Tarefa
de gigante
O inglês Samuel Johnson afirmou,
certa feita, que “é preciso folhear meia biblioteca para fazer um livro”. Estava
certo? Exagerou? Depende. Conheço quem
não tenha lido quase nada e ainda assim conseguiu publicar um livro. Se vendeu
ou não, são outros quinhentos. Muitos dos que são publicados e vendidos por aí
são de qualidade para lá de medíocre, na verdade sofrível, que quer pela forma
ou quer, principalmente, pelo conteúdo, não justificam o abate da árvore com
que se fez o papel em que foram impressos. Contudo... são publicados.
Se há algo que há muito me
intriga, e que me tem despertado crescente curiosidade, é tentar saber como
maus escritores – que na verdade nem merecem essa designação de tão ruins que
são – que não dizem coisa com coisa,
conseguem editoras que publiquem as baboseiras que escrevem e que nem mesmo são
edições bancadas do próprio bolso. Como pode?! Não entendo! Entendo menos ainda
o fato de intelectuais reconhecidamente excelentes, redatores exímios,
corretos, criativos e comunicativos, com prestígio na praça – como, por
exemplo, bons cronistas de jornais, revistas ou mesmo de blogs da internet – baterem
com o nariz na porta toda vez que procuram editar seus livros. Qual o critério
(se há algum) adotado para definir o que deve e o que não dever ser publicado?
Quem o define? Qual a qualificação desse definidor?
Todavia, entendo o que Samuel
Johnson quis dizer. Referiu-se, ao fazer a citada declaração, aos “bons livros”.
Aos de conteúdo, que acrescentam alguma coisa útil na vida do leitor em termos
de conhecimento, ou de experiência ou de ambos. Até porque, ele próprio foi
excelente escritor. Hoje, é fato, anda um tanto esquecido e pouca gente pode
dizer que já leu alguma de suas obras. Mas no século em que viveu, o XVIII
(nasceu em 7 de setembro de 1709 e morreu em 13 de dezembro de 1784), gozou de
merecido prestígio. Era homem erudito (chegou a fundar uma escola, que faliu,
por ele não ter tino comercial para administrar o negócio) e tinha experiência
em comunicação, porquanto foi, também, jornalista.
A indústria editorial na ocasião
era incipiente, em termos de tecnologia. Imprimir o que quer que fosse era um
processo complicado e caro. Os editores de então tinham (pelo menos é o que
parece) critério na definição do que deveriam publicar, caso tivessem que
bancar a publicação, para depois tentar recuperar o investimento com vendas. E
qualidade contava muito nestes casos. Aliás, era fator determinante. Isso não
quer dizer que acertavam sempre. Ninguém, em atividade alguma, consegue índice
de cem por cento de acerto. Bem, talvez esse “ninguém” seja um pouco forte.
Troquemo-lo por “raros”.
Samuel Johnson publicou, em 1759,
um romance que fez muito sucesso. Não só trouxe retorno e lucros ao editor,
como a ele próprio. Trata-se do livro “A história de Rasselas, príncipe da
Abissínia”. Confesso que não o li, pois não o encontrei em nenhum dos tantos
sebos que consulto com freqüência na garimpagem de obras raras. Considerando,
porém, sua cultura e a influência que teve no seu tempo (fundou um clube
literário que contou com o concurso de nomes famosos, como o de Edmund Burke,
por exemplo), ponho minha mão no fogo pela qualidade desse romance. Com o
providencial auxílio da internet, tenho convicção plena de que ainda o lerei.
O que considero pitoresco, em
relação a essa história (que, reitero, no século XVIII foi grande sucesso editorial) é que, ao escrevê-la,
Johnson desmentiu sua tese de que para se escrever um livro é necessário folhear
meia biblioteca. Não agiu assim nesse caso. Sabe-se que a redigiu não em meses,
como seria de se supor, se tivesse que consultar tantas fontes, mas fê-lo em
menos de uma semana! Isso me lembra o romancista português Camilo Castelo
Branco, que vivia atolado em dívidas, principalmente por causa de suas tantas
aventuras amorosas (diria trapalhadas) que, para satisfazer um poderoso credor,
escreveu um romance inteiro (não me recordo qual) em apenas uma madrugada.
Isso, caso seja verídico, é exceção, e das mais raras.
Por melhor leitor que Johnson
fosse, portanto, não conseguiria ler tantos livros (equivalente a meia biblioteca),
e ainda redigir o seu, em espaço de tempo tão curto. Por isso tenho extrema
cautela com declarações absolutas, que não admitam exceções. Manda a prudência
que deixemos em “quase” tudo espaço para dúvida. E por que esse “quase”? Ora,
ora, ora, caro leitor, está na cara!
De qualquer forma, considero a
redação de um livro “tarefa de gigante”. Óbvio que me refiro aos bons, aos que
requerem, antes e acima de tudo, pleno conhecimento de causa, total domínio do
tema a desenvolver e competência para fazê-lo. E, claro, outro extenso elenco de
virtudes, como talento, domínio gramatical, criatividade, capacidade de
comunicação, exatidão nas informações prestadas e vai por aí afora. Não chego
ao extremo que Samuel Johnson chegou, ao afirmar que para tanto se faz
indispensável folhear meia biblioteca. Mas sei, por experiência própria, que
para se tornar bom escritor, além de contar com as características que
mencionei, é preciso ser, antes e acima de tudo, excelente leitor. Sem leitura,
não se consegue ir muito longe nessa atividade. Não, pelo menos, com um mínimo
de qualidade.
Boa leitura.
O Editor.
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Gosto dos seus apartes "intraparênteses". São desconcertantes ao leitor, mas consertam o raciocínio. Perfeitas intervenções!
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