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Contra a não-arte
* Por Mariella Augusta
Existem a Capitu, o Julião Tavares, as baratas da ucraniana, o Tatarana, a Emília, O Menino Morto, o Matita-Perê, as crônicas de um reacionário libertário, a força de um polichinelo, as mãos de Guiomar, o Brecheret, a flauta de um Viana, as cantadas de um bêbado chamado de Poetinha. O resto é preciso medir. Porque é preciso definir uma idéia – conhecer-lhe a pureza? Platão nos ensina que é pelo montante exagerado de pretendentes.
Muitos querem ser artistas, talvez todos. Mas ainda bem, existem os financistas, os médicos, os taxistas e os jogadores de futebol. No mundo há lugar para todos. Gaia é boa mãe. Dá-nos os galhos e deixa que pulemos para os nossos.
Nasci escritora, sem saber escrever. Aprendi como qualquer menino que corre para o circo para aprender a voar, porque nasceu pássaro. Mas a palavra para mim tomou uma significação maior, tornou-se música e vontade de conhecer. Depois, descobri a condição em que nasci. Sabia juntar as palavras. Sabia contar histórias. Depois, chamou-me a necessidade de o fazer. Depois, isso se estendeu como grama até o desejo de alguém para deliciar comigo a minha estrangeira capacidade. Pergunto-me donde veio tudo isso. Não me é licito conhecer a resposta. Obedeço. Não haveria vida fora desse amor. Meu pão, minhas vestes, minhas dores e meus prazeres têm sido minha imaginação. Ofereci-me viva pelas minhas palavras. Acredito que Van Gogh tenha feito o mesmo por suas cores. Com mais afinco porque tinha mais obstinação. Mas estamos enredados da mesma forma nessa vontade que chamamos de arte.
Gosto de imaginar que minhas frases coloquem o leitor num lugar etéreo, jamais visitado ou pensado; que, quando estou detrás das teclas descendo de uma estirpe que começa no período arcaico e que não quero ver extinta como os grandes répteis. Dessa vez por um cataclisma invisível que só tem o mau odor do vazio que deixa. Quero a cabeça desses que não me dão a delicadeza do romance secreto de tio Têrez que gerou o Miguilin, dos que me ameaçam com uma música que não revira tudo dentro desse eu que não deixam sonhar com a perenidade e o belo. Quero suas cabeças para julgar-lhes o crime de tirarem-me a redenção da verdadeira, in contest e imortal arte. Do seu propósito divino de elevação e de um abraço necessário em meio ao frio universo em que estamos lançados. Quero suas cabeças porque eles estão furtando, à minha alma, algo que a humanidade me legou. E quero que desçam do meu galho.
*Bacharel em Direito, mestranda da FFLCH (USP), escritora, autora de “O Fio de Cloto”, livro de contos prefaciado por Bruno Fregni Basseto, grande filólogo e vencedor do Prêmio Jabuti. Publicou crônicas no “Jornal das Artes” e artigos em várias revistas acadêmicas.
* Por Mariella Augusta
Existem a Capitu, o Julião Tavares, as baratas da ucraniana, o Tatarana, a Emília, O Menino Morto, o Matita-Perê, as crônicas de um reacionário libertário, a força de um polichinelo, as mãos de Guiomar, o Brecheret, a flauta de um Viana, as cantadas de um bêbado chamado de Poetinha. O resto é preciso medir. Porque é preciso definir uma idéia – conhecer-lhe a pureza? Platão nos ensina que é pelo montante exagerado de pretendentes.
Muitos querem ser artistas, talvez todos. Mas ainda bem, existem os financistas, os médicos, os taxistas e os jogadores de futebol. No mundo há lugar para todos. Gaia é boa mãe. Dá-nos os galhos e deixa que pulemos para os nossos.
Nasci escritora, sem saber escrever. Aprendi como qualquer menino que corre para o circo para aprender a voar, porque nasceu pássaro. Mas a palavra para mim tomou uma significação maior, tornou-se música e vontade de conhecer. Depois, descobri a condição em que nasci. Sabia juntar as palavras. Sabia contar histórias. Depois, chamou-me a necessidade de o fazer. Depois, isso se estendeu como grama até o desejo de alguém para deliciar comigo a minha estrangeira capacidade. Pergunto-me donde veio tudo isso. Não me é licito conhecer a resposta. Obedeço. Não haveria vida fora desse amor. Meu pão, minhas vestes, minhas dores e meus prazeres têm sido minha imaginação. Ofereci-me viva pelas minhas palavras. Acredito que Van Gogh tenha feito o mesmo por suas cores. Com mais afinco porque tinha mais obstinação. Mas estamos enredados da mesma forma nessa vontade que chamamos de arte.
Gosto de imaginar que minhas frases coloquem o leitor num lugar etéreo, jamais visitado ou pensado; que, quando estou detrás das teclas descendo de uma estirpe que começa no período arcaico e que não quero ver extinta como os grandes répteis. Dessa vez por um cataclisma invisível que só tem o mau odor do vazio que deixa. Quero a cabeça desses que não me dão a delicadeza do romance secreto de tio Têrez que gerou o Miguilin, dos que me ameaçam com uma música que não revira tudo dentro desse eu que não deixam sonhar com a perenidade e o belo. Quero suas cabeças para julgar-lhes o crime de tirarem-me a redenção da verdadeira, in contest e imortal arte. Do seu propósito divino de elevação e de um abraço necessário em meio ao frio universo em que estamos lançados. Quero suas cabeças porque eles estão furtando, à minha alma, algo que a humanidade me legou. E quero que desçam do meu galho.
*Bacharel em Direito, mestranda da FFLCH (USP), escritora, autora de “O Fio de Cloto”, livro de contos prefaciado por Bruno Fregni Basseto, grande filólogo e vencedor do Prêmio Jabuti. Publicou crônicas no “Jornal das Artes” e artigos em várias revistas acadêmicas.
"Meu pão, minhas vestes, minhas dores e meus prazeres têm sido minha imaginação." Grande, boa e admirável imaginação.
ResponderExcluirEscrever por prazer, proporcionar
ResponderExcluirao leitor viagens, mistérios, lágrimas
e sorrisos...
Abençoadas sejam suas palavras.
Abraços