Rio Zona Sul
* Por
Gustavo do Carmo
O Rio de Janeiro foi
fundado entre os morros do Pão de Açúcar e Cara de Cão, na Urca, Zona Sul. E por lá se colonizou. Os bairros da região mais nobre
assumiram, principalmente nos últimos cem anos, uma importância maior na cidade
do que o próprio Centro, para onde a cidade também se ocupou.
Copacabana, Ipanema, Lagoa,
Botafogo, São Conrado e Leblon se tornaram o sonho de consumo dos moradores dos
bairros da Zona Norte, tão discriminada pela sociedade, formada principalmente
pelos moradores dos bairros da própria Zona Sul, apesar do crescimento da Barra
da Tijuca.
Ok. Ok. Eu sei que nos
últimos dez anos a Barra da Tijuca tem crescido demais e o Centro vem sendo
revitalizado. Sem falar na nova moda das favelas, mas isso é assunto para
depois e o que está em discussão aqui é a eterna paixão do carioca pela Zona
Sul.
A mídia pode estar se
mudando para a Barra e São Paulo, mas o coração carioca ainda está na Zona Sul.
Três das principais emissoras de televisão aberta do Brasil têm suas sucursais
funcionando na Zona Sul. A Band e a RedeTV! (cuja antecessora, a Manchete,
tinha um moderno prédio na Praia do Flamengo) em Botafogo e a Globo, que nasceu
no Jardim Botânico, mas já se mudou
informalmente para São Paulo e transformou a sua sede em sucursal.
A Record do Rio está baseada
em Benfica, o SBT em São Cristóvão e a TV Brasil no Centro. Mas se acontece
algo de importante na Zona Sul, como uma enchente que atrapalha milhares de
moradores da região, elas vão na onda da Globo que transforma esse algo em um
acontecimento para toda a vida e todas priorizam a Zona Sul. O RJTV da Globo
tem fetiche por mostrar o trânsito da Zona Sul.
A prefeitura lança seus
novos projetos viários, como o BRS, bicicletas comunitárias, ciclovias,
proibição de vans e agora o sistema automático de vagas de estacionamento, que
pretende eliminar os flanelinhas, na Zona Sul. O choque de ordem, que não deu
em nada, ficou só na Zona Sul. Até os mobiliários urbanos daquela região são
mais bonitos e modernos. O banheiro público automático sofisticado, que não deu
certo, foi lançado lá. O governo estadual só reforça a segurança na Zona Sul.
Grandes artistas
cariocas que já morreram estão enterrados na Zona Sul (no cemitério São João
Batista, em Botafogo). Quando ainda
vivos, a maioria mora na Zona Sul. Jogadores de futebol que crescem na carreira
compram logo um apartamento na Zona Sul. Os que vêm de longe alugam um flat na
Zona Sul (apesar de alguns irem pra Barra ou Niterói).
Quando não importa de
São Paulo ou Juiz de Fora, a Globo contrata prioritariamente gente que estuda
em faculdades da Zona Sul, como a PUC, da Gávea. Outra faculdade que fornece
bastante gente para o mercado é a FACHA (Faculdades Hélio Alonso), sediada em
Botafogo, Zona Sul. E me formei em jornalismo e publicidade lá.
Dos colegas da FACHA com
quem tive convivência e uma falsa “amizade”, a maioria morava na Zona Sul. Um
em Botafogo, outros dois em Ipanema e Copacabana, duas no Flamengo e três no
Catete. Até um professor morava em Ipanema.
Hoje, treze anos depois de formado, ninguém me procura. E quando eu procuro não
respondem. Esqueceram que eu existo. E
eu vou esquecer também.
O Jornal O Globo, sediado
no Centro, sempre prioriza as notícias da Zona Sul. Seus colunistas só tem olhos
para lá. Arthur Xexéo e Arnaldo Jabor adoram contar suas lembranças da
juventude na Zona Sul. A Cora Rónai só resgata os seus gatos e capivaras no
Centro ou na Zona Sul. O Ancelmo Gois e o Joaquim Ferreira dos Santos, em suas
colunas, só mostram os depoimentos e personagens da Zona Sul.
E por falar em
memórias, das panelinhas de fotologs que mostram as fotos do Rio Antigo, só
dois falam da Zona Norte. O restante, principalmente nos comentários, só dá
Zona Sul.
Eu já escrevi uma
crônica contando as minhas lembranças de Bonsucesso, mas ninguém se importou. É
porque a Zona Sul é mais bonita, mais cheirosa (exceção da Lagoa Rodrigo de
Freitas) e mais alegre e comunicativa. Dá mais audiência, dá mais IBOPE. É por
isso que o meu sonho ainda é morar lá.
* Jornalista e publicitário de formação e escritor
de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São
Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora
Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu blog,
“Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com
é bastante freqüentado por leitores
Nenhum comentário:
Postar um comentário