sexta-feira, 24 de março de 2017

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: dez anos, onze meses e vinte e nove dias de criação.

Leia nesta edição:

Editorial – Enxergando “além” do real

Coluna Contrastes e Confrontos – Urariano Mota, crônica, “Albert Einstein, a relatividade e o Brasil”.

Coluna Do Real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, conto, “O estranho”.

Coluna Clássicos – Alexander Pushkin, poema, “A flor”.

Coluna Porta Aberta – Emir Sader, artigo, “Moro testa os limites do regime de exceção”.

Coluna Porta Aberta – Leonardo Boff, artigo, “A humanidade ameaçada por guerras letais”.

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Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com  
“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Boneca de pano” -  Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
“Um dia como outro qualquer” Fernando Yanmar Narciso.
“A sétima caverna” Harry Wiese – Contato:  wiese@ibnet.com.br
“Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
“Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br   
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


  

Enxergando "além" do real



Os escritores em geral e os poetas em particular têm uma visão mais aguçada do futuro do que as pessoas (digamos) “comuns”. Ao contrário da idéia geral que se faz desses artífices da palavra, seres inspirados, "cúmplices dos deuses", eles não estão alheios à realidade que os cerca. Muito pelo contrário. Em virtude de um dom natural de que são dotados, conseguem enxergar muito além do real, projetando a realidade para adiante, muito adiante do seu tempo.

Assim foi, como tantos outros, o mineiríssimo Carlos Drummond de Andrade.  Poucas pessoas no Brasil conseguiram ver com tanta agudeza os problemas sociais que afetavam (e afetam mais do que nunca) nossa população, como ele. Os contrastes que nos caracterizam, as contradições que nos dominam, o nosso jeito peculiar, um tanto moleque de ser, que tem facetas boas e ruins, jamais escaparam da sua aguçada "visão de raio x".

Drummond sempre foi tido como um sujeito sisudo, de poucas palavras, duro como o minério de ferro da sua Itabira natal. Mas por trás daquela carapaça de severidade, havia um coração brando e terno. Atuava um cérebro preocupado com os desajustes sociais deste país que ele tanto amava. Era lúcido em suas observações. Era objetivo em suas colocações. E era, sobretudo, humano na avaliação das fraquezas, próprias e alheias.

Isto é característico dos poetas, dos escritores em geral, videntes por excelência. Afinal, ao contrário do que se imagina, são eles que usufruem plenamente da existência. O iluminado autor de "Recherches du temps perdu", o imortal Marcel Proust, escreveu, a  propósito: "A verdadeira vida, a vida enfim descoberta e esclarecida, a única vida por conseguinte realmente vivida, é a literatura".

Mas a arte de sonhar, de elucubrar, de gerar imagens mediante o uso do instrumento da palavra, tem um sentido essencialmente prático, embora não pareça. Quem constatou isso foi o "pai" das viagens espaciais, o russo Konstantin Tsiolkowski, um dos primeiros homens a acreditarem realmente que o ser humano poderia viajar no espaço, antes mesmo da invenção do avião, e que desenvolveu toda uma teoria acerca de como isso seria possível. Afirmou: "A princípio, surge a idéia, a fantasia, o conto. Depois deles, o cálculo científico. E então, os homens práticos tornam a idéia real".

Num país como o nosso, virtualmente sem memória, nunca é demais, portanto, a lembrança do nosso poeta maior. Até para que, no futuro, os que vierem a falar dele (e oxalá falem, de fato), se lembrem de seus poemas magistrais, de seus saborosos contos e de suas crônicas de refinado humor publicadas nos mais importantes jornais brasileiros e não digam, somente, que se tratou do homem que emprestou a sua imagem para a efígie estampada na efêmera cédula de NCz$ 50,00, lançada em um dos tantos e fracassados planos econômicos destinados a conter um processo hiperinflacionário que parecia incontrolável, que circulou entre 17 de março de 1989 e 30 de setembro de 1992 e que a imensa maioria dos brasileiros sequer sabe que existiu.

