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O quarto branco
* Por Fernando Yanmar Narciso
Nossa mente é uma obra em andamento, um imenso rabisco impossível de ser esticado em linha reta e ter determinado seu início e fim. Durante toda a nossa vida tentamos encontrar um sentido para tudo que nos cerca, simplificar o “insimplificável”, numa luta vã pelo controle da vida e do mundo.
Quem lê meus textos não imagina a batalha que travo para desembaralhar meu “rabisco mental”. Já não sou a pessoa mais tranqüila do mundo, como já deu pra notar pelos meus textos. Quando escrevo, geralmente têm umas 15 janelas abertas ao mesmo tempo no meu computador, todas com roupas por lavar, por assim dizer. Sempre há música tocando, TV ligada, coisas a fazer pela casa... Conseguir terminar um texto é tarefa tão fácil quanto um cirurgião com Parkinson operar um cérebro com chave de grifo.
Na tentativa de extrair ordem do caos, vou e volto nos temas inúmeras vezes. Começo a escrever sobre uma coisinha de nada e logo avanço algumas linhas para criar outro parágrafo abaixo do anterior ainda inacabado. Faço o texto picado em várias frases emaranhadas e depois tento “cimentar” tudo e organizar pra ver se as idéias fazem sentido, sejam juntas, sejam separadas. Como vêem, é quase impossível me mostrar como pessoa focada e ponderada numa conversa, mas sempre dá pra tapear no papel/tela.
Quanto aos desenhos, também tenho meus vícios. Desenhar, no meu caso, é como um ritual religioso, cheio de cerimônias. Só jogo o desenho no computador quando tenho certeza de que vale a pena ser digitalizado. Meu principal problema são meus hábitos ao papel. Nunca consegui fazer rascunho dos meus desenhos. Por causa da minha impaciência, sinto urgência em ver o trabalho já pronto desde os primeiros passos, e já saio passando o nanquim com a criação ainda em andamento. Já desperdicei muito papel e canetas com essa mania...
Sempre invejei a facilidade que meus colegas do curso de Design têm para criar. Alguns deles conseguiam desenhar um personagem e um cenário inteiros em menos de dez minutos, sem nem pensar no que estavam fazendo. Um deles inclusive andava pra cima e pra baixo com uma prancheta de desenho debaixo do braço, pra acudi-lo sempre que a inspiração lhe atacasse nos lugares mais inusitados, como esperando o semáforo abrir ou na fila do banheiro. Eu brincava que ele conseguia desenhar até num papel higiênico usado.
No curso aprendemos a admirar – ou a ter algum sentimento do gênero – o trabalho do arquiteto Oscar Niemeyer. A coisa mais curiosa do trabalho dele é que ele não “projeta” aquelas loucuras da maneira usual. Tudo que ele fez, do Palácio da Alvorada ao prédio do Museu de Niterói, surgiu de um pincel atômico fazendo esboços extremamente rudimentares em papel, que depois seu assistente tinha a tarefa homérica de compreender aquelas garatujas do patrão e passar para uma planta formal. Até hoje, aos 102 anos, ele continua fazendo as paradas dele exatamente do mesmo jeito como iniciou a carreira. Tanto Niemeyer como meus colegas compartilham de um dom em comum, o da criação casual e sem rodeios. Eu honestamente não possuo esse dom.
Uma das coisas que eu mais gostaria de ter seria um quartinho no fundo da minha casa, um pouquinho maior que um lavabo, com uma porta e uma janela, pintado de branco do chão ao teto. Nele, não teria nada além de uma poltrona reclinável branca, uma escrivaninha branca, uma cadeira branca, talvez alguns livros e o essencial: muitos lápis, borrachas e um estoque vitalício de papel Chamex.
Seria um lugar absolutamente estéril e imaculado, como os cenários claustrofóbicos do filme THX 1138, de George Lucas. Livre de qualquer tipo de aparato tecnológico, como uma casa de Amishs americanos. Um quarto livre de qualquer interrupção ou desvio de meu único objetivo na vida: criar.
Sempre quis ter um cantinho só meu, onde ninguém mais pudesse entrar e a veia criativa fluísse totalmente desimpedida. As paredes seriam revestidas com aquelas lousas para pincel atômico, onde eu, enfim, poderia realizar o sonho de rabiscar na parede sem ninguém me incomodar. Imagino que, num local isolado, sem qualquer tipo de distrações, como um quartinho acolchoado de manicômio, a minha inventividade poderia ultrapassar seu próprio limite. De fato, as coisas simples são as que mais nos dão prazer.
* Fernando Yanmar Narciso, 26 anos, formado em Design, filho de Mara Narciso, escritor do blog “O Blog do Yanmar”, http://fernandoyanmar.wordpress.com
* Por Fernando Yanmar Narciso
Nossa mente é uma obra em andamento, um imenso rabisco impossível de ser esticado em linha reta e ter determinado seu início e fim. Durante toda a nossa vida tentamos encontrar um sentido para tudo que nos cerca, simplificar o “insimplificável”, numa luta vã pelo controle da vida e do mundo.
