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Chegaram flores para Rosinha
* Por Eduardo Murta
Vida sentimental sem laços. Sem um mísero grão de cobrança. Foi perto dos 39 anos que Rosinha se deu conta de que, independente e sem filhos, três casamentos frustrados, jamais voltaria a relacionamentos que a tolhessem. A escolha, então, foi para lá de peculiar: se converteria em amante, e nada mais que amante. Experimentaria dos paternais aos que cultuavam unicamente o sexo selvagem. Ah, como adorava o descompromisso.
Sem datas, sem sogro, sogra, desimpedida das festinhas de fim de ano em família e, em casa, livre da rotina de programas esportivos que repetiam os gols 7 mil vezes, em 15 mil ângulos diferentes. Daí ter estabelecido padrões de conduta elementares à sobrevivência dos encontros. Regra número 1: nenhum comentário sobre esposa e herdeiros; regra número 2: nada de conversas sobre dívidas, prestações da casa própria, do carro ou do colégio das crianças; regra número 3: desabafasse as mágoas com o time aos colegas ou ao verdureiro.
Que viesse a ela com outros diálogos. As novas tendências da moda, os roteiros gastronômicos apaixonantes. Ah, os vinhos que justificassem a existência dos queijos! Ou as luzes de Paris, os caminhos turísticos que nunca se apagam do coração. Melhor: contassem de um orgasmo que fosse tão belo quanto as águas do mar fazendo moldura ao casario das ilhas gregas. Sem rodeios, era de felicidade, nada além, o oficio a que se candidatara a ouvir e falar.
A seu modo, lidava com os casos sob tamanha naturalidade, que nem vizinhança ou mesmo tagarelas de plantão enxergavam desvio no que fazia. E lugares ou circunstâncias ficavam invariavelmente a sua escolha, a sinalizar que era ela ao comando. Dos homens que elegera, uma lista flutuante de dez, jamais aceitara cartões de crédito, joias caras ou senhas de banco. Buscava prazer e aventura. Dividia despesas de bar, de viagens, de motel.
Claro, inclinava preferências aos que circulavam em carros importados, fumavam charutos, se expressavam numa segunda língua. Não era difícil que se rendessem a seu corpo insinuante, aos decotes acentuados, vestidinhos colados, olhar de esfinge e papo contente. Ruiva atentada e segura de si. Rendidos, lascava-lhes beijos mordidos, impregnava-lhes em marcas de batom, odor de perfume nobre. Eles que se entendessem com suas patroas. Dela cuidava ela, e se orgulhava de jamais ter quitado luz, telefone e supermercado com dinheiro que não nascesse de seu escritório de arquitetura.
Colocava os pés no barro, inspecionava obras, e, por casualidade, uma dessas andanças a levaria a margens opostas: Fabrício, servente de pedreiro, morador do Barreiro de Baixo. Recém-casado. Semianalfabeto. A docilidade mesmo na forma de assentar tijolos e o jeito terno em chamá-la de madame Rosinha a puseram num encantamento de entrega. Cabelos cacheados, sorriso de anjo... Em anos, pela primeira vez, sentiria saudade de um homem. Logo inventou consertos emergenciais no jardim de casa, a que o arrastasse.
A ele recebeu num conjunto curto. Transparente. Desprezara sutiã. E os desejos dela, em relevo, literalmente apontavam para um convidado desconcertado. O visitante baixou os olhos, se desviou, tentou encaixar conversa de trabalho, mas permitiu que o queixo desarmasse no mesmo instante em que as duas peças de roupa tocassem o chão. Em segundos, eram ambos enredados num atracamento felino. Banho tomado, dose rara de uísque, ela lhe apresentou as normas de amante. Fechado.
Quatro carnavais já se vão, e é ele fiel ao ritual de retornar nas tardes de sábado com o buquê à esposa. Marido mesmo plantara nas terras de madame, contava, cândido. A mulher não se enganava mais. Escolheu fim de semana de bebedeira, caprichou nos soníferos e, dias à frente, cumpriu o que se prometera. Nem sabia onde encontrara frieza cirúrgica para a missão. E Rosinha recebeu a encomenda deslumbrada com o vasinho singelo de margaridas. Lindas.
Mas emudeceu, se deixou paralisar em transe catatônico ao perceber as raízes vazando a caixa craniana. Pelos olhos, nariz e boca. O desenho dos dentes confirmava. Era mesmo Fabrício. Se derreteu em choro e, pela manhã, se recompôs, à convicção de que precisava mudar de vida. A andar de braços dados com a morte, talvez fosse hora de voltar à tradição. Tempo de arrumar marido. Tempo de, a seu juízo, morrer em seguras doses homeopáticas.
* Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas-feiras.
* Por Eduardo Murta
Vida sentimental sem laços. Sem um mísero grão de cobrança. Foi perto dos 39 anos que Rosinha se deu conta de que, independente e sem filhos, três casamentos frustrados, jamais voltaria a relacionamentos que a tolhessem. A escolha, então, foi para lá de peculiar: se converteria em amante, e nada mais que amante. Experimentaria dos paternais aos que cultuavam unicamente o sexo selvagem. Ah, como adorava o descompromisso.