Que Drummond seja lembrado, em um século vindouro, ou, quem sabe, em um próximo milênio (supondo que a Terra e seus habitantes ainda existam e que não tenham sido destruídos e que haja, sobretudo, um Brasil, e que seja melhor do que este atual, com um povo mais generoso e feliz), por exemplo, por poemas como este “Nota social” (entre centenas de tantos outros que ele nos legou):


“O trem chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da Terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê,
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador,
o poeta sobe,
o poeta fecha-se no quarto.

O poeta está melancólico”.


Lindo, não é verdade? Simples e belo! Essa é a forma justa, eficaz e sábia de reverenciar a genialidade de nosso poeta maior. Ou seja, não permitindo que sua obra se perca irreversivelmente no tempo, mas que sobreviva ao tempo e ao esquecimento como patrimônio artístico e cultural de um povo que ele tanto amou. Pois como ele próprio escreveu, talvez prevendo ser esquecido: “O poeta está melancólico...” Pudera!

Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk


Albert Einstein, a relatividade e o Brasil

* Por Urariano Mota


Num 21 de março de 1925, Albert Einstein passou pelo Rio de Janeiro. Depois, voltou em 4 de maio. Mas quase ninguém fala do desastre cômico da passagem do cientista pela boa sociedade do Brasil. Muitos personagens daquela elite continuam vivos, com uma atualidade arqueológica.

Na chegada de Einstein ao porto do Rio de Janeiro só não lhe tocaram Cidade Maravilhosa porque a banda não podia tocar o que ainda não existia. Mas as fotos mostram o cientista em um mar de curiosos, que lhe acenavam e sorriam como se ele fosse um astro de cinema. Se tivesse tempo para refletir, certamente ele diria o que certa vez comentou Borges, ao ser cumprimentado por muitas pessoas nas ruas de Buenos Aires: “eles acenam para um homem que pensam que sou eu”.

Dali, sempre cercado por uma comitiva das mais doutas toupeiras, visitou o Presidente da República e deu três conferências, no Clube de Engenharia, na Escola Politécnica e na Academia Brasileira de Ciências. Com direito a almoços e jantares nos intervalos, em locais diferentes, no prazo de uma semana.

Não havia entre os doutores que o cercavam um só físico ou matemático. Os doutores eram médicos, advogados, políticos, militares, embaixadores e engenheiros. Eram os doutores clássicos do Brasil, donos de uma posição social, e que por isso mereciam e merecem o tratamento honroso, como o chamado Doutor Jornalista Roberto Marinho. Com tal gente, o resultado foi o que se viu.

Na primeira palestra, no Clube de Engenharia, o salão ficou completa e absolutamente lotado. Políticos, graduados oficiais das três forças armadas, altos funcionários, engenheiros, esposas, filhos e filhinhos, todos muito unidos na mais absoluta ignorância do que vinha a ser aquele indivíduo estranho e suas ainda mais estranhas e cabeludas ideias. Com a vantagem, que os deixava ainda mais unidos, de não entenderem uma só palavra da língua alemã. O que importava era ver o homem famoso em ação.

Einstein anotaria em seu diário, mais tarde: “Às 4 horas, primeira conferência no Clube de Engenharia numa sala superlotada, com ruído da rua, as janelas abertas. Não tinha nenhuma acústica para que me entendessem. Pouco científico”.

No dia seguinte, para ser mais científico, foi à Academia Brasileira de Ciências. Se alguma dúvida ele possuía que estivesse no Brasil, ali os acadêmicos trataram de resolvê-la, porque lhe fizeram três longos, vazios e tenebrosos discursos. Entre outros, falou o doutor Juliano Moreira, Vice-Presidente, sobre a influência da Teoria da Relatividade na Biologia. É lamentável faltar um registro preciso desse discurso, pois teríamos um documento importante do nível mental daqueles acadêmicos.

