Ao remetente
* Por
Assionara Souza
Cada sentença uma
cabeça. Sempre que alguém me obriga a falar a verdade, faço questão de mentir.
Cresci com convicção certa de que mentir é, e não é?, a melhor forma de
sobrevivência. Não vou abrir mão disso, nem que forçado a jurar sobre o Livro.
Obrigação só para comigo, amém.
O senhor que não me
condene. Sou inocente, sim. Sempre fui. A vida toda. Acredite-me. A moça chegou
quieta e bonita pra cima de mim. Ela bem me olhou que eu vi. Roseana flor
desabrochava.
— Como?
— O moço faz o quê?
Eu minto e bebo. Uma
forma de me anestesiar melhor. Mas isso eu não disse a ela.
Há muito tempo o álcool
me esquece de mim. A minha natureza é humana mesma, digo ao senhor. Sou o bicho
homem cansado do mundo. Ninguém me manda. Ela olhou e eu lancei aquele meu
sorriso especial de sempre.
Eu minto sim. E fumo
também.
Já tem um tempo que o
fumo anuvia esse qualquer descontentamento. Crio os bichos que um dia tentarão
me devorar. Trago eles todos para o meu convívio. Ensino a beber, fumar e
acreditar em histórias as mais. Sou o imperador das esquinas. Um dia soberano.
Outro sobre nada. Quando menos, desconfiam olhos pro meu lado. Cobra quer mais
é trocar a pele quando gasta. Me reajo. Por essa aí eu afirmo que não tenho a
minha devida culpa. Malandragem de mulher é fazer o sujeito sentir-se em penas
delas. Eu não tenho pena é de ninguém. Veio. Eu fui. A outra casca já estava
escapando mesmo. Tingiu-se-me uma toda nova. A ponta tesa do chocalho
balançando que só. Bom mesmo é ser especial. Acredite-me.
A Eva vestia uma saia
serpenteante. Então eu não conheço os avisos do mundo? Só o que eu sei é
contar. Esperar. Reconhecer. Culpado nunca. Estava pra mim que era aquela a
milésima noite de nada para a primeira hora de tudo. Doença que eu curtia,
remédio vinha a granel naquelas pernas estradas ao quero é mais do corpo dela.
Minha especialidade é agradar a quem possa-me em dobro. Nasci com as manhas da
paciência para aprender que certas privações guardam prazeres cem por um. Mas
que nem tanto, pois houve noites e outros escuros. Lambi muitas azedas
solidões. Fui solidário no azar. Aquela hora não tinha moral nem morais. Sei
muito bem distinguir qualidades de pecado. Mentira é verdade inventada pra quem
quer acreditar. Achando a certa para cada certa pessoa, dissolve-se a fronteira
crueldade. Cresce geral enternecida paixão. Acredite-me. Eu cozo de fora pra
dentro e ninguém repara desvio. Minto, sin´sinhô, mas sinto.
A moça estava carecida.
Ciosa que estava. Aposto que já no passar do batom o coração estralou uma
esperança vermelha. E não é em organizar com zelo os apetrechos da caçada que a
presa vem direto pra o olho do fuzil? Eu não. Inocente sou. Ela se preparou.
Reconheço. Sei medir exato o tempo do antes com a aparição do durante. É nisso
que invisto meus verbos. Acredite-me. Essa moça lavou-se foi na intenção de
sujar-se. E eu gosto da minha mão perto dessas vontades. Pensar é para o
depois. O senhor que vá me desculpando.
Agora então a culpa é
minha? Também não tenho os próprios compromissos públicos? Mulher que se
clandestina deve prezar o silêncio. Gosto sim. Dizer no ouvido outro uma
mentira úmida. Inverno todo carne e calor refaz-se. Por mentir é que desconfio.
Dessas artes mulher já nasce aprendida. Tenho culpa é de nada. Acredite-me. Ela
que. E sempre insistente.
No começo eu prefiro é
as seduções. A saia toda preta. Ainda na perna o gume macho da navalha. Estou
dizendo ao senhor. Ela antecipou-se antes. Eu vi isso no ardor que arrodeava
sua figura. Olhou-me o escolhido. Meu fraco é só as mulheres. O resto rapinem,
nem vejo.
— Como?
— O que é que o moço
faz?
— Eu me disponho.
Chamo-me todo eu: "Ao seu dispor". Muito prazer.
Nem sou só disso. Vá me
acreditando. Cumpro a minha cartilha com a letra e o desenho. Gosto das
metáforas para antes das metonímias. Aquelas sempre dizendo estas. Gato dá
voltas três vezes para o leite da tigela ser melhor apreciado. Eu três vezes
mil. Minhas mentiras. A moça interpretou caderno e lápis novos. Onde fui
escrevendo caligrafias de seu corpo. Assimilamos. Eu e ela. Acredite-me.
Ser criado por mulher,
quando não desvia, ensina a ser homem mais. Eu sabia e sei. O que ela tinha em
casa: um sem sombra e sujo. Vergado do peso da própria vergonha. Ou ao contrário
que é o mesmo. Um zelozim de si. Essa qualidade de tipo só quer o venha a nós.
O vosso reino, que é bom, nada. Pense quem quiser que pense. Pensamentos são de
quem os tenha primeiro até que na união vire opinião. Minto? Nunca. Esclareço.
Mulher nasce é bicho ouvido pra frase de elogio. Se na minha frente e olhante
eu não ia dizer que era só ela e ninguém a única no mundo? Foi na hora. Quem
não sabe, pois aprenda.
O que ela sentia era
ausência de relevâncias. Se a carne incendiava toda por dentro, guardar-se em
vontades é que não podia. Tocar fogo por fora nunca jamais que não é moça
arábica. Veio a mim. E o senhor sabe, eu disponho. Dispus. Convenci bem. Era
uma flor, a Rosa. E existisse novidade que não vire senhora idosa? Sofri do mal
do desagradei-me. Como eu disse. Gosto é das seduções. Dela muito apreço e gozo
fiz completos. A moça água corrente, represou com o tempo. De umas mentiras é
que não me aparento. Lá sou eu de me organizar exclusivo? Filho sou da minha
mãe. E só. Minto é pra aguagem de canteiros. Nada de matos espinhos. Ciúme é
fecha-a-cara e vá-se pra lá, não me serve. Agüento. Não, senhor.
Leve daqui sua filha,
que me cansa é faz horas.
*
Escritora
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