Personagens de Proust
* Por
Álvaro Lins
Deste modo as
personagens de Proust se acham destituídas de lógica, de uma lógica digamos
exterior ou formal. Isto representa uma excelência na ficção; não é um defeito.
Personagem lógica é personagem medíocre, prisioneira de estreitos limites, com
as suas intenções já calculadas e os seus atos já previstos pelo próprio
leitor. Porque, no mundo das figuras de ficção, a lógica de sentimentos e
episódios significa: não fazer nada de extraordinário, não praticar nenhum ato
desconcertante e surpreendente. Exige-se às vezes essa uniformidade, está
claro, em nome das nossas visões ordinárias, convencionais e cotidianas, das
visões que os homens comuns transmitem com os seus movimentos e ações dentro da
vida. A arte, porém, não é a mesma coisa que a vida; o seu plano é o da
superverdade e o da super-realidade. Além disso, as personagens de romance não
são seres comuns, desde que têm uma história para ser contada ou apresentada.
As de Dostoievski, por exemplo, são desmedidamente ilógicas segundo os padrões
da nossa realidade. Um dos seus heróis protesta contra a tirania matemática do
dois e dois são quatro. Protesta e prefere que sejam cinco. Por que será menos
"lógico" do que aqueles que afirmam que são quatro? Será suficiente
que ele conserve uma "lógica interna", a lógica da sua própria
natureza. E essa "lógica interna" é também o sistema de peso e medida
das personagens proustianas.
Não era do gosto de
Marcel Proust a criação de figuras uniformes e invariáveis, de caracteres
inteiriços: maciçamente bons ou maus, simpáticos ou antipáticos, superiores ou
reles. Numa personagem encantadora como Saint Loup, por exemplo, ressalta de
repente um aspecto vulgar e mesquinho, como naquele momento em que confessa ter
transmitido a Bloch uma opinião confidencial do Narrador. Depois de haver
sempre tratado o pobre diabo Saniette da maneira mais odiosa e indigna, e no
momento mesmo em que vinha de colaborar numa canalhice, M. Verdurin pratica um
ato surpreendente de bondade e generosidade para com aquele seu papa-jantares,
dando-lhe uma pensão fixa de dez mil francos ao sabê-lo de todo arruinado. E a
duplicidade de sentimentos - "les choses, en effet, sont pour le moins
doubles", conclui o Narrador - gera conseqüências não menos imprevistas.
Mlle. Vinteuil, que praticava o amor anormal com a sua amiga Léa, e que para
excitar-se sadicamente nesse amor gomorriano profanava o retrato do seu pai
morto, será depois quem mais contribuirá para a glória dele, promovendo a edição
da principal obra músical de Vinteuil, reconstituída com a generosa colaboração
daquela mesma amiga. E por intermédio dos amores igualmente anormais de Charlus
e de Morel é que o septeto será executado e consagrado num salão de Paris,
perante a aristocracia. Assim, os vícios de criaturas danadas de Sodoma e
Gomorra geravam a pura e irreprochável glória do gênio artístico de Vinteuil.
Não sendo lógicas, as
suas personagens também não são "tipos" representativos de situações
gerais. São indivíduos, não são representações de um vício ou de uma virtude. O
problema do tipo nas personagens de romance esteve presente em toda a ficção do
século XIX, com exceção de um Stendhal, que ultrapassa como psicólogo os
limites de sua época. Não havia maior ambição para um romancista do que criar
uma personagem-símbolo. Uma personagem que simbolizasse a ambição ou a avareza,
o político ou o burocrata, um sentimento ou uma profissão. Parece-nos que o
problema se achava ligado à tradição dos "retratos de caracteres" dos
moralistas do século XVII, entre os quais La Bruyère é expoente e modelo.
Ilustrativa também, neste sentido, é a obra Virtues and vices, de Joseph Haal,
aparecida em 1608. Mas os "tipos", segundo vícios e virtudes, são
numericamente poucos e limitados, como as clássicas situações dramáticas.
Tendem, além disso, para a imobilização, como blocos: a virtude X determina a
personagem de tipo X; a virtude Y gera a personagem de tipo Y. Um processo de
tal espécie esgota-se logo nas mãos de alguns grandes romancistas, e os seus
sucessores, para se salvarem da contingência de repeti-las indefinidamente, têm
de procurar outra solução. Procurou-a Marcel Proust, e encontrou-a na passagem
da unidade linear da personagem-tipo para a complexa variedade da
personagem-indivíduo.
Vejamos a este respeito
a diferença entre Balzac e Proust, sabendo-se que Proust representa no romance
do século XX o mesmo papel de Balzac no romance do século XIX. As personagens
de Balzac são mais representativas e inteiriças exteriormente; as de Proust,
mais misteriosas e complexas interiormente. Na principal galeria balzaquiana,
Grandet é o avaro ao mesmo tempo que a avareza; Rastignac é o ambicioso,
simbolizando também a ambição. Na galeria proustiana, porém, Charlus não é o
homossexual, nem a homossexualidade, mas um homossexual; Swan não é o ciumento,
nem o ciúme, mas um ciumento. Balzac e Proust fizeram psicologia aplicada, mas
o que diferia era o tratamento psicológico das personagens.
Dir-se-á, e é verdade,
que, sendo assim, jamais as personagens de Proust terão a vida independente de
um Grandet, ou de um M. Homais, ou mesmo do nosso Conselheiro Acácio - isto é,
no sentido da popularidade irracional, da existência autônoma na linguagem
corrente de leitores e não leitores, como seres despregados de seus criadores e
mais conhecidos do que eles próprios. Pois o "tipo" é mais simples
para ser fixado, entra na memória como representação construída do que já se
acha lá de modo fragmentário e informe, torna-se mais fácil de ser
"decorado", como a poesia com metro e rima regulares. Mas as
personagens-indivíduos alcançam compensação numa glória de outra natureza.
Ante Grandet ou Acácio,
por exemplo, o leitor dirá:
Como é natural este
tipo! Conheço muita gente que é exatamente assim.
E terá o prazer de
identificar as personagens através do que já sentia confusamente nas relações
com os seus semelhantes na vida real.
Ante Albertine ou
Charlus, porém, a exclamação do leitor será diferente:
Como é estranha esta
figura! Nunca vi um ser humano de tal natureza, com tantos mistérios e
contradições.
E terá o prazer da
descoberta ao acompanhar o romancista nessa exploração em profundidade dentro
do território humano.
(Da técnica do romance
em Marcel Proust, 1951.)
*
Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras
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