Incabíveis comparações entre Modiano e
Proust
O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu, certa feita,
que “ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar”. A
igualdade, portanto, seja em que aspecto for (física, psicológica, emocional,
afetiva etc,) – e não confundir com semelhança – é uma impossibilidade
absoluta. É a lógica das lógicas. Nunca houve, não há e nem haverá jamais duas
pessoas rigorosamente iguais em tudo. Isso vale tanto para a vida, quanto para
a Literatura e para qualquer outra atividade. Por isso, chamou-me a atenção, em
particular, a infeliz comparação feita pelo secretário permanente da Academia
Sueca, Peter Englund, em outubro do ano passado, ao anunciar o ganhador do
Prêmio Nobel de Literatura de 2014. Ao revelar ao mundo que o ganhador dessa
tão criticada, mas ultra cobiçada premiação, era o romancista Patrick Modiano,
acrescentou que ele era um “Marcel Proust dos tempos modernos”.
A intenção, óbvia, foi a de elogiar o laureado, embora o
teor da declaração seja equivocado e infeliz, seja qual for o aspecto que se
olhe. Para quem já leu os dois autores, fica claríssimo que não existem dois
escritores mais diferentes, mais heterogêneos, mais antagônicos – quer em suas
biografias, quer nos temas que abordam, quer, e sobretudo, nos estilos – do que
esses dois. A comparação de Englund baseia-se no fato de ambos terem na “memória”
o fulcro de suas criações e de fazerem do tempo a matéria-prima da sua criação.
As semelhanças (ínfimas, destaque-se) param por aí. Confesso que ao ler
Modiano, não me passou, sequer remotamente, pela cabeça, compará-lo a Proust.
Ambos são incomparáveis. São rigorosa e absolutamente diferentes.
Milhares, quiçá milhões de escritores tempo e mundo afora tiveram
e têm fixação por ambos temas e nem por isso são comparáveis (e muito menos
comparados) nem a Marcel Proust e nem a Patrick Modiano. Têm realidades e
biografias próprias, cada qual pensa de acordo com suas formações psicológicas
e culturais, mesmo que possam ter uma coisa ou outra em comum. O especialista
em literatura francesa, professor William Vandervolk – autor do livro “Reescrevendo
o passado: história e narrativa nos romances de Patrick Modiano” – cita uma das
diferenças entre os dois escritores (que sequer é a principal). Escreve: “Ao
contrário de Proust, que examina cada nuance do processo de memória, Modiano
faculta ao leitor fazer isso sozinho”,
A infeliz comparação de Peter Englund sugere (posto que
sutilmente, nas entrelinhas) suposta superioridade literária do autor de “Em
busca do tempo perdido” sobre o ganhador do Nobel de Literatura de 2014. Da
minha parte, considero Modiano infinitamente superior a Proust (embora deteste
este e qualquer outro tipo de comparação). Quando eu disse isso, recentemente,
em uma roda de amigos, boa parte dos quais escritores, fui tratado como
herético, como lunático dizendo disparates, como pecador que merecesse a
fogueira da Inquisição. Inconformado com as críticas, espremi meus críticos
contra a parede até que eles confessassem o que eu desconfiava: que... eles jamais
haviam lido um só dos sete volumes, uma única página que fosse, um reles
parágrafo de “Em busca do tempo perdido”. Como poderiam, pois, contestar, com
tamanha ênfase, com virulenta ira, minha afirmação?! Óbvio que não poderiam!!!!
Pensem o que pensarem de mim, detestei essa obra de Proust,
tida e havida como preciosidade da Literatura mundial de todos os tempos. Quem
é meu leitor sabe que tenho por princípio nunca criticar nenhum escritor ou
obra que não goste. Abro, aqui, todavia, raríssima exceção. Li os sete volumes
de “Em busca do tempo perdido” por curiosidade e porque fui incumbido de comentar
essa obra. Detestei-a!!! Foi uma leitura monótona, chata, nada nada atrativa,
com um ou outro rasgo, esparso, de genialidade, e olhem lá. Aquela imensa
quantidade de páginas, descrevendo, modorrentamente, numa linguagem de dar sono
em estátua de pedra, banquetes de pessoas da onerosa e desocupada elite
francesa, poderia, perfeitamente, ter sido resumida em um único volume, de não
mais do que 150 páginas (se tanto), que estaria de bom tamanho. E olhem que a
edição que li foi um trabalho primoroso de edição da Editora Globo, com
impecável tradução de ninguém menos que Mário Quintana! Ou seja, esse capricho
editorial tornou um pouquinho atrativo algo que por si só não tinha nada de
especial para atrair leitores, mesmo os teimosos e determinados, como eu. Provem-me, mas com fatos, que estou errado!
Foi o desafio que fiz aos meus críticos. É o desfio que faço a quem queira me
contestar.
Enquanto Marcel Proust vale-se de uma prosa prolixa,
suntuosa, repleta de inúteis minúcias psicológicas e sensoriais (que,
desconfio, não passam do que se diz no popular de “encheção de linguiça”) que alongam,
desmesuradamente suas frases para além do fôlego convencional da leitura, o que
torna sua narrativa ainda mais chata, Patrick Modiano age, em suas abordagens,
de maneira diametralmente oposta. Suas frases são simples, curtas, diretas,
quase telegráficas, sem palavras de pseudo-erudição e nem parágrafos
intermináveis. Não chega a conclusões bombásticas, posto que tão óbvias que
chegam a ser acacianas, como Proust. Em vez de concluir, deixa implícito, para
que o leitor conclua por si. Mais sugere do que declara. E seus livros são
todos bastante “magrinhos”, desses que a gente lê de um único sopro e que pode
reler, vezes sem conta, sem perder muito tempo. Se eu tivesse que fazer alguma
comparação (que acho inútil e incabível) diria que Marcel Proust foi um Patrick
Modiano do passado, e jamais o contrário.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Acabou de forma magistral, mas não digo que não discorreu da mesma maneira. Foi um editorial de exceção, do ponto de vista de não falar bem de Proust. E isso teve uma bela razão de ser: contrapor o moço do Prêmio Nobel.
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