Admirável na forma e
terrível no conteúdo
O livro “Admirável
mundo novo”, escrito em 1931 por Aldous Huxley e publicado um ano depois, em
1932, merece o adjetivo do título que, no entanto, não cabe à sociedade do
futuro que ele criou. É uma obra que, de fato, “merece admiração”. “Que
assombra”. “Que deixa estupefato”. “Excelente”, “Irrepreensível”. “Perfeita”.
Todos estes são os significados da palavra, originada do latim “admirabile”, conforme a define qualquer dicionário da língua
portuguesa. É, sem tirar e nem pôr, incontestável obra-prima. E não somente da
ficção científica, mas, e principalmente, da literatura mundial.
Mas é um livro que,
embora se trate de romance, não é para ser lido como tal. Ou seja, de forma
apressada, desatenta, descuidada, de olho, somente, no enredo, sem atentar para
a idéia central que o autor pretendeu transmitir. Exige uma leitura como se
fosse uma obra de filosofia, ou como um ensaio complexo, desses que requerem
profundas reflexões, para não se perder nada do seu inquietante (terrível)
conteúdo. É o que procurarei fazer, nos próximos dias, para dissecar seus
principais aspectos, torcendo, evidentemente, para que o mundo não seja jamais
como o descrito por Huxley, posto que corramos riscos reais de que possa vir a
ser assim.
Embora pretenda
detalhar seu enredo, este pode ser, genericamente, resumido no seguinte:
trata-se da narrativa de um hipotético futuro (que Huxley não determina quando
pode vir a acontecer), em que as pessoas são precondicionadas biologicamente (e
condicionadas psicologicamente) a viverem em harmonia com as leis e regras
sociais. “E isso não seria bom?”, perguntará o leitor que não leu “Admirável
mundo novo”. Talvez fosse, se as pessoas escolhessem livremente, sem nenhuma coação, essas
condições. Contudo, elas não têm escolha. Vivem em uma sociedade, organizada em
rígidas castas, sem a menor possibilidade de mobilidade social. Nascem e morrem
na mesmíssima condição que lhes é4 predeterminada. Nesse futuro, imaginado por
Huxley, não existem nem ética religiosa e nem valores morais. Aliás, as pessoas
são precondicionadas a sequer pensar.
Na eventualidade de
terem dúvidas e/ou insegurança (coisas raras ali), estas seriam dissipadas
mediante uma droga, sem efeitos colaterais (pelo menos aparentes), cujo nome é “soma”.
Ou seja, eram dopadas e, com isso, ficavam alheias à realidade. O amor, como o
conhecemos, é abolido, ou, para ser mais exato, é erradicado. As relações
sexuais existem, mas têm caráter meramente recreativo, de lazer, e não
procriativo, como atualmente (e sempre foi). Os bebês são gerados por inseminação
artificial, com espermas e óvulos selecionados de acordo com a casta que o
sistema pretendia atribuir ao novo ser. Dependendo da categoria genética a que
determinado grupo pertencia (Alfa+, Alfa, Beta, Gama, Delta ou Épsilon), o
respectivo embrião era tratado com substâncias diferentes, no período de
gestação, que se dava exclusivamente em incubadoras.
Não havia, pois, pai e
nem mãe e nem família. O lema, naquela sociedade, era “cada um pertence a todos”.
Qualquer coisa que pudesse desestabilizar uma pessoa e, assim, atrapalhar a
produção, era eliminada. Afinal, Huxley deixa claro que a sociedade que
descreveu representa o extremo do capitalismo, levado ao paroxismo, onde o que
conta é o lucro máximo, com zero ou algo próximo disso de custo. As castas
superiores originavam-se de óvulos de superioridade biológica, fertilizados por
espermas biologicamente superiores. Além disso, recebiam o melhor tratamento
pré-natal possível. Já as castas inferiores, bem mais numerosas, eram tratadas
de forma muito diferente: provinham de óvulos inferiores, fertilizados por
esperma inferior. Além disso, passavam por um processo denominado Bokanovsky
(noventa e seis gêmeos idênticos retirados de um só ovo) e eram tratados, na
fase pré natal, com álcool e outros venenos proteínicos.