Então veio o melhor dia. Na terceira e última palestra, na Escola Politécnica, não houve a invasão do grande público, das senhoras mães com seus filhinhos, dos oficiais com galões e de velhos generais do século dezenove. A julgar pelos jornais, “o Professor Einstein pôde desenvolver a sua palestra sob um ambiente tranqüilo, e dessa maneira os cientistas brasileiros acompanharam-no passo a passo na sua exposição”. Nem tanto, e por favor acreditem, porque nada é mais rico que a própria realidade. Um desses grandes nomes da ciência, um desses físicos foi o jurista Pontes de Miranda! Ele, a falar em alemão, desafiou Einstein, para maior fascínio dos doutores presentes:

- Data venia, Herr Einstein, a Teoria da Relatividade não considerou as implicações metafísicas das hipóteses que aventa. Das ciências físicas até as ciências jurídicas a diferença é de grau...

A plateia delirou diante de tal brilho. O cientista sorriu e manteve silêncio. Quando acabou o discurso do jurista, que derrubava a Teoria da Relatividade naquele tribunal, o físico se levantou, e como a se despedir entregou a um dos acadêmicos um papel onde se lia:

"A questão, que minha mente formulou, foi respondida pelo radiante céu do Brasil."

Era uma referência ao eclipse do Sol, observado em Sobral, no nordeste brasileiro, que em 1919 comprovara a previsão do cientista quanto à deflexão da luz pelo campo gravitacional do Sol. Mas assim não entendeu bem o ilustre jurista, que ao ler aquelas palavras interpretou-as como uma resposta à sua intervenção. Pois não era de sol e azul o céu do Rio de Janeiro?

Sim, salvo melhor juízo.

* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus”, “Dicionário amoroso de Recife” e “A mais longa juventude”.  Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros



O estranho


* Por Eduardo Oliveira Freire


Quando Laurinda viu pela janela um homem estranho a caminhar ao redor da casa, sentiu aperto no peito. Falou para o marido comprar alarmes e até uma arma.

O marido achou exagero, mas realizou o desejo da mulher para ela ficar calma. Com o passar do tempo, Laurinda via o estranho todos os dias e o medo aumentava. Quem era aquele homem? Sentia-se cada vez mais em perigo.

O marido resolveu que precisavam tirar umas férias juntos e foram à casa da serra. Laurinda, mesmo em outro lugar, sentia a presença do estranho, porém decidiu ocultar o medo do esposo.

Madrugada na serra, o breu era mais intenso e parecia uma manta pesada que a sufocava. Teve pesadelos de estar sendo perseguida. Quando acordou, viu que o marido não estava na cama e foi procurá-lo no escritório.

Ele estava ao telefone e dizia baixo para ter calma que tudo acabaria logo. Laurinda ficou curiosa e se concentrou para ouvi-lo, já que uma forte chuva começava.

Ouviu que o marido planejava algo, estranhou seu jeito, não parecia o homem com que conviveu por vinte anos. Ouviu-o dizer para alguém que ela já assinou as apólices e só faltavam os detalhes para matá-la.

Então a verdade revelou-se. O estranho que ela via ao redor da casa era o marido, o tempo todo. Não o tinha reconhecido, porque fora de casa, era outro, o caçador que esperava o momento certo para agir.

Foi ao quarto e pegou a arma da bolsa. Retornou para onde o marido estava e atirou até acabar munição.

Depois, ligou à polícia e disse que matou um estranho que tinha invadido sua vida.

* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/


A flor


* Por Alexander Pushkin


Vejo uma flor seca, sem ar
Cá esquecida em um caderno,
E meu espírito prosterno
Num esquisito meditar:
Floriu quando? Onde? Em que estação?
E postergou-se? E é estranha
Ou amiga a mão que a apanha?
E a pôs aqui por que razão?
Pra recordar um encontro amável
Ou uma separação funesta,
Ou um passeio solitário
Num sítio, à sombra da floresta?
E ele está vivo, ela também?
E a que refúgio se retêm?
Ou eles ambos já mirraram
Como esta flor que aqui deixaram?


* Romancista e poeta russo da era romântica.
Moro testa os limites do regime de exceção

* Por Emir Sader


Moro se viu alçado, por um conjunto de circunstâncias, internas e externas, a participante de um projeto de instauração de um Estado de exceção no Brasil. Escolhido pelos EUA para ser o regente das acusações que desarticulariam o governo do PT e, com ele, o potencial produtivo do país. Está cumprindo rigorosamente esse roteiro.

O PT foi tirado do governo, se desarticula o poderio da Petrobras, das construtoras, da indústria naval e de outros setores chaves da economia, que tinham guindado o Brasil a potência econômica emergente em escala mundial. O projeto se complementaria com o alijamento do Lula da vida política, tanto para sujar a imagem dele, como para blindar definitivamente o sistema político de qualquer risco de sair de novo de controle, como aconteceu a partir de 2003.

Da mesma forma que se pode fazer tudo com as baionetas, menos sentar-se em cima – frase atribuída a Napoleão -, não se pode fazer tudo com decisões jurídicas arbitrárias. Moro pretende condenar Lula em primeira e segunda instância, acreditando que com isso completa o golpe.

Mas não se pode fazer tudo com decisões jurídicas, acreditando que elas têm força política para se realizar. Nos últimos meses, Moro tem visto seu poder se enfraquecer e ele tem feito declarações e tomado atitudes que confirmam sua consciência dos limites do seu poder. No mesmo momento em que há enormes manifestações contra o governo e em apoio ao Lula e, em que a manifestação de apoio ao Moro, em Curitiba, teve a participação de 15 (quinze) pessoas, Moro se vê obrigado a vir a público para reiterar que, segundo ele, "a grande maioria dos brasileiros o apoia"(sic).

Em seguida, nova demonstração de força, para testar os limites do que pode fazer, coloca em prática, de novo de forma arbitrária, a "condução coercitiva", desta vez do blogueiro Eduardo Guimarães. A reação não se fez esperar e não apenas do campo da oposição, mas cada vez mais gente do campo do governo se sente incomodada com as formas de agir e as declarações intempestivas dele.

Ele se comporta como uma criança amuada que, contrariada, age para testar os limites do que é suportável que ele faça. Como se estivesse treinando para tentar dar o bote sobre o Lula – sua vítima maior. Ainda mais que ele mesmo se armou uma armadilha, convocando o depoimento do Lula com dois meses de antecipação. Agora se dá conta, pelas mobilizações de março e pelo prestígio cada vez maior do Lula, o que espera Curitiba em 3 de maio. E também viu, pelo depoimento do Lula em Brasília, o que o espera. (Lula já disse que quer que se filme não apenas ele, mas também o Moro, em quem vai olhar nos olhos todo o tempo. Será profundamente constrangedor, psicológica e moralmente, e Moro demonstra nervosismo crescente com essa circunstância que ele mesmo criou).

Tudo indica que ele sente que o terreno em que ele pisava antes de forma segura, começa a se mexer. Ele já não une nem o campo da direita e ainda tem que enfrentar não apenas desgastes públicos, como capacidade de mobilização cada vez maior no campo popular e com Lula catalisando todas essas mobilizações. A defesa do Lula – como foi a da Dilma diante do golpe – torna-se a defesa da democracia no Brasil de hoje.

E Moro começa a piscar, a gaguejar, a responder "sem comentários", ele que antes adorava todo holofote e não perdia chance para ditar manchetes para a mídia submissa. Sua própria teoria de que o país vive uma situação excepcional, que requer métodos excepcionais – os métodos de exceção que ele pratica e que eles propuseram que o Congresso formalizasse em lei, sem sucesso – vai caindo por terra. O método excepcional da condução coercitiva já não é aceito pela opinião pública, ele vai perdendo esse debate também e perdendo força para agir contra o Lula.

