Na vizinhança dos teus 60 anos
* Por
Urariano Mota
Dirás que me engano.
Dirás que seria melhor eu escrever que completas hoje o vigor dos teus 59 anos.
Mas tentarei adiante mostrar a razão de eu te ver na vizinhança do que serás. E
sentiremos os dois, imagino, que o maior prêmio é o futuro.
Se eu tivesse dom dos
poetas do repente, improvisaria versos que cantassem com rima e graça o bem do
presente que cresce para os anos que terás. Mas como sou prosador, apenas
pergunto mais curto que o nosso tempo na terra: os limites da idade são também
limites da vida? Penso que os limites da
idade não podem ser fronteiras a que todos estamos condenados. Assim, penso e
creio que os limites dos anos se alargam
pelas mudanças que podemos usar a nosso favor. Seria mais que uma compensação,
mais que um consolo do tipo “se não consegues pular o frevo, dances uma valsa”.
Não é isso. Trata-se de assimilar a transformação, como a forma organizada de
um novo ser. Assim como os artistas fazem um estilo do que neles é falta.
Se eu pudesse compor um
poema haicai, escreveria três versos com
metamorfose, pupa e crisálida. Como não posso, imagino um imago para os teus 60
anos que se avizinham, e por isso escrevo metamorfose, casulo, pupa. Penso nas sucessivas
crisálidas, quero dizer. Penso nas borboletas, enfim, que se abrem de um modo
inverso para os teus próximos anos. Tu voas nas transformações saídas da pupa
das tuas rugas. Enquanto vincos se
mostram, o que na matéria visível é casulo, asas amarelas se abrem do teu novo
ser.
Bem lembras. Na Crônica
do amor que amadurece, quando anunciavas os 50 anos, eu te escrevi:
“O essencial é que as
rugas, as gorduras, os ossos frágeis do objeto que se ama se revelam uma
fortaleza. O amor que amadurece ama a pessoa exatamente nesse tempo de aparente
decadência física, e por causa mesmo dessas formas. As fragilidades físicas se
tornam uma qualidade, pois remetem a uma história comum.”
Lembras. Naquela
ocasião, os casulos que fomos
cantavam fenômenos gerais:
“Pois assim como a
noite vinda depois do dia, e o dia que brilha depois da noite já não brilha
como o de ontem, assim como a noite não pode ser da natureza do dia, e no seu
escuro, nas suas estrelas, tem um encanto, que por ser diverso daquele do dia
não deixa de ser um encanto, e assim como nas sucessões físicas, temporais, de
toda a natureza, da flor que fenece e cai e se ergue em outra a partir dos
grãos derramados...”
Desta vez, consigo,
tento afinal um haicai para o que em ti é mais específico:
Nova idade
Metamorfose
Da pura pupa
Olho o relógio. São
duas da manhã de 19 de junho e eu nem notei. Foi bom, o tempo correu e nem
vimos as horas passadas. É que o
presente já se abre para o futuro.
Um bom dia para o
amanhecer dos teus 60 anos, Francêsca.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho
renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros.
Em setembro fiz 59 anos e bem que poderiam ser para mim tais escritos. A diferença é que estou só, e as rugas, na solidão, perdem o simbolismo do troféu e se transformam em peso. Por enquanto, ainda não morto.
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