Prosa de ficção: algumas noções
* Por
Nilto Maciel
Tenho encontrado leitores que me fazem perguntas embaraçosas como esta:
“O que devo fazer para aprender a escrever conto, novela, romance?” No mais das
vezes, digo-lhes: “Comece lendo os clássicos.” Alguns me responderam: “Mas eu
já li quase todos e, mesmo assim, ainda não sei como escrever um conto.” Ora,
há dicionários, manuais, tratados que dão noções sobre espaço, ação, incidente,
drama, conflito, unidade dramática, história, célula dramática, lugar, tempo,
passado anterior ao episódio, tom, personagens, tipos, caricaturas, linguagem,
concisão, concentração de efeitos, diálogo, diálogo interior, monólogo
interior, discurso direto, narração, descrição, ponto de vista, foco narrativo,
primeira pessoa, narrador onisciente, começo, fim. Também o conhecimento de
tudo isto parece não ser suficiente para dar ao aprendiz de escritor o cadinho
para a realização da obra de arte. E, por falar em cadinho, captei a seguinte
lição de Adolfo Casais Monteiro, em Os Pés Fincados na Terra: “A
arte não é invenção pura; o artista é como que um cadinho em que se realiza a
mistura dos ingredientes que são o pó da experiência.” Muitos sociólogos ditos
marxistas insistem em afirmar que toda pessoa é capaz de criar qualquer obra de
arte, desde que se lhe dêem condições sociais, culturais para o exercício dessa
capacidade. Ora, milhares e milhares de pessoas letradas, bem vividas se dizem
poetas porque sabem escrever versos. No entanto, não são poetas ou não
conseguem escrever bons poemas. Os gramáticos seriam então os melhores poetas,
contistas ou romancistas.
Muitos desses escritores principiantes estudaram
gramática, leram os principais livros – da Antigüidade aos dias de hoje –, se
debruçaram sobre manuais, tratados, dicionários de literatura, e, crentes de já
saberem tudo e estarem prontos para a criação literária, tentaram escrever
contos, novelas, romances. O resultado, porém, tem sido desastroso. Faltou-lhes
o quê? Persistência? Nem sempre. Humildade? Talvez. Imaginação? Quem sabe?
Talento? Não sei.
Há quem pense ser mais fácil escrever contos ou
poemas curtos que romances. Como se tudo fosse questão de tamanho. Ora,
contistas são contistas, poetas são poetas, romancistas são romancistas. Alguns
escritores conseguem ser bons como poeta, contista e romancista. Muito contista
sonha com um grande romance e freqüentemente o ensaia nos contos mais longos.
Já o narrador mais afeito à arte de narrar nunca confunde alhos com bugalhos.
Confunde-se também conto com crônica, o que é menos grave. Pior é chamar de
conto simples anedota, piada, notícia, comentário, etc. No livro A Nova Literatura: O Conto, Assis Brasil faz didática distinção entre conto,
crônica, prosa poemática e poema em prosa. Crônica é um relato, bastante
pessoal, onde o autor nomeia e descreve acontecimentos, criando enredos num
tempo histórico passado. O poema em prosa e a prosa poemática são formas
confessionais, ausentes de fabulação.
À medida que o homem avança no tempo em sentido
contrário à caverna (ou todo movimento é um retorno?) mais se torna difícil
expressar-se por conceitos. Assim, a oralidade primitiva se confunde cada vez
mais com a escrita dos novos tempos. Isto não quer dizer que o caso, o conto
oral tenda a desaparecer. Ora, como não encontrar semelhanças entre o conto rural,
que se confunde com a lenda, e o conto urbano de feições realistas? Difícil
também delimitar os campos do imaginário e do real.
A história curta, tradicionalmente conhecida como
conto, não só tem servido de objeto de discussões entre narradores e teóricos
em busca de definições, como tem dado ensejo a constantes rebatismos, mercê das
transformações sofridas pelo gênero. Muitos estudiosos elaboraram vastas
enunciações do conto. Arranjar, porém, novos nomes para o gênero parece tarefa
sem proveito. Porque a cada conceituação e a cada transformação seria preciso
um novo batismo.
Os manuais, os tratados, os dicionários não tratam
de questões menores ou de noções rudimentares da arte de escrever literatura.
Pois eu quero aqui dedicar algumas palavras a essas “outras noções” de como
escrever “corretamente” prosa de ficção. Ou como não escrever “incorretamente”
prosa de ficção.
Comecemos pelo emprego exagerado de lugares-comuns
e gírias. Os livros estão cheios de “nariz aquilino”, “lágrimas de crocodilo” e
outros chavões. Se não é possível a metáfora, que se descreva o nariz do
personagem com criatividade. Vejamos a gíria na frase: “O gatinho andava ao meu
redor.” Ora, daqui a alguns anos quem poderá imaginar que o narrador se referia
a um rapazinho e não a um felino? O escritor poderá passar como genial: o
“gatinho” seria uma metáfora.
Há escritores que abusam da grafia distorcida de
vocábulos, na certeza de estarem sendo fiéis à língua do povo, realistas, e de
estarem preservando o idioma português. Ora, por que escrever “home” em vez de
“homem”, “bêbo” em vez de “bêbado”, “eu tô com fome”? Neste caso, para ser fiel
ao propósito de escrever como fala o zé-povinho, melhor seria: “eu tô cum
fomi”. Guimarães Rosa fez malabarismos para não cair nessa esparrela. Escreveu
sempre a fala do povo do sertão mineiro, porém com invejável inventividade,
sabedoria, consciente do significado de cada sílaba, de cada vocábulo, de casa
frase.
