quinta-feira, 28 de janeiro de 2010




Gosto por algarismos

* Por Pedro J. Bondaczuk

Os números sempre me fascinaram, não sei bem por qual razão. Aliás, não sabia, pois não faz muito descobri o por quê. Mas isso explico depois. Como ia dizendo, sempre tive facilidade (diria que inata) para cifras, cálculos, contas as mais complexas e variadas. Na escola, por exemplo, essa minha aptidão tornou-me popular entre os colegas. Afinal, nove entre dez estudantes se queixam da matemática. Talvez essa minha estimativa seja um tanto exagerada, mas a maioria dos alunos não gosta mesmo de raciocinar.

O pitoresco é que, embora tenha enveredado para profissões caracterizadas pelo uso das letras (jornalista e, posteriormente, escritor), quando cursava o primário eram os números que salvavam minha média, no boletim escolar, para indisfarçável orgulho do meu pai.

Quando a professora colocava na lousa algum problema, por exemplo, era até covardia. Cheguei a ser advertido em várias ocasiões por minha afoiteza. Mal ela completava a questão, eu já estava de mão erguida, com a solução na pontinha da língua. Isso atrapalhava a aula, ela dizia.

Foi um fascínio quando aprendi o conceito de frações. Calcular o máximo divisor comum e o mínimo múltiplo comum tornou-se, para mim, grande diversão. Claro que os colegas me olhavam como se eu fosse uma aberração, um ET que eventualmente houvesse caído na Terra. Mas essa aptidão fez com que meu cartaz com as menininhas (e estudei com algumas lindas, lindas) fosse às nuvens, o que se tornou vantagem sobressalente e inesperada.

E quando fui “apresentado” à álgebra?! Foi a glória! Virou mania para mim. Mais para a frente, já no antigo curso científico, diverti-me com fatoração, cálculo diferencial e integral e, sobretudo, com a trigonometria. Estranhamente, não me saí tão bem, pelo menos não como com a álgebra, em geometria. Mas deu para o gasto.

Quando fazia cursinho para prestar vestibular de Medicina, cheguei a ganhar um bom dinheiro dando aulas particulares de Matemática. Tive, então, alunos que já estavam bem mais adiantados do que eu nos estudos, que eram universitários, mas sempre me saí bem. Trago no meu currículo o fato de nunca alguém que tenha aprendido comigo haver sido reprovado. Foi aproveitamento de cem por cento.

Nessa época, eu morava em uma república, no distrito de Barão Geraldo, aqui em Campinas. Não tínhamos televisão em casa e, por isso, os domingos e feriados, em que não podia por algum motivo me encontrar com a namorada, tendiam a ser chatíssimos, principalmente quando chovia. Sabem o que eu fazia para me distrair? Resolvia problemas matemáticos. Tinha livros e mais livros com as questões que haviam caído nos principais vestibulares do País. Resolvê-las tornou-se, para mim, a coisa mais divertida do mundo. Claro que os colegas me consideravam um “maluco de pedra”.

Professores, parentes e amigos recomendavam-me que escolhesse alguma carreira em que os números fossem fundamentais, como engenharia, arquitetura ou, até mesmo, a física. Nenhuma dessas profissões, contudo, me fascinava. Eu queria porque queria ser médico. Quando tive que desistir da Medicina, já no segundo ano, por circunstâncias absolutamente alheias à minha vontade, poderia ter optado por alguma dessas atividades. Seria o mais lógico a fazer. Não optei.

Enveredei pelo jornalismo, fui tomando gosto pela coisa e produzindo, à margem, meus furtivos textos literários, que mantive, por muito tempo em segredo, na gaveta, longe dos olhares (críticos e indiscretos) alheios, até que assumi de vez o primitivo e quase esquecido sonho de menino: ser escritor.

Como ia dizendo no início dessas recordações, um dia desses descobri a razão de tamanho fascínio pelos números. E quem me abriu os olhos foi alguém dos mais ilustres (e põe ilustre nisso!). Foi ninguém menos do que Machado de Assis.

