Ré
* Por
Marcelo Sguassábia
Uma piscada mais lenta
que o normal, um micro-cochilo em meio à reta que teimava em inacabar e dou por
mim com o carro quase ralando o guard-rail. Quanto em segundos durou o descuido
é tão incerto quanto o que me fez acordar a tempo.
Estou indo para o abrigo
tão antigo e permanente como o firmamento e o sentimento de dever cumprido após
a missa. Lá ainda se trocam cartas e há mais que um ou outro de chapéu pelas
ladeiras. A preguiça tem função e é exercida ritualmente, pede-se a benção e
sente-se a mão de pai e de mãe com força de viga e de lei. É âncora de
respeito, o que pai falou não se questiona. Da mesma forma ninguém desdiga o
que mãe diz para ser feito, ainda que lhe falte uma beira de razão pelo
avançado da idade.
Acelero para o oco do
tempo atrasado, onde o asfalto dessa pista ainda não passou perto, meca dos
centros de mesa de crochê, cucos e bolinhos de chuva, onde as mágoas da véspera
saem na água do banho sem maiores dramas. Não levo nada além desta carcaça em
descuido a pedir arrego, reza de proteção e cuidados redobrados. Lá ainda
lembram de mim como o caçula de meu pai, no corpo novo que fui, e não serei eu
a roubar-lhes a ilusão. Se não me reconhecerem, que vejam em mim um sujeito
outro e distinto da imagem, agora sépia, de alguém com o cabelo em desalinho e
o olhar tolo de quem não tinha noção do que teria de enfrentar.
Lá é um sempre que
cismou de sempre ser, os incomodados que se mudassem, corressem para outras
freguesias, despencassem dos penhascos e ganhassem rugas por esse mundo além-montanha,
de onde nada de proveito haveriam de trazer. Quando muito esses zumbis, dos
quais provavelmente eu sou o chefe, retornam trazendo o desespero dos anos idos
longe dali e muito mal aproveitados, pois foram anos em lugares outros
espelhando nesses lugares outros o casulo de nascença, a cidade das paredes que
descascam mas permanecem paredes em seu vigor vitalício.
Limite de município.
Falta pouco para o triunfal retorno dos vencidos e mutilados de guerra, aqueles
que voltam sem medalha de bravura no pescoço. De soslaio os olhos passam pelo
retrovisor, e por um instante os vejo sem papadas e livres da catarata que
embaça a vista e o entendimento.
No lugar que não me
aguarda com faixas de boas-vindas, vilarejo das coisas que são como se
acostumaram, haverá decerto um povo arraigado em seu sossego a rotular-me
forasteiro ou desertor, que ficará indiferente ao choro que não segurarei
quando de novo embaixo da velha árvore.
Das últimas vezes,
nesse trecho, não haviam lombadas no caminho, a bem dizer quase nem caminho
havia, nem tantos carros, nem placas que falam de loções cremosas e
hambúrgueres. Os velhos de então se foram e o neo-velho que chega encontrará,
passado este sinal vermelho, o enigma das gerações que se sucederam sem que
pudesse acompanhar. É o preço a ser pago, assistir ao sumiço das quitandas e
alfaiates ao mesmo tempo em que se sente a perda de massa dos músculos e o fim
como perspectiva próxima.
Engasga o carro. Veja
se isso é hora de acabar a gasolina.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Uma retrospectiva com sabor amargoso, de quem é neo-velho, foi vencido e volta mutilado. Ainda que não tenha doce, é uma volta com algo de engraçado, mesmo com uma graça dramática. Todos que já passaram de certa idade se vê nesta sua volta.
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