A sociedade retratada
em “Admirável mundo novo”, embora, aparentemente, sem recorrer à violência física
ostensiva, é, em muitos aspectos (no meu entender, em todos), muito mais
violenta, perversa e desumana que a Oceania criada por George Orwell, no romance
“1984”, dominada pelo onipresente “Big Brother”. Aliás, o livro de Aldous
Huxley foi escrito 17 anos antes que o do seu discípulo. Ressalte-se que na
época em que o escreveu, o mundo não havia, ainda, conhecido os horrores nem do
nazifascismo e nem do stalinismo, que recém começava, já que os famosos “Processos
de Moscou”, levados a cabo por Joseph Stalin, haviam se iniciado um ano antes,
em 1930.
A advogada Maria Clara
Corrêa Tenório, especializada em Ciências Sociais, escreveu precioso ensaio a
propósito do livro de Aldous Huxley, intitulado “O Admirável Mundo Novo: fábula
científica ou pesadelo virtual?”, a que tive acesso. Em determinado trecho da
sua meticulosa (e preciosa) análise, ela observa: “Mas nos parece que ele
(Huxley), agora já tendo vivido a experiência do nazismo e do stalinismo, preocupa-se mais com a possibilidade de uma
ditadura totalitária, não nos moldes semi-violentos do Admirável Mundo Novo,
mas semelhante à obra 1984 de Orwell, com a qual estabelece comparações. Ele
descarta a possibilidade dessa última via ser seguida pela humanidade”. Maria
Clara refere-se, aqui, ao livro “Retorno ao Admirável Mundo Novo”, ensaio datado
de 1957, em que Huxley enfatiza uma série de coisas, das que havia previsto,
que já havia acontecido naquela ocasião. E transcreve este parágrafo da
referida obra:
“A recente evolução na Rússia, e avanços recentes no
campo da ciência e da tecnologia retiraram ao livro de Orwell uma parte da sua
horrenda verossimilhança. Mas sustentando neste momento que as Grandes
Potências podem abster-se algum tanto de nos destruírem, é lícito dizer que
tudo se apresenta agora como se todas as vantagens pareçam mais a favor de algo
como o Admirável Mundo Novo do que de algo como 1984”. E complementa: “O
controle do comportamento indesejável por intermédio do castigo é menos eficaz,
no fim das contas, do que o controle por meio
de reforço do comportamento desejável mediante recompensas. (...) A
punição trava temporariamente o comportamento indesejável, mas não suprime
definitivamente a tendência da vítima a sentir-se bem ao comportar-se desse
modo”.
Para encerrar estas
reflexões de hoje, nada é mais oportuno do que a reprodução do parágrafo com
que Maria Clara encerra seu magnífico ensaio, em que diz: “Como Huxley e tantos outros, tentamos
imaginar a civilização do futuro. Desse modo, é impossível não deixar de se
questionar: E o futuro? Será o pesadelo da excessiva falta de ordem, em que,
ainda, vivemos ou da ordem em excesso da “fábula” de Huxley? Será o mundo
virtual de Matríx, ou ditatorial de 1984 ? Ou talvez, “o nada”? A extinção da
raça humana numa guerra nuclear? O horror ao “novo mundo” pode nos conduzir ao
desespero e ao suicídio, como nosso amigo Selvagem do Admirável Mundo Novo”.
Boa leitura.
O Editor
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Já escrevi sobre esse livro. Aqui li revelações importantes de alguns aspectos que não consegui vislumbrar quando li ou quando participei de palestra sobre o livro. Perfeito, Pedro. Parabéns!
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