avó, que enrolava
fumo, continuaria na safra semestral. Mas acreditava que haveria salvação,
depois da morte do marido, quando poderia dormir uma noite inteira. O filho
calado partiu, criou família. Ela não teria mais com o que se preocupar a não
ser com a manutenção das sepulturas.
Dizem que a mãe era
puta - dava pra qualquer um que lhe prometesse prazer, que era fogosa. O
prometido homem bom guardava o tesão para as outras enquanto ela ardia nas
madrugadas. Seu prazer era fugir pra fábrica, desfilar com seus vestidos que
deixavam o sutiã pouco à mostra e usar o perfume de catálogo comprado em duas
parcelas.
A avó paterna não
cometeu pecados. Tinha desejo pelo padre da paróquia. Imaginava-se por vezes
levantando a batina pra receber as bênçãos, depois de subir em seu ventre e
fartar-se dele durante a confissão. O segundo marido, um santo, pouco pode
fazer pela mulher viúva que não mais descia o morro com o canivete na bolsa.
Ele queria rezar, levá-la à quermesse, à festa dos amigos e mostrar que não era
boiola, nem anormal por ter 40 anos e ser virgem. Foi ela quem lhe despertou
supostos pecados, ao passar por ele com as cochas quentes, as faces rubras de
quem precisava ser trepada, feito erva daninha.
A outra avó desistiu
de querer outro homem na viuvez. Houve até dias em que queria ter nascido
homem. Não usava calcinhas, para que os filhos não as encontrassem no chão, ao
acordar. Sempre que ele trepava nela, percebia os olhos lhe espiando pelas
frestas do sótão.
O prazer não era o da
carne crua, do banho pelada, do rio gélido que acalmava as partes pudendas e
calorosas. O prazer não era mais do coito, das vogais que escapavam da boca,
que não habitava mais a cama.
O que diziam pecado
estava tatuado nela.
A cidade permaneceu
impávida.
O rio já não lava as
partes das moças, nem as louças, nem as roupas da pobreza.
A que restou trazia
algumas cicatrizes, descendia das mulheres que enrolavam fumo, teciam panos,
pariam filhos. Espera ainda hoje insana, pelo homem bom, que lhe rasgue a
carne, não morra e lhe deixe ir.
*
Advogada, escritora, tutora e professora IFSC e Fiocruz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário