Planejar é preciso
O décimo quinto ano do terceiro milênio da era cristã está
prestes a terminar, com seus dramas, tragédias, comédias e coisas boas e ruins,
de acordo com a realidade de cada um. Como se vê, nada de novo, que não tenha
ocorrido em 2014, 2013, 2012 e vai por aí afora. Muitos dirão que tivemos de
novidade a crise política e econômica, ainda não resolvida, cujos próximos
capítulos podem trazer, ou não, surpresas agradáveis ou não. Onde a novidade,
porém? Desde que me conheço por gente, o País sempre conviveu com esse tipo de
situação, ora mais grave, ora menos, mas nunca ausente. Queiram ou não, o
brasileiro é viciado em crises.
Engraçado é que, apesar de se tratar de mera mudança de
números em uma folhinha, as pessoas (e eu também, claro) agem como se o começo
do novo ano fosse o início de uma nova era, que fantasiam como próspera e
radiosa, ou pelo menos melhor do que a que está no fim. Quase que
mecanicamente, consideram que o período recém-findo lhes trouxe só amarguras e
dissabores, esquecidas das alegrias e bênçãos que tiveram, geralmente não
poucas e nem inexpressivas. Somos incorrigíveis insatisfeitos, ora pois. As
pessoas (e eu não sou exceção) passam a fazer planos, geralmente muito vagos e
inconsistentes, para o futuro próximo, acompanhados de resoluções, que raros
cumprem.
É errado planejar? Diz o bom senso que não! O grande erro
que se comete é o de ignorar os planos feitos, logo na primeira semana do novo
ano, e sequer tentar cumprir o planejado. A menos que aquilo que se planejou
não seja factível, se mostre irrealizável, absurdo ou mesmo pernicioso. Neste
caso, a falha está no “planejador” desastrado, que confundiu plano com mero e
fantasioso devaneio. Apenas perdeu tempo e nada mais. O planejamento nada mais
é do que uma preparação para o que se pretende fazer. É ordenar as ações, para
não ser dispersivo. Em suma, é um exercício de autodisciplina. O
norte-americano Benjamim Franklin (um dos “pais” da pátria de Tio Sam),
advertiu: “Falhar em preparar-se é preparar-se para falhar”. E como é!!!
O ideal (e, sobretudo, realista) é nunca fazer planos
rígidos, que não comportem alterações, ditadas pelas circunstâncias e pelos
caprichos do acaso. O escritor romano, Publius Syrius, já sabia disso e observava,
lá por volta do ano 50 a.C. que “o plano que não pode ser mudado não presta”.
Não presta mesmo. Afinal, não sabemos sequer o que vai acontecer no minuto
seguinte, quanto mais em semanas, quinzenas e meses. Um leitor, cujo nome
foge-me no momento, perguntou-me se é possível o escritor planejar um livro.
Respondo que não somente é possível, mas desejável. Põe ordem no empreendimento.
Determina um cronograma e define quando, como e onde pesquisar, as horas
destinadas à leitura e à redação e outras coisas assim. Claro, levando sempre
em conta a possibilidade de mudanças “quando” e “se” forem necessárias.
Não vou ao cúmulo de afirmar que livros não planejados sejam
inviáveis ou tenham qualidade melhor ou pior. Esse aspecto depende do talento e
da criatividade do autor e não como, onde e quando ele escreve. Afirmo, porém
por experiência própria, que o planejamento (reitero, não muito rígido) ajuda.
Sem nunca perder de vista a observação feita pelo dramaturgo francês, Jean
Moliére: “É longo o caminho que vai do projeto à coisa projetada”. Longo e
geralmente trabalhoso. Nesse caso, o plano só tende a pôr ordem na tarefa, para
que o escritor não desperdice esforços, por falta de organização.
Esse mesmo leitor, que me questionou a propósito de
planejamento de um livro, pergunta onde entra a “inspiração” nessa equação. Não
entra. Quem acompanha com assiduidade meus textos sabe o que penso a esse
propósito. Nenhum livro vem prontinho do firmamento direto ao nosso cérebro,
bastando, apenas, que o transcrevamos. Não é assim que a coisa funciona.
Inspiração não passa de um lampejo, de um fragmento de idéia, que exige muito
trabalho e muito conhecimento para ser viabilizada. Literatura é trabalho, é
disciplina, é poder de observação. E, claro, tudo isso movido pelo talento. Se
o sujeito não foi feito para a coisa, não adianta. Pode até escrever algo, mas
seu texto não passará de um caricato monstrengo, de um disforme Frankenstein
literário (na verdade, nem isso, pois não merecerá essa pomposa designação).
Nesse aspecto, concordo com o escritor espanhol, Camilo José Cela: “A
inspiração é trabalhar uma boa quantidade de horas”. Creia-me, leitor, é isso
mesmo, sem tirar e nem por.
Por isso, caro escritor, que tal planejar aquele livro que
você sonha, há anos, em escrever, mas que nunca ousou mover uma única palha
para a sua redação? Esta é a hora mais adequada para uma resolução deste tipo
para 2016. Mas não aja como a maioria das pessoas que, tão logo passe a ressaca
do “réveillon”, esquecem tudo o que prometeram fazer no novo ano. Cabe, aqui, a
forma com que encerrei uma crônica, escrita há uns vinte anos:
“As solenes resoluções da véspera serão prontamente
esquecidas. A vida seguirá o seu curso, até o próximo final do ano. Estudos,
trabalho, namoro, casamentos, separações, planos, sucessos, fracassos,
encontros e desencontros, nascimentos e mortes... Tudo se sucederá, meio que
aleatoriamente. E continuaremos, como sempre, buscando a felicidade alhures,
mesmo que ela esteja debaixo do nosso nariz. A esperança ainda é o grande
alimento das ilusões humanas. E estas constituem-se na essência da vida...” Sobretudo,
planeje e busque seguir ao máximo o que planejou.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Gostei da esperança resplandecer ao final do texto. Sem ela não temos nada.
ResponderExcluir