Lendo a série de crônicas que ele publicou em sua coluna “História de quinze dias”, no jornal “Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro, na datada de 1° de junho de 1876 deparei-me com este trecho revelador: “Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases; o algarismo não tem frases, nem retórica”.

Eureka! Bateu instantaneamente no cocuruto um relâmpago de compreensão! É isso aí! Como o mais genial escritor brasileiro, também descobri que gosto dos algarismos por eles não serem de meias medidas. Caracterizam-se pelo rigor, pela exatidão, pela certeza. São o oposto da vida, embora eu a encare como intrincadíssimo problema matemático que me desafia a solucioná-la. Estou tentando.

Ademais, gostaria que as pessoas (todas elas, inclusive eu) fossem como Machado de Assis diz que são os algarismos: sinceros, francos, ingênuos. São três características francamente em falta nos relacionamentos cotidianos, não importa sua natureza, se afetivos, profissionais, sociais etc.etc.etc. Mas isso já é querer demais, não é mesmo?

*Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas), com lançamentos previstos para os próximos dois meses. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com




7 comentários:

  1. Já cheguei a odiar a matemática por conta de um
    professor de álgebra retrógrado, patético e tirano
    que nos torturava em suas aulas. Eu tinha pavor quando ele me convocava ao quadro negro. Um dia em que ele estava inspiradíssimo humilhou um colega e com dedo em riste dizia-lhe que os meninos do primário eram mais inteligentes que nossa turma. No dia seguinte ele convoca a Aninha ao quadro eis que a nossa Redentora o derruba dizendo: - Chama os meninos do primário
    eu me recuso.
    Beijos

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  2. Algarismos? Tô fora! Não sei como não desenvolvi um câncer ao tentar aprender raiz quadrada, equações ... Deus me livre! E, ademais, discordo de Machado. Os números não são tão santinhos como ele diz. Basta conferir os balanços de contabilidade ou os índices do governo para a gente perceber o engodo disso tudo. Xô!

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  3. Pois é, meus amigos, o que seria do amarelo se todos gostassem, apenas, do verde (ou do vermelho, ou do azul, não importa)? Sei que meu gosto é meio maluco, ainda mais porque não passa de "hobby". Todos os que me conhecem dizem isso. Mas, como diz a sabedoria popular, "cada louco com sua mania". Núbia e Daniel, obrigadíssimo por seus comentários, que só vêm valorizar e engrandecer minha crônica.

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  4. Que sorte esse apreço pelos números, Pedro. Nesse momento de minha vida, precisarei encarar muitas aulas de matemática com o intuito de passar em um concurso público! Nunca gostei, embora aprenda com facilidade. Aprecio mesmo as letras, delas sempre fui companheira! ótimo texto, abraços!

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  5. Crônica muito boa, Pedro. Agradável e de sustança.
    Temos mais este ponto comum, amigo: eu gostava de cálculo. Comecei e abandonei um curso de Matemática, por brigar com um professor catedrático, cujo irmão se tornou há pouco meu amigo, por força da literatura...
    A matemática, em mais de uma oportunidade, fez a minha vida menos difícil, pelo dinheirinho que eu ganhava com aulas.
    Mas eu não tinha exatamente facilidade, talento especial, digamos assim, para estudá-la. Ela foi apenas um instrumento de vaidade (vã, como toda vaidade, já se vê), que se transformou em habilidade. Hoje anda meio esquecida. Mas ainda recupero com facilidade as fórmulas trigonométricas pela recuperação das convenções do círculo trigonométrico.
    Abraço.

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  6. Já eu, com todo respeito, tenho alergia por matemática, dentista e chuva às sextas-feiras. Mas reconheço como ela é capaz de fascinar outras pessoas. O bom da vida é isso, essa diversidade. Mas que é melhor ver o mundo sem régua e compasso, isso é!

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  7. Na sessão nostalgia números: uma revelação inusitada. Não que seja incompatível, mas por ser incomum as duas paixões coexistirem. É que algumas vezes, letras e algarismos mostram-se antagônicos. No meu caso vou pouco além das quatro operações, falha essa que ainda deverei tentar sanar.

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