Moro testa os limites do regime de exceção, para saber se pode contribuir para transformá-lo em Estado de exceção, mediante um segundo golpe. As reações têm lhe sido adversas, fazendo que, nervoso, ele possa dar novos passos em falso, que podem ser fatais para ele.

* Sociólogo e cientista político


A humanidade ameaçada por guerras letais


* Por Leonardo Boff


Nós no Brasil conhecemos grande violência social, com um número de assassinatos dos mais altos do mundo. Não gozamos de paz, pois há muita raiva, ódio, discriminação e perversa desigualdade social.

No entanto, estamos à margem dos grandes conflitos bélicos que se travam em 40 lugares no mundo, alguns verdadeiramente ameaçadoras para o futuro da espécie humana. Estamos em plena nova guerra fria entre os USA, a China e a Rússia. Reintroduziu-se uma nova corrida armamentista seja na Rússia, seja nos USA sob Trump com a produção de armas nucleares ainda mais potentes como se as já existentes não pudessem destruir toda a vida do planeta.

O mais grave é  que a potência hegemônica, os USA, se transformou num Estado terrorista, levando uma guerra impiedosa a todo tipo de terrorismo, exteriormente invadindo países do Oriente Médio e interiormente caçando imigrantes ilegais e prendendo suspeitos sem respeito a direitos fundamentais, em consequência do “ato patriótico” imposto por Bush Jr que suspendeu o habeas corpus, ato não abolido por Obama como havia prometido.

Francisco, o bispo de Roma, retornando da Polônia disse no avião no dia 12 de julho de 2016: ”há guerra de interesses, há guerra por dinheiro, há guerra por recursos naturais, há guerra pelo domínio dos povos: esta é a guerra. Alguém poderia pensar: ‘está falando de guerra de religiões’. Não. Todas as religiões querem  a paz. As guerras querem-nas os outros. Capito”? É uma crítica direta à atual ordem mundial, da acumulação ilimitada que implica uma guerra contra a Terra e exploração de povos mais fracos. Todos falam de liberdade, mas sem justiça social mundial. Ironicamente poder-se-ia dizer: é a liberdade das raposas livres num galinheiro de galinhas livres.

Comentaristas da situação mundial, pouco referidos em nossa imprensa, falam de um real risco de uma guerra nuclear seja entre a Rússia e os USA ou entre a China e os USA.

Trump no dizer do intelectual francês Bernard-Henri Lévy (O Globo 5/3/216)  afirma que “Trump é uma catástrofe para os EUA e para o mundo. E também uma ameaça”. De Putin, no mesmo jornal, afirma: ”é uma ameaça explícita. Sabemos que quer desestabilizar a Europa, acentuar a crise das democracias e  que apoia e financia todos os partidos de extrema direita. Sabemos também que em todos os lugares em que se trava a batalha entre a barbárie e a civilização, como na Síria e na Ucrânia, está do lado errado. Aí está uma verdadeira e grande ameaça”.

Segundo Moniz Bandeira em seu grandioso “A desordem mundial”, Putin quer se vingar da humilhação que o Ocidente e  os USA submeteram seu país no final da guerra fria. Alimenta pretensões claramente expansionistas, não no sentido de resgatar a antiga URSS, mas os limites da Rússia histórica. O risco de um confronto  nuclear com o Ocidente não é excluído.

Estamos perdendo a consciência dos apelos dos grandes nomes dos meados do século passado como os de Bertrand Russel junto com Albert Einstein de 10 de julho de 1955  e uns dias após a 15 de julho de 1955 secundado por  18 prêmios Nobeis entre os quais Otto Hahn e Werner Heisenberg afirmando: ”com horror vemos que este tipo de ciência atômica colocou nas mãos da humanidade, o instrumento de sua própria destruição”. O mesmo afirmaram vários Nobeis durante a Rio-92.

