O colecionador
* Por Edmundo Pacheco
Mailiw levantou-se cedo, naquela
segunda-feira. Mais cedo que o costume. Chovia e, por mais que tivesse
disposição, de nada adiantaria ir ao trabalho. Era vendedor, gostava do ritmo
do trabalho, mas não das segundas-feiras chuvosas, quando sair de casa seria
desperdício.
Muito menos gostava das noites de
domingo mal-dormidas. Menos ainda quando as dúvidas assolavam estas noites,
afugentando o sono; das pernas reclamando das caminhadas entre o quarto e a
sala, no escuro; do dedo doendo da topada no canto do sofá.
Arrastou o corpo dolorido mais
uma vez em direção à sala, abriu lentamente as grossas cortinas de veludo
vermelho (vermelho como tudo na vida de Rosa) e jogou os olhos em direção à
rua. Lá embaixo, na calçada, o mundo vivia mais uma segunda-feira. Aqui dentro,
no 12º andar, Mailiw vivia a sua segunda-feira particular, indelével, única e
última.
Talvez tivesse sido melhor não
acordar na tarde de domingo. Perderia apenas o jogo, não a vida. Mas acordou. E
acordou cedo demais. Sem o que fazer enquanto a televisão relutava em colocar
em campo seus heróis prediletos, Mailiw resolveu ler a Revista de Domingo. Nada
preocupante. Fofocas, comentários, historietas da vida real... ou não? Ali
nascera a dúvida que acabara com o jogo antes de começar, com o resto da tarde,
da noite, da vida.
Era vendedor. E gostava do ritmo
do trabalho. Vendia livros e, por conseguinte: sonhos. Mas, o que gostava
mesmo, era de vender ilusões. Alto, de cabelos pretos agrisalhados e tez muito
branca, com dois olhos negros, penetrantes, incrustados, Mailiw tinha algo que
atraia as mulheres.
Colecionou todos os modelos,
tipos e tamanhos. Nunca tivera preconceito. Mas nunca, jamais, traíra Rosa.
Amava-a e, à sua maneira, considerava-se fiel ao extremo. As outras eram
coisas, objetos da coleção. Imediatamente “vaporizadas”, como gostava de dizer
aos amigos.
Vaporizava tantas, que a palavra
se transformou em brincadeira e até cumprimento:
- E aí Mailiw, vaporizando muito?
- Vaporizando, como sempre!! –
respondia, risonho, ao cruzar a rua.
O problema, é que o vaporizador
começou a dar defeito numa manhã fria de inverno.
Mailiw fixou os olhos negros nos
castanhos de Vindi. Como era costume, marcou a vítima a ferro. E iniciou seu
bailado: telefonemas em horas impróprias. Bons dias com flores. Boas tardes com
sorrisos e carinhos. Boa noite com carícias e amor. Ótima noite. Maravilhosa
noite. Inesquecível noite e uma vaporização matinal.
Rosa, mais uma vez, o esperava,
vermelha, saudosa, da “viagem”. E Mailiw amou-a, como jamais amaria alguém.
Era sua Rosa. Vermelha. No quarto
vermelho por ela decorado, onde se respirava tesão. E onde jamais entraria o
vaporizador e sua coleção.
Mas o vaporizador se quebrara. E
Vindi negou-se a fazer parte da coleção.
Dia após dia, sentiu falta do
bailado, dos bons dias e, principalmente, da boa noite. Frustrada, vestiu-se de
vingadora e saiu a campo. Descobriu nome, endereço, telefones, senha do cartão,
tipo sangüíneo, número do sapato, a coleção e o vaporizador.
Tentou tê-lo novamente. Tentou...
Tentou... Tentou... Tentou... Ameaçou... Chantageou... Humilhou-se...
E Mailliw resistiu. Ignorou...
Ignorou... Ignorou... Como era costumeiro.
Como última saída, Vindi resolveu
roubá-lo. Se não ele da Rosa, a Rosa dele. Descobriu que, apesar de tanto
amada, Rosa não era feliz. Faltava-lhe algo. Vasculhou a vida nada cor-de-rosa
de Rosa, pontos fracos, medos e segredos. E armou o contra-ataque.
Quase mil quilômetros distante, o
irmão de Vindi, Carvalho, recebeu a ficha completa de Rosa. Nome, endereço,
telefones, senha do cartão, número do manequim, gostos, desgostos e
pontos de maior tesão.
E assim, iniciou-se o bailado do
Carvalho em torno da Rosa. E Rosa gostou.
Vindi fazia a ponte, vigiava os
passos de Mailiw e Rosa, e Carvalho, mesmo distante, fazia-se presente a cada
instante. Mandava rosas, vermelhas, claro. E recados de amor, de levar Rosa ao
rubor. E tanto fizeram os irmãos, brincando de vingança, que a Rosa, sedenta,
finalmente pôde experimentar o carvalho. E amou. E descobriu que nunca fora
realmente amada.
O quatrilho da doce vingança de
Vindi estava completo. Ou quase. Vindi nem assim conseguiu sair da coleção.
Relutou, lutou, ameaçou. Quase foi às vias de fato.
Não se importava mais em perder
marido e filhos, esquecidos no arquitetar e executar dos planos mais
mirabolantes. Vindi precisava sair da coleção.
E teve, finalmente, mais uma de
suas grandes idéias: escrever um conto. E contar ao mundo, mesmo que de forma
cifrada, que chifrara e fora chifrada e, principalmente, que já não lhe
importava mais nada, se não o amor do colecionador.
Apesar de não ser escritora, o
texto ficou bom, e foi aceito pela Revista de Domingo. Lida pelos insones
futebolistas, nas tardes domingueiras.
Mailiw reconheceu o nome da
autora: Vindi Care. E os detalhes deram certeza: era “O colecionador”, título e
personagem.
Começara sua noite de terror.
Rosa, agora branca, sobre a cama
vermelho-sangue, confessara fazer parte de outra coleção.
Agora, nesta manhã chuvosa de
segunda-feira, Mailiw olhava a calçada lá embaixo, enquanto vivia sua dor e sua
última dúvida: vaporizava os irmãos ou pulava pela janela...
*Jornalista, ex-editor-chefe da TV Guairaca
(afiliada Globo) Guarapuava, PR
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