A
estratégia xavante não previa o inimigo refrigerante
* Por
Mouzar Benedito
Os jornais trouxeram
um dia desses, uma notícia triste: os xavantes, povo indígena que conseguiu por
muito tempo não se sujeitar aos invasores brancos, está agora sendo atacado por
algo mortal da nossa cultura: o consumo exagerado de refrigerantes, que no caso
dos índios, é mais prejudicial à saúde e causa diabetes em uma boa parcela
deles. Muitos já morreram com a doença e outros estão mal.
Isso me trouxe à
lembrança um filme brasileiro muito premiado fora daqui, que nunca vai entrar
no circuito comercial e fazer sucesso de público, mas deveria ser visto pela
grande maioria dos brasileiros, especialmente pelos que acham que índio é menos
inteligente ou menos humano do que os descendentes de europeus.
O filme, de 2007,
chama-se “Estratégia Xavante”. Ele não tem batalhas, não é apelativo, é
equilibrado e muito interessante. Merece parabéns o diretor Belisário França.
Conta uma história que
teve início com a percepção de um líder indígena de que, para seu povo
sobreviver, era preciso entrar no cerne da cultura dos brancos, entender essa
cultura e saber como se defender dela, para desenvolver uma estratégia tentando
preservar seu território e suas tradições.
Na década de 1940,
depois de muitas tentativas, sertanistas liderados por Sebastião Meirelles,
conseguiram fazer contato com os xavantes do nordeste de Mato Grosso. Meirelles
se admirou tanto pela sabedoria do líder desse povo que colocou em seu filho o
nome dele, Apoena.
Nos anos da ditadura,
o governo começou a incentivar fazendeiros a ocupar terras indígenas e para
isso matava-se índios como se não fossem gente.
O cacique Apoena, já
idoso, convenceu seu povo de que era preciso mandar meninos para a cidade dos
brancos, para que estudassem, entendessem o que se passava na cabeça desses
invasores e voltassem para suas aldeias, com estratégias para não serem mortos
nem perderem suas terras e sua cultura.
Um sertanista de
Ribeirão Preto, Paulo Barbosa, se ofereceu para levar os meninos para lá, cada
um viveria com uma família. E assim, na década de 1970, oito meninos foram
levados para Ribeirão Preto. As mães desses meninos choraram muito, mas
entenderam que isso era preciso.
Os meninos tiveram que
se adaptar a uma realidade que não conheciam, mas foram tratados com muita
dignidade por famílias que cuidaram deles como seus filhos legítimos,
estudaram, aprenderam as manhas da nossa cultura e, com inteligência, a criar
maneiras de resistir a elas.
As teorias do cacique
Apoena estavam corretas. Dos oito meninos xavantes que foram para Ribeirão
Preto, só um não voltou para seu povo, mas continuou militando pela causa
indígena e foi um dos que ajudaram a produzir o filme.
Os outros se tornaram
líderes da nação deles, preservando sua identidade e suas tradições, mas usando
muitos dos benefícios da sociedade branca. Conseguiram inclusive, com base nos
conhecimentos adquiridos, reconquistar parte do território que pertencia a eles
e foi invadida nos anos da ditadura.
Mas alguns “benefícios”,
na verdade algumas facilidades do nosso modo de vida, que mais recentemente
foram introduzidos no cotidiano dos xavantes, acabaram se revelando inimigos
muito destrutivos. Cavalos de Troia!
Os aparentemente
inofensivos refrigerantes conseguem o que outros meios de agressão não
conseguiram: estão minando a cultura indígena e também a saúde dos orgulhosos
xavantes. Que pena!
De qualquer forma,
aproveito para recomendar a quem tiver oportunidade, para que assista a esse
filme. E pense no que está acontecendo agora.
*
Jornalista
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