Se naquele tempo a situação se apresentava grave hoje ela é dramática. Pois além das armas nucleares, estão disponíveis armas químicas e biológicas que também podem dizimar a espécie humana.

Supõem alguns analistas dos conflitos mundiais que o próximo passo do terrorismo não seria mais com bombas e homens-bomba, mas com armas químicas e biológicas, algumas tomadas da reserva bélica deixada por Kadafi.

Na raiz deste sistema de violência está o paradigma ocidental de vontade de potência, vale dizer, uma forma de organizar a sociedade e a relação para com a natureza  na base da força, da violência e da subjugação. Esse paradigma privilegia a concorrência  à custa da solidariedade. Ao invés de fazer dos cidadãos sócios, os faz rivais.

A esse paradigma do punho cerrado se impõe a mão estendida em função de uma aliança para a salvaguarda da vida; ao poder-dominação, há que prevalecer o cuidado que pertence à essência do ser humano e de todo o  vivente. Ou fazemos esta travessia, ou assistiremos a cenários dramáticos, fruto da irracionalidade e da prepotência dos chefes de Estado e de seus falcões.

* Leonardo Boff é teólogo e autor de “Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito”, “Cuidar da Terra-Proteger a vida” (Record, 2010) e “A oração de São Francisco”, Vozes (2009 e 2010), entre outros tantos livros de sucesso. Escreveu, com Mark Hathway, “The Tao of Liberation exploring the ecology on transformation”, “Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz” (Vozes, 2009). Foi observador na COP-16, realizada em Cancun, no México.



quinta-feira, 23 de março de 2017

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos, onze meses e vinte e oito dias de criação.

Leia nesta edição:

Editorial – Grandeza e dignidade.

Coluna Ladeira de Memória – Pedro J. Bondaczuk, artigo, “Confiança e credibilidade”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, conto, “Me leva pro Velho Testamento”.

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, crônica, “Tudo na cabeceira – O começo do adeus”.

Coluna Porta Aberta – Fernando Soares Campos, conto, “Homofobia é veadagem enrustida”.

Coluna Porta Aberta – Francisco Simões, artigo, “A cultura engolida por templos”.

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Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com  
“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Boneca de pano” -  Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“A sétima caverna”Harry Wiese – Contato:  wiese@ibnet.com.br
“Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
“Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br   
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Grandeza e dignidade


As pessoas que fazem de suas vidas uma obra de arte e que pautam pensamentos e atos por dignidade e grandeza, merecem reverência muito especial. Mais do que isso, são dignas de imitação. São os grandes paradigmas de conduta para as gerações mais jovens. Por isso, o que foram, e o que fizeram, deveria ser ensinado em todas as escolas do mundo. Infelizmente, raramente são.

Rabindranath Tagore é uma dessas figuras ímpares que sempre me fascinaram. E não apenas pelos seus memoráveis poemas (que, para mim, têm significado particular, já que sou poeta) que lhe valeram o Prêmio Nobel de Literatura de 1913, mas pelo seu caráter, idealismo, fidelidade aos princípios que o norteavam e nacionalismo.

Descobri seus mágicos textos há, relativamente, pouco tempo, em 1992, quando fui eleito para a Academia Campinense de Letras. Desde então, todavia, li muito do que escreveu e do que foi escrito a seu respeito. E à medida que o tempo passa, cresce, mais e mais, minha admiração por este paradigma de competência e coragem.

Tagore nasceu em Calcutá, no Estado indiano de Bengala, em 6 de maio de 1861 e morreu nessa mesma cidade, aos 80 anos, em 7 de agosto de 1941 (quase um ano e meio antes do meu nascimento). Estudou Direito na Inglaterra, mas logo manifestou inequívoca vocação para as artes (foi, também, músico) e para a Filosofia (chegou a criar, em 1901, uma escola filosófica em seu país).

