quarta-feira, 1 de maio de 2013


Beijos e tiro
 
* Por Fernando Yanmar Narciso

Quem quiser um jornalismo imparcial, sem segundas intenções e preocupado apenas em retratar a verdade, que monte o seu próprio jornal. O mau jornalismo, o jornalismo tendencioso, consegue convencer o povo de qualquer ponto de vista, por mais errado que ele seja.

As últimas duas semanas foram um passeio nas águas do Hades para o governo Obama. Para nós, a impressão que fica é que, na ânsia por tentar fazer algo em seu mandato que o destacasse dos anteriores, Obama transformou a questão do controle de armas em prioridade máxima, tentando varrer os outros desmandos da gestão para debaixo do tapete.

E justamente na semana em que as novas legislações para porte de armas seriam votadas no Senado, ocorrem os atentados à bomba na maratona de Boston. Por mais mórbido que seja pensar dessa forma, as pessoas que não queriam que a legislação fosse aprovada- imprensa marrom, republicanos, conservadores e membros da National Rifle Association em geral- jogaram as mãos ao céu quando as bombas começaram a explodir. Melhor hora para uma tragédia dessas, impossível. Resultado: As pessoas ficaram apavoradas, as propostas para limitar a venda de armas dançaram e Obama viu-se derrotado mais uma vez.

Não há lugar melhor para presenciar o jornalismo tendencioso que nos Estados Unidos. Se por um lado a CNN, que apesar de ser claramente o jornalismo da situação tem perdido muito ibope nos últimos anos, pelo outro a FOX News, que sempre foi a porta-voz do conservadorismo republicano, tem atiçado os corações do público. Não importa qual seja a questão levantada pelo governo, os âncoras da FOX News a contra-atacam com uma virulência que assusta mais que os ataques terroristas. Mesmo se a idéia de algum democrata for realmente boa, eles precisam arrumar um jeito de pisoteá-la, pois descobriram que a audiência anda tão estressada que não está nem aí para imparcialidade jornalística, só quer saber de ver o circo pegar fogo.

A impressão que a CNN e o governo tentam passar para americanos e não-americanos é que o país se tornou uma zona de guerra, um inferno na Terra pior que a Síria onde qualquer um pode tomar um tiro na cabeça enquanto assoa o nariz. Para seus opositores, ao abraçar uma causa pacifista, a mensagem que o presidente passa ao resto do mundo é que a América não quer mais meter medo em ninguém. Logo, o país está livre e solto para quem quiser pegar.

No entanto, a questão das armas da América é bem mais complexa. Para começo de conversa, a idéia de que todo dono de armas é um doente que só pensa em atirar passa longe da realidade. Pessoas que torram milhares de dólares numa metralhadora M16 - a favorita do Rambo- ou num fuzil AR-15 são, no fundo, pessoas normais e responsáveis, que compram armas como se fossem bonecos do Max Steel. Para eles, é uma coleção como qualquer outra, tanto que boa parte dos colecionadores de armas só puxa o gatilho para testar, no dia da compra. Americanos amam seus rifles tanto como amam a Deus. O fetiche por armas dos americanos não passa de uma fantasia, uma forma ingênua de os homens reafirmarem a própria virilidade. Propagandas de armas estão espalhadas por toda parte, em todos os ramos do entretenimento. Quer dizer, apenas tentem encontrar um cartaz do James Bond clássico onde ele não apareça com uma pistola. Fácil como achar uma foto da Nicole Kidman sem botox. Mas isso não faz de todos os americanos assassinos.

O problema são os casos isolados, o 0,000001% que acorda com o tinhoso no corpo, azeita o ferrão e vai brincar de Duke Nukem na vizinhança. O argumento dos contrários às novas leis é que 99% da população não podem ser privados de um hobby- macabro, por sinal- por causa de um ou outro ato desmedido. E, até em tais casos, muitas vezes as pessoas com instinto selvagem acabam achando uma válvula de escape para sua vocação assassina, como videogames de tiro e filmes de vingança sul-coreanos.
Deve impressionar a vocês saber que, por exemplo, a porcentagem de suicídios por armas de fogo nos Estados Unidos é quase o dobro da porcentagem dos massacres provocados por jovens desajustados. Mas ninguém se interessa em noticiar suicídios por causa da “carga dramática” menor da reportagem. Os fantasmas internos que os matadores enfrentam são tão horrendos que apenas suas próprias mortes não bastam. É preciso fazer o resto do mundo sofrer tanto como eles.

Para verem como essa horda de franco-atiradores escolares não é uma “modinha recente”, sabem de quando data o maior massacre escolar da história americana? De 1927. Sem nenhum motivo, um capiau de Michigan resolveu soltar uma bomba num colégio, matando 45 crianças e a si mesmo. Bem distante do estereótipo dos jovens matadores modernos, concordam?

Ao que parece, a luta de Obama por sua causa nobre ainda está longe de acabar. Se ele for tão teimoso como Lincoln foi para abolir a escravidão, em breve o povo dele não poderá portar nem estilingues sem ser revistado pelos federais. Dizem até que querem proibir a venda de panelas de pressão por lá depois do atentado de Boston.

Um comentário:

  1. Um tema tão quente e palpitante quanto uma bomba relógio, num texto cheio de metáforas e até certas graças. Afinal você é contra ou a favor do desarmamento americano, contra ou a favor dos atos terroristas? Perigo à vista!

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