Ele estará sempre lá
* Por Mara Narciso
Quando eu o vi pela última vez, não imaginava que seria a derradeira.
Foi banal olhar quase sem vê-lo. Estava diante de mim, com sua beleza, seus
eternos mistérios e sua atração irresistível, mas era chegada a hora de ir embora.
Um último olhar, um adeus breve pela janela do carro. Fui embora atrás do meu
destino, da minha vida e das reviravoltas várias, entre dramáticas, felizes,
traumáticas, desesperadoras. Era preciso viver o futuro, e lá fui eu vivê-lo
enquanto havia tempo.
O vai e vem da vida, com suas maravilhas doces e fugazes, como também os
seus traumas cáusticos que arrancam a pele e nos desnudam, deixando a carne à
mostra. Viver é levantar todos os dias e correr em busca de ser feliz com o que
se tem. Eu tenho a vida, eu tenho o dia, eu vejo, eu ando, eu posso fazer
muitas coisas, inclusive afastar meus demônios e ser incrivelmente feliz,
embora a situação esteja exatamente como antes. Não é fingir. É ver a mesma
realidade de um ângulo diferente, e assim moldá-la às minhas necessidades. Isso
é ter inteligência emocional.
Quem sabe, ele lá longe possa estar me esperando, mesmo sem saber de
mim, eu, tão minúscula, tão nada, pensando nele vários dias do ano, e algumas
vezes em um único dia? Vez por outra, abraço sua imagem, atrevendo-me a mirar
sua fotografia.
A vida e as circunstâncias, as circunstâncias e a vida vão se
alternando. Os fatos concretos escapulindo entre os dentes quando já estamos
preparando uma bocada. E naquele justo momento algo quase nosso nos foge. Pedi
tanto, programei, planejei, e nada. Ninguém conseguia me ajudar a matar aquela
saudade profunda, como uma dor de infarto, que divide o corpo ao meio, e então,
se tem certeza que a morte não é mais uma vaga suposição lá para adiante, e sim
para agora. E de pensar que ele continua lá, a menos de mil km, e ao mesmo
tempo bastante longe do olhar e principalmente das mãos.
Estava tão difícil concretizar esse sonho de sete anos, que cheguei a
suplicar: eu não quero morrer sem revê-lo. Eu preciso pelo menos disso. E numa
época ruim, em que a falta de energia desbota a pele e tira o brilho dos olhos,
naquele período em que toda vontade desaparece e surge uma sonolência
inexplicável, ocasião em que abrir os olhos de manhã é um sacrifício, uma
chamada anunciada há 6 meses me acorda. Vem com a força de um pesadelo e a
alegria dos sonhos idealizados. Eu vou viajar para reencontrá-lo. Irei vê-lo
frente a frente, com toda a força da sua beleza, dos seus encantos e da sua
atração vital.
Custo a acreditar nesse milagre que vem para preencher um desejo de
tanto tempo, uma vontade que arde doendo lá na alma, caso alma realmente
exista. Irei ao seu encontro. Um amor fulgurante, uma adoração dos tempos de
menina. Fui contando nos dedos os dias que ainda faltavam, e na estrada, cada
hora, cada km.
Lá cheguei à noite e precisei esperar até a manhã seguinte para ir
vê-lo. Acordei com o raiar do dia, ouvindo passarinhos assanhados cantar junto
ao farfalhar dos coqueiros. Tomei um banho, preparando-me para o momento tão
esperado quanto importante. Alimentei-me com leite, pão e fruta. Era preciso
força para enfrentar o dia. Não estava só. Um amigo, emissário do rei, me
levava pela mão. Andamos umas poucas quadras com os chinelos pisando macios por
sobre a areia branca e fina. Subimos um leve desnível, e entre umas cercas
vivas, lá estava ele, amplo, descortinado em 180º. Havia um sol morno e uma
brisa moderada. Insegura, eu não consegui olhá-lo firme e enxergá-lo com
nitidez. Uma emoção forte me cortou o peito e um choro suave fez lágrimas
felizes brotarem, inundando meus olhos e borrando a imagem daquele que me
matava de saudade. Era o presente que eu acabava de ganhar, com toda a sua
grandeza, cheiro, e existência que atrai hipnoticamente minha pequenez e
insignificância. Feliz, muito feliz por tê-lo visto mais uma vez. E que não
seja a última diante do meu eterno caso de amor: o mar.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico,
ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
Me iludi até o fim, imaginando tratar-se de uma pessoa. Creio que ninguém ama mais o mar do que os mineiros...
ResponderExcluirBelo texto, Mara.
Marcelo, é verdade. Nem os goianos gostam mais do mar do que nós. Pode parecer exagero, mas foi do modo que contei: verídico. Obrigada pelo comentário.
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