Variações em torno de um mesmo tema
* Pedro J. Bondaczuk
O Natal, como tema literário, é um desafio que encaro há já
40 anos. Como escrever textos que sejam originais a propósito, que ninguém já
tenha escrito e que sejam, se não excelentes, pelo menos atrativos (e
obviamente literária e gramaticamente corretos)? Essa é a questão que venho
encarando, por exatas quatro décadas e, salvo engano, venho me saindo bem.
Prova disso é que, entra ano, sai ano, os convites dos editores das mídias que
freqüento (jornais e revistas, por muito tempo, e atualmente, além desses
veículos, sites e blogs da internet) se repetem com uma constância assustadora e ás vezes até aumentam. Até
quando? Não sei! Espero que por mais o mesmo tempo, por outros 40 anos, quem
sabe.
Aliás, nem sou o primeiro, não serei o último e muito menos
único a encarar esse desafio. Milhares e milhares de escritores, tempo e mundo
afora, encararam e encaram idêntico repto, com resultados variáveis, como seria
de se esperar. Alguns arriscam-se e... se dão mal. Outros também correm esse
risco, mas se saem razoavelmente bem. Uma quantidade imensa de redatores
declina de convite para escrever a respeito, sob variados pretextos e evitam
possível desgaste da imagem. No tempo em que trabalhava no Correio Popular,
eram muitos os jornalistas convidados a escreverem sobre o Natal. Sob pretextos
vários (em geral, “falta de tempo”) no entanto, todos eles se recusavam a
degustar “essa batata quente”. Eu, no entanto, sujeito imprudente e impulsivo,
gosto de “viver perigosamente”. Pelo menos nesse aspecto. E a “bomba”
estourava, invariavelmente, em minhas mãos,
Já escrevi crônicas (mais de uma centena delas), contos
(cerca de quarenta), poemas (meia dúzia, se tanto) e até mesmo meu único,
solitário (e inacabado)_ romance tendo o Natal por tema. Tenho uma pasta
específica em meu arquivo eletrônico com todos os textos sobre esse assunto que
redigi, nos últimos quarenta anos, e nos gêneros que citei. Repeti-me alguma
vez? Aparentemente não! Mas... Essa variação em torno de um mesmo tema, sem ser
repetitivo e nem “enrolador”, além de desafio (óbvio), é uma forma de estimular
a criatividade. E haja criatividade!!! Para que o leitor tenha uma idéia da
quantidade de textos a propósito, lembro que o primeiro livro que publiquei foi
“Quadros de Natal”. São oito contos alusivos á maior festa da cristandade que,
há muitos anos, tem mais caráter profano do que propriamente religioso.
Pela urgência das “encomendas” dos editores das mídias que
freqüento, compus poucos, pouquíssimos, escassos, escassíssimos poemas alusivos
a esse evento. Bem, poesia exige sentimento, emoção, algo que promova empatia
entre o poeta e os leitores e não somente técnica. Mas... como se emocionar
espremido contra a parede, tendo que cumprir prazos super apertados? Não há
como! Ademais, os “clientes” parecem não apreciar tanto a poesia, não pelo
menos sobre esse tema. A maior parte dos meus textos natalinos é de crônicas. O
gênero, por sua própria natureza, descontraída, como um bate-papo informal, faz
com que o prefira, em detrimento de outros. Digamos que eu tivesse que escrever
uma única redação por ano sobre o Natal. Só aí, o número chegaria a 40.
Todavia, houve anos que as encomendas ascenderam a oito, entre jornais,
revistas, sites e blogs. Daí haver em meus arquivos implacáveis mais de uma
centena de crônicas natalinas.
Quanto ao meu romance... sou frequentemente cobrado
(infelizmente, não por nenhuma editora, mas por amigos) a concluí-lo. Como
ninguém me impôs prazo algum para sua conclusão, ele já se arrasta por
praticamente uma década. Esclareço que o texto em si (ou seja, o enredo e sua
exposição) está prontinho. Falta, todavia, o mais importante: o acabamento. O
resultado, até aqui, é um calhamaço de umas 500 páginas. Meu desafio é
reduzi-lo para algo em torno de 180, o que demanda criteriosa edição (justo eu
que sempre fui editor), além de paciência e... tempo. Muito tempo. E é deste
que mais careço. O título provisório do romance é “O sinterklaas de Roterdam”
(um tanto exótico, não acham?). O enredo refere-se a uma das principais
tradições (se não a principal) da Holanda. Sinterklaas é uma espécie de Papai
Noel holandês.
Mas, por enquanto, esse livro terá que esperar (quanto? Não
sei!). Tenho uma pauta de cinco crônicas para este ano – todas originais,
exigência explícita dos que as encomendaram – a redigir, se possível, ainda
hoje. Este texto (que nem sei em que gênero caracterizar, se é que se enquadra
em algum), certamente não será enviado a nenhum cliente. Eles não o aceitariam.
Ficará, pois, restrito a um dos meus dois próprios blogs. Como editor de ambos,
certamente não reclamarei do assunto (sem assunto) e nem da extensão. Embora se
trate de uma espécie de balanço, não deixa de ter relação com o Natal, embora
não trate de presépio, ceia natalina, presentes, Papai Noel e nem de outros
tantos clichês tão comuns da ocasião. Contudo, não tenho como fugir do mais
surradíssimo deles, ao término deste bla-bla-blá em tom mais de desabafo do que
de informação: FELIZ NATAL para todos!!!
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual
Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do
Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Neste ano, me solicitaram um texto sobre o Natal, e eu o fiz. Posso lhe assegurar que é muito difícil.
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