Magrão, o goleiro do Sport
* Por Urariano Mota
Vocês perdoem a alienação do colunista. Hoje, faço de conta que esqueço
os Estados Unidos em agressão à Siria, o que pode gerar resposta militar da
Rússia. Hoje, tento fechar os olhos para o Brasil em pé de guerra, porque a
chegada dos médicos cubanos, em hordas de civilização, acende os preconceitos
mais primários da classe média. Vocês perdoem a alienação momentânea, mas a
coluna de hoje vai para o goleiro Magrão, o jogador número 1 do glorioso Sport
Club do Recife. Aliás, desde ontem existem torcedores exaltados que proclamam,
“ Magrão, o goleiro número 1 do mundo”.
Entendam por que a alienação invade estas linhas: ontem à noite, um
pouco antes da meia-noite, Magrão defendeu três pênaltis em uma só partida.
Nessa quase madrugada, ele que antes mais parecia um arqueiro alquebrado,
depois de levar dois gols indefensáveis, vá lá, “gol indefensável”, depois
desse clichê, Magrão classificou o Sport para a Copa Sul-Americana com três
defesas magistrais, miraculosas, como gritaram os locutores do rádio mais
sóbrios. “Magrão, Magrão, Magrão!!!!!!”, gritavam como se diante de uma
revelação divina. E, com sinceridade, os homens do rádio quase não exageraram.
Eu vi, com olhos e respiração suspensa, eu vi.
Antes do pênalti ser cobrado, Magrão fica imóvel, como se fosse um homem
sem vida, sem movimento. Mais propriamente, Magrão lembra um animal, um sapo
magro e comprido, que fica aparente sem nada ver e de repente pula. Magro que
é, com mais leveza que os sapos da lagoa. Enquanto outros goleiros pulam, fazem
palhaçada, abrem fecham os braços, Magrão nem se move. Então o juiz apita. O
goleiro apenas se abaixa um pouco, como se estivesse indeciso entre ficar de
cócoras ou avançar para a fera, o atacante, que corre para disparar um tiro.
Mas é para ver melhor, para mirar o projétil, ou para se resguardar no voo para
o chão ou para o alto. Magrão vê numa fração rápida de segundo o destino da
bola e, sabendo que ela é mais rápida que o impulso do corpo humano, parte
antes, para o lado que ela vem.
Mas o reflexo não é só dirigido para o lado do salto, mais rápido ainda
é o que ele faz com um braço, esquerdo ou direito, conforme a urgência. É uma
bote de gato, de felino na mata. “Pra onde tu vais, desgraça? Aqui é Magrão”.
Assim foi com o primeiro pênalti, batido pelo uruguaio Olivera, depois no
segundo com a bomba arremessada por Tiago Real, e por último com o chute
cruzado, quase impossível de ser defendido, de Rogério.
Dos três pênaltis, o que ele fez diante do chute de Rogério foi
definitivo. Olhem, é tão rápido que a mente não acompanha, a gente só consegue
ver em câmera lenta ou pela memória, que para o tempo. Na terceira defesa, a
resposta de Magrão foi tão rápida que parece truque de mágico de circo.
Primeiro, a gente vê o tiro de Rogério. Depois, o goleiro esticado que agarra a
bala, quero dizer a bola, porque a bala bola não entra, quando estava no fundo
da rede. Se a partida inteira de ontem se resumisse a essas três defesas, o
espetáculo do futebol já estaria entre os grandes do mundo.
Outra alegria foi ver o goleiro, que em seu natural é sério, depois da
terceira defesa abrir um sorriso largo, correr feito menino, logo ele que se
aproxima agora dos 37 anos de idade, uma idade fatal para um atleta do gol. A
sua posição exige, talvez mais que outras, elasticidade, explosão de músculos
e, acima de tudo, reflexos de um felino das selvas. Magrão, nas suas mágicas
defesas, é um animal triplo: onça pelo salto súbito, sapo pelo que finge estar
dormindo, se fazendo de morto como falam em Pernambuco, e homem maduro,
inteligente, pela humildade com que escuta as informações, os conselhos de
outros profissionais do futebol.
Depois do jogo, no momento da glória, ele agradeceu as contribuições de
Pedro Gama, que lhe passara a forma de chutar dos adversários:
"O Pedro passou informações dos cobradores do Náutico que foram fundamentais para que eu pudesse pegar os pênaltis. Pedi ao Heber (Roberto Lopes, árbitro) para que começasse defendendo primeiro porque se pegasse o pênalti colocaria uma pressão logo de cara no Náutico. Por isso a primeira defesa foi a mais importante, pois deu uma confiança maior ao nosso time. A segunda defesa foi difícil, batido no alto, e o terceiro eu já sabia que o Rogério chutaria cruzado".
Não sei se no esporte do mundo existe um goleiro que defenda 3 pênalties
em quatro chutes consecutivos, numa mesma série. Não sei. Mas poucos e raros
possuem a humildade na glória como esse atleta Magrão. Para ele, que não se
declarou “o cara” ontem à noite, quando poderia declamar “peguei os pênaltis
porque sou bom”, vai a coluna de hoje.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”,
cuja paisagem é a ditadura Médici e “Soledad no Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros.
Adoro futebol, adoro crônicas sobre futebol, e conheci Magrão da melhor maneira possível: pegando pênaltis. Há momentos em que a humildade pega tão bem quanto Magrão defendeu/pegou esses três pênaltis.
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