Sem datas, sem sogro, sogra, desimpedida das festinhas de fim de ano em família e, em casa, livre da rotina de programas esportivos que repetiam os gols 7 mil vezes, em 15 mil ângulos diferentes. Daí ter estabelecido padrões de conduta elementares à sobrevivência dos encontros. Regra número 1: nenhum comentário sobre esposa e herdeiros; regra número 2: nada de conversas sobre dívidas, prestações da casa própria, do carro ou do colégio das crianças; regra número 3: desabafasse as mágoas com o time aos colegas ou ao verdureiro.
Que viesse a ela com outros diálogos. As novas tendências da moda, os roteiros gastronômicos apaixonantes. Ah, os vinhos que justificassem a existência dos queijos! Ou as luzes de Paris, os caminhos turísticos que nunca se apagam do coração. Melhor: contassem de um orgasmo que fosse tão belo quanto as águas do mar fazendo moldura ao casario das ilhas gregas. Sem rodeios, era de felicidade, nada além, o oficio a que se candidatara a ouvir e falar.
A seu modo, lidava com os casos sob tamanha naturalidade, que nem vizinhança ou mesmo tagarelas de plantão enxergavam desvio no que fazia. E lugares ou circunstâncias ficavam invariavelmente a sua escolha, a sinalizar que era ela ao comando. Dos homens que elegera, uma lista flutuante de dez, jamais aceitara cartões de crédito, joias caras ou senhas de banco. Buscava prazer e aventura. Dividia despesas de bar, de viagens, de motel.
Claro, inclinava preferências aos que circulavam em carros importados, fumavam charutos, se expressavam numa segunda língua. Não era difícil que se rendessem a seu corpo insinuante, aos decotes acentuados, vestidinhos colados, olhar de esfinge e papo contente. Ruiva atentada e segura de si. Rendidos, lascava-lhes beijos mordidos, impregnava-lhes em marcas de batom, odor de perfume nobre. Eles que se entendessem com suas patroas. Dela cuidava ela, e se orgulhava de jamais ter quitado luz, telefone e supermercado com dinheiro que não nascesse de seu escritório de arquitetura.
Colocava os pés no barro, inspecionava obras, e, por casualidade, uma dessas andanças a levaria a margens opostas: Fabrício, servente de pedreiro, morador do Barreiro de Baixo. Recém-casado. Semianalfabeto. A docilidade mesmo na forma de assentar tijolos e o jeito terno em chamá-la de madame Rosinha a puseram num encantamento de entrega. Cabelos cacheados, sorriso de anjo... Em anos, pela primeira vez, sentiria saudade de um homem. Logo inventou consertos emergenciais no jardim de casa, a que o arrastasse.
A ele recebeu num conjunto curto. Transparente. Desprezara sutiã. E os desejos dela, em relevo, literalmente apontavam para um convidado desconcertado. O visitante baixou os olhos, se desviou, tentou encaixar conversa de trabalho, mas permitiu que o queixo desarmasse no mesmo instante em que as duas peças de roupa tocassem o chão. Em segundos, eram ambos enredados num atracamento felino. Banho tomado, dose rara de uísque, ela lhe apresentou as normas de amante. Fechado.
Quatro carnavais já se vão, e é ele fiel ao ritual de retornar nas tardes de sábado com o buquê à esposa. Marido mesmo plantara nas terras de madame, contava, cândido. A mulher não se enganava mais. Escolheu fim de semana de bebedeira, caprichou nos soníferos e, dias à frente, cumpriu o que se prometera. Nem sabia onde encontrara frieza cirúrgica para a missão. E Rosinha recebeu a encomenda deslumbrada com o vasinho singelo de margaridas. Lindas.
Mas emudeceu, se deixou paralisar em transe catatônico ao perceber as raízes vazando a caixa craniana. Pelos olhos, nariz e boca. O desenho dos dentes confirmava. Era mesmo Fabrício. Se derreteu em choro e, pela manhã, se recompôs, à convicção de que precisava mudar de vida. A andar de braços dados com a morte, talvez fosse hora de voltar à tradição. Tempo de arrumar marido. Tempo de, a seu juízo, morrer em seguras doses homeopáticas.
* Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas-feiras.
Acredito eu que domesticar a libido também ajuda...rsrsrsr
ResponderExcluirAdorei
beijos
Meu Deus, que imaginação é essa capaz de criar tal história? Chega a dar medo esse ambiente mórbido, macabro ... Mas eu gosto!
ResponderExcluirParabéns !
ResponderExcluirDelícia de conto.
Será que Madame Rosinha toma jeito ou o " instinto felino" sairá vencedor ?
Pelo jeito ela não tem muita "sorte" no amor....
Palavras tão envolventes quanto a doce Rosinha. Impossível compreender as necessidades do outro. Mórbido e terrível, mas ao mesmo tempo irresistível.
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