Legou-nos cerca de três mil poemas em língua bengali, o idioma de sua etnia, nem todos traduzidos para o inglês (e muito menos para o português). Não se limitou, contudo, à poesia. Tagore escreveu oito novelas, 50 ensaios e uma grande quantidade de contos. Sua produção musical, igualmente, foi admirável: compôs por volta de duas mil canções!

Com toda essa atividade artística, o notável poeta ainda encontrou tempo para se integrar ao movimento nacionalista indiano, lutando pela independência da Índia, que não chegou a ver concretizada. Morreu seis anos antes. Foi amigo pessoal do Mahatma Gandhi, que lhe tinha grande afeto e por quem nutria irrestrita admiração. Pudera!

Entre suas ousadas ações, para chamar a atenção do mundo para a opressão britânica à sua pátria, destacou-se sua renúncia, em 1919, ao Prêmio Nobel de Literatura, como forma de protesto contra a política inglesa em relação ao Punjab e, mais especificamente, contra o massacre dos sikhs no Templo Dourado de Amritsar. Na mesma oportunidade, abriu mão do título de “Sir”, que lhe havia sido outorgado pela Coroa Britânica em 1915. Quantas pessoas agiriam assim? Poucas, senão, nenhuma!

Um exemplo da musicalidade e lirismo da sua absorvente e emocionante poesia, é este poema, intitulado “Flor de lótus”:

“No dia em que a flor de lótus desabrochou
a minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
de um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
E eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim.
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
tinha desabrochado no fundo do meu coração”.

A admiração de Gandhi por Tagore era tão grande, que o aclamou, publicamente, como “O Grande Mestre”. E, quando da independência da Índia, em 1947, exaltou o amigo morto, pela sua contribuição para que isso se tornasse possível. Ambos foram homens especiais, dignos de reverência e de imitação pela posteridade.

A melhor forma, todavia, que encontrei, de reverenciar essa figura sábia, mística e sensível, é concluir estas linhas espontâneas com o que o próprio poeta escreveu certa feita: “Neste palco de formas infinitas, que é o mundo, desempenhei o meu papel”. E desempenhou mesmo, como ninguém: com grandeza e, sobretudo, com dignidade!

Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk


Confiança e credibilidade



* Por Pedro J. Bondaczuk



O bom relacionamento entre o repórter e sua fonte é fundamental para uma harmoniosa, duradoura e profícua parceria. Antes de tudo, é indispensável que haja confiança recíproca, o que só se conquista com atitudes sinceras, respeitosas, porém eqüidistantes, de parte a parte. Quanto mais o jornalista for isento, em relação ao assunto que for cobrir, mais e mais se tornará confiável aos olhos do seu informante e principalmente do leitor. E a recíproca é verdadeira.

Trago este assunto à baila em consideração aos estudantes de jornalismo (e a pedido de alguns deles), que em breve estarão nos substituindo nas redações dos veículos de comunicação pelo País afora. Contudo, embora se trate do “be-a-bá” da profissão, o tema também serve para refrescar a memória de muitos profissionais tarimbados, com anos e mais anos de janela, mas que, não raro, se esquecem de princípios elementares do seu trabalho, no exercício cotidiano de suas atividades.
   
Há fontes que são ocasionais, em geral detentoras de autênticas “bombas”, que proporcionam históricos furos de reportagem, capazes de causar furor na sociedade e, não raro, até de influenciar (para o bem ou para o mal) nas próprias instituições do País. As mais comuns, porém, são as permanentes. São aquelas que abastecem os setoristas (de Política, Saúde, Educação, Polícia etc.) de informações que irão compor o dia-a-dia das edições de jornais e revistas e dos noticiários de rádio e televisão (e dos portais da internet).