O mau uso dos diálogos tem sido outro pecado de
muitos escritores. É o caso de personagens do tipo Zé-prequeté falando como
literatos, isto é, o oposto do uso excessivo de gíria ou transcrição da fala do
joão-ninguém. José de Alencar é criticado por ter posto nos lábios de seus
índios o modo de falar dos portugueses. Porém o romantismo tinha lá suas leis,
como a de que os diálogos nunca reproduzissem a fala dos “sem fala”. O
sertanejo que falasse como o doutor da cidade, com acatamento e respeito às
normas gramaticais.
Há também o vício da repetição exagerada de
vocábulos, na mesma frase, no mesmo parágrafo, no mesmo capítulo, no mesmo
conto. Os mais comuns são: “que”, “mas”, “estava”, “era”. Vejamos este caso:
“João dos Bois ia levantar mais tarde. Antes de levantar...” Contemos os “que”
neste trecho: “Mieko achava que devia voltar à lavoura novamente e conversa com
o Noriel e pedir que ele não contasse a ninguém o que tinha acontecido.” Do
mesmo livro é a frase: “Foi só depois que o Roberto tinha levado a Arume que a
Mieko achou que podia escrever.”
Semelhante ao senão apontado é o uso forçado de
figuras de linguagem, o emprego desnecessário dos artigos, o descuido na
conjugação dos verbos, os cacófatos. Tudo isso é muito comum em narradores
brasileiros do final século XX e depois. Para isto, dizia-se: “Fulano não tem
estilo.”
Passemos aos personagens. Um dos erros mais comuns
é o excesso de personagens em contos. A não ser que somente dois ou três deles
participem diretamente da ação. A primeira causa disso será o surgimento de
personagens desnecessários, sem lugar na ação, supérfluos. Depois, a confusão
no enredo. O tamanho da narrativa não comporta muitos personagens. E não será a
evolução do gênero que irá mudar isso.
E para que personagens sem nome? Cabível em contos
com muitos personagens. Somente os principais, dois ou três, terão nomes.
Outro equívoco de alguns narradores: o aparecimento
súbito de um personagem secundário, irrelevante, e o seu repentino
desaparecimento. Melhor excluí-lo da história.
Vejamos a descrição dos personagens. O narrador não
precisa descrever o caráter dos personagens. Se fulano é mau ou bom, não cabe
ao narrador qualificá-lo e, sim, ao leitor. Suas ações e suas palavras o
pintarão aos olhos do leitor. Também é ocioso descrever o aspecto físico dos
personagens, especialmente em conto. No romance realista e naturalista a
descrição não podia faltar. Como não se deliciar o leitor com o corcunda de
Notre-Dame? Porém a descrição não se fazia gratuitamente. Sem o aleijão do
personagem o romance não existiria. A descrição de defeitos ou características
não faz sentido, a menos que o aspecto físico do personagem seja imprescindível
à história. Se fulano é cego, manco, perneta, se assim descrevendo o personagem
quis o narrador simplesmente “enfeitar” a história, homenagear alguém, seja lá
o que for – a descrição então será uma excrescência.
Agora a questão do narrador. Durante muito tempo
prevaleceu em prosa de ficção a onisciência do narrador, fosse personagem ou
não. Porém tudo mudou a partir de James Joyce. O narrador onisciente
desapareceu. Os pensamentos dos personagens não podem ser do conhecimento do
narrador. “Fulano tencionava matar sicrano.” “Ele se sentiu culpado de alguma
coisa.” A interferência excessiva do autor-narrador é um mal maior para a
narrativa. Assim como o excesso de observações e explicações. Não deve o
narrador dar informações, sobretudo se inúteis à trama. Exemplo: “Na curva do
caminho surgiu um cavaleiro: era o Vadico, um velho conhecido que batia muito
na mulher.” Tal informação é até sem sentido no conto, vez que Vadico nem
sequer volta à cena.
Mencionar nomes de cidades, logradouros, somente se
absolutamente necessário ao enredo. Dizer que fulano mora na Rua São Sebastião
ou na Avenida Dom João poderá ser necessário, sim. Se não o for, para que o
nome do logradouro? Nunca explicar o óbvio. Como assim: “Em Fortaleza, a bela
capital do Ceará, vivia fulano.” Aliás, nunca explicar nada. “Isto aconteceu
porque...” Melhor o mistério. Cada leitor fará uma dedução. Nunca opinar.
“Aquela mulher era má.” Cabe ao leitor o julgamento dos personagens. O narrador
não é juiz, não decreta nada. Sua função é tão-somente narrar.
Moreira Campos, um dos mestres do conto brasileiro
ou um dos melhores discípulos dos grandes mestres, seguia à risca as lições de
Tchecov. Em “Breves palavras”, apresentação do livro Dizem que os cães vêem coisas, escreveu: “Sou fiel, quanto à síntese, ao conceito
de Tchecov: ‘Se a espingarda não vai atirar no conto, convém tirá-la da sala.’”
Ainda desse mestre a advertência de que, “se você vai derrubar a casa, apodreça
de logo a cumeeira.”
Em suma: para escrever boa prosa de ficção é
preciso, além de conhecer todas as técnicas de narrar e muito talento, saber
lapidar, transpor, alterar, substituir, riscar, cortar, remendar, costurar
palavras, frases, parágrafos inteiros. E não ter medo do cesto de lixo, de ser
cruel consigo mesmo. Não ter complacência com o vício, o erro, a mediocridade.
Não ter piedade nem de si mesmo nem de personagens.
*
Escritor cearense.
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