Quem lê meus textos não imagina a batalha que travo para desembaralhar meu “rabisco mental”. Já não sou a pessoa mais tranqüila do mundo, como já deu pra notar pelos meus textos. Quando escrevo, geralmente têm umas 15 janelas abertas ao mesmo tempo no meu computador, todas com roupas por lavar, por assim dizer. Sempre há música tocando, TV ligada, coisas a fazer pela casa... Conseguir terminar um texto é tarefa tão fácil quanto um cirurgião com Parkinson operar um cérebro com chave de grifo.
Na tentativa de extrair ordem do caos, vou e volto nos temas inúmeras vezes. Começo a escrever sobre uma coisinha de nada e logo avanço algumas linhas para criar outro parágrafo abaixo do anterior ainda inacabado. Faço o texto picado em várias frases emaranhadas e depois tento “cimentar” tudo e organizar pra ver se as idéias fazem sentido, sejam juntas, sejam separadas. Como vêem, é quase impossível me mostrar como pessoa focada e ponderada numa conversa, mas sempre dá pra tapear no papel/tela.
Quanto aos desenhos, também tenho meus vícios. Desenhar, no meu caso, é como um ritual religioso, cheio de cerimônias. Só jogo o desenho no computador quando tenho certeza de que vale a pena ser digitalizado. Meu principal problema são meus hábitos ao papel. Nunca consegui fazer rascunho dos meus desenhos. Por causa da minha impaciência, sinto urgência em ver o trabalho já pronto desde os primeiros passos, e já saio passando o nanquim com a criação ainda em andamento. Já desperdicei muito papel e canetas com essa mania...
Sempre invejei a facilidade que meus colegas do curso de Design têm para criar. Alguns deles conseguiam desenhar um personagem e um cenário inteiros em menos de dez minutos, sem nem pensar no que estavam fazendo. Um deles inclusive andava pra cima e pra baixo com uma prancheta de desenho debaixo do braço, pra acudi-lo sempre que a inspiração lhe atacasse nos lugares mais inusitados, como esperando o semáforo abrir ou na fila do banheiro. Eu brincava que ele conseguia desenhar até num papel higiênico usado.
No curso aprendemos a admirar – ou a ter algum sentimento do gênero – o trabalho do arquiteto Oscar Niemeyer. A coisa mais curiosa do trabalho dele é que ele não “projeta” aquelas loucuras da maneira usual. Tudo que ele fez, do Palácio da Alvorada ao prédio do Museu de Niterói, surgiu de um pincel atômico fazendo esboços extremamente rudimentares em papel, que depois seu assistente tinha a tarefa homérica de compreender aquelas garatujas do patrão e passar para uma planta formal. Até hoje, aos 102 anos, ele continua fazendo as paradas dele exatamente do mesmo jeito como iniciou a carreira. Tanto Niemeyer como meus colegas compartilham de um dom em comum, o da criação casual e sem rodeios. Eu honestamente não possuo esse dom.
Uma das coisas que eu mais gostaria de ter seria um quartinho no fundo da minha casa, um pouquinho maior que um lavabo, com uma porta e uma janela, pintado de branco do chão ao teto. Nele, não teria nada além de uma poltrona reclinável branca, uma escrivaninha branca, uma cadeira branca, talvez alguns livros e o essencial: muitos lápis, borrachas e um estoque vitalício de papel Chamex.
Seria um lugar absolutamente estéril e imaculado, como os cenários claustrofóbicos do filme THX 1138, de George Lucas. Livre de qualquer tipo de aparato tecnológico, como uma casa de Amishs americanos. Um quarto livre de qualquer interrupção ou desvio de meu único objetivo na vida: criar.
Sempre quis ter um cantinho só meu, onde ninguém mais pudesse entrar e a veia criativa fluísse totalmente desimpedida. As paredes seriam revestidas com aquelas lousas para pincel atômico, onde eu, enfim, poderia realizar o sonho de rabiscar na parede sem ninguém me incomodar. Imagino que, num local isolado, sem qualquer tipo de distrações, como um quartinho acolchoado de manicômio, a minha inventividade poderia ultrapassar seu próprio limite. De fato, as coisas simples são as que mais nos dão prazer.
* Fernando Yanmar Narciso, 26 anos, formado em Design, filho de Mara Narciso, escritor do blog “O Blog do Yanmar”, http://fernandoyanmar.wordpress.com
Como eu te entendo Fernando, também
ResponderExcluirsonho com o meu cantinho, só meu...
Minha cabeça fervilha pois ao mesmo tempo
que penso em uma poesia, vejo imagens e as
cores dançam na minha frente.
Sou extremamente desorganizada.
Mas, por enquanto ainda consigo me desenrolar.
Ótimo texto.
Beijos
Difícil identificar o que é inspiração, criatividade, dom, habilidade ou aprendizado. O resultado artístico, de qualquer arte, deve ser a combinação de todos esses itens.
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