Essas fontes são, em geral, funcionários de repartições, não necessariamente os graduados, mas com olhos e ouvidos sempre atentos para o que acontece ao seu redor, e que repassam esses acontecimentos a determinados repórteres, com os quais mantêm vínculos informais. Nem sempre o que informam, portanto, se refere a irregularidades, a atos de corrupção e a escabrosas negociatas feitas por maus políticos ou por administradores venais.

Os setoristas de polícia, por exemplo, têm, como fontes permanentes, investigadores, ou escrivães, ou policiais que lhes comunicam o que se passa nas respectivas delegacias em que atuam e lhes repassam cópias dos vários boletins de ocorrência que lá são lavrados. Ou bombeiros, que agem de forma idêntica em suas repartições. Ou atendentes ou telefonistas de hospitais, que fornecem a informação sempre que vítimas de violência dão entrada ali, o que, quase sempre, rende boas histórias.

Sem estas figuras, os chamados repórteres “de área” teriam imensas dificuldades para abastecer de notícias o seu editor. E não apenas, é claro, na área policial. Em qualquer dos casos, o jornalista tem que estar no pleno domínio do assunto que vai tratar. Presume-se que ele seja o especialista dessa área na empresa em que atua, caso contrário, o veículo de comunicação (jornal, revista, rádio ou televisão) não o designaria para cobrir esse setor (pelo menos é o que diz a lógica e o que o mínimo bom-senso determina). Se, ou quando, o faz, não pode reclamar das eventuais bobagens que vierem a ser cometidas.

Esse conhecimento de causa, é verdade, não livra por completo o repórter de cometer as tão temidas (e mais freqüentes do que se supõe)  “barrigas”. Ou seja, de divulgar informações falsas, ou distorcidas, quando não absolutamente ridículas. Há “armadilhas” muito difíceis (quando não impossíveis) de se escapar. Boa parte (se não a maioria delas) dessas distorções o editor, ao revisar a matéria antes de a editar, detecta, até com certa facilidade. Quando não o faz...embarca na “canoa furada” do repórter e ambos acabam se dando muito mal, com conseqüências imprevisíveis para os dois.               

Jornalista e fonte devem tratar-se (e sentir-se) como iguais, sem que um se sinta superior ao outro em qualquer circunstância ou situação. O relacionamento tem que ser, SEMPRE, de absoluto e mútuo respeito. E nenhum dos dois pode, em hipótese alguma, se sentir “usado” pelo outro.

Ao repórter cabe sempre uma atitude isenta, íntegra e criteriosa. Caso contrário, nunca conseguirá reciprocidade. Ou seja, não irá encontrar, em lugar algum, uma fonte que tenha essas desejáveis características da isenção, da integridade e do critério. A linguagem que utilizar em seu texto tem que ser a adequada. Clareza e objetividade das partes são fundamentais para que o resultado final dessa parceria, ou seja, a reportagem (ou a série delas) seja o esperado.

Em assuntos muito sensíveis, manda o bom-senso que o repórter se valha de mais de uma fonte, e com opiniões diferentes e até mesmo antagônicas sobre o tema abordado. Essa pluralidade tende a assegurar credibilidade à matéria.  O árbitro, neste caso, será o destinatário da reportagem, ou seja, o leitor.

Contudo, o desejável (diria, o exigível) é que o jornalista e a fonte se pautem SEMPRE, em toda e qualquer ocasião, por uma conduta absolutamente ética, sem jamais transigir, seja qual for a razão. Somente assim será cumprida, integralmente, a verdadeira finalidade do jornalismo, que não é a de denunciar, de denegrir, de julgar ou de condenar quem quer que seja. É, sim, a de informar, a de formar opinião e a de prestar serviço à comunidade. Nunca podemos perder isto de vista, se quisermos ser bons profissionais, por se tratar, afinal de contas, do nosso ABC.

       
* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk