Entre o trágico e o
sublime
O artista provavelmente
mais polêmico, do período que passou para a História com o rótulo de “Renascença”,
foi o escultor, ourives, escritor e, de quebra, flautista (posto que
ocasional), Benvenuto Cellini. Nascido em Florença, em 3 de novembro de 1500,
morreu na mesma cidade (em que pouco viveu e da qual chegou a ser banido em
decorrência de suas estripulias juvenis), quase 71 anos depois, em 13 de
fevereiro de 1571. Ao ler as diversas biografias a seu respeito, o leitor fica
na dúvida se atenta mais para a sua obra magnífica, que hoje compõe o acervo
dos mais renomados museus do mundo e principalmente do Vaticano, ou se para os
tantos episódios de violência e sangue em que se envolveu. Sua trajetória de
vida oscila entre o trágico e o sublime.
O ensaísta francês Paul
de Saint-Victor, embora não seja biógrafo desse homem genial – e, sobretudo, “genioso”
– (e sua especialidade nunca foi a biografia), é, no meu entender, quem
apresenta o perfil mais exato, nu e cru, desse polêmico sujeito. Ele tratou
dessa controvertida figura em um ensaio que me caiu em mãos quase que por
acaso. Esse texto integra um dos volumes (mais especificamente, o de número 5)
da coleção “Antologia da Literatura Mundial”, organizada por Nadia Santos e
Yolanda Lhullier dos Santos, publicada pela Livraria e Editora Logos, no final
da década de 50 do século XX.
Em determinado trecho,
o relativamente obscuro (mas excelente) escritor francês assim define a
personalidade de Cellini: “O que o caracteriza é a cólera tornada estado
crônico. É exasperado de origem; nasceu com espuma na boca. Tudo é instinto nesta
natureza feroz, impulso espontâneo, súbito e apaixonado de forças. Ruge e
eriça-se contra seus êmulos, como o leão contra os concorrentes de seu antro ou
de sua cisterna. Com vinte anos, vemo-lo entrar, de cabeça baixa, numa loja de
ourives rivais. ‘Traidores!’, exclamou, ‘chegou o dia em que vos vou matar a
todos!’. Mais tarde, ele apunhala, em plena Rua Roma, Pompeu, o joalheiro do
Papa, de quem tinha motivos de queixa. ‘Queria sangrá-lo, mas, como se diz, não
medimos os nossos golpes’”. O florentino matou seu desafeto.
Ressalte-se que esta
não foi a primeira, nem a última e nem a mais grave cena de sangue de Cellini.
A violência era rotina em sua vida, de cujas conseqüências sempre se livrou por
ser protegido por personalidades poderosas, por papas, cardeais, bispos e
membros da nobreza, que compunham sua seletíssima clientela. O leitor,
certamente, está tão curioso quanto eu estive, antes de conhecer detalhes a seu
respeito, para saber que é este Saint-Victor, que ousou escrever com tamanha
crueza e realismo a propósito de um dos gênios da Renascença, nadando,
inclusive, contra a correnteza dos louvaminheiros de plantão.
Abro, pois, um
parêntese, para fazer ligeira apresentação deste escritor, que até gozou de
relativo prestígio no início do século passado, mas que hoje é pouquíssimo
conhecido até nos círculos literários e culturais mais sofisticados e bem
informados. Tratou-se de um membro da nobreza francesa, de um conde, embora não
fizesse nenhuma questão de se utilizar de seu título. Seu nome de batismo é
mais comprido do que uma segunda-feira. É Paul-Jacques Raymond Bins de
Saint-Victor. Foi filho do poeta Jacques Bins de Saint-Victor, que ficou
conhecido, no seu tempo, sobretudo na França, como autor do poema “A esperança”
e pela excelente tradução que fez das célebres “Odes de Anacreonte”.
Paul atuou, sobretudo, como
jornalista, escrevendo artigos políticos e crítica literária e de teatro, em
jornais como “Pays”, “La Presse” (onde sucedeu o escritor Theóphile Gautier), “La
liberté” e “Le Moniteur universel”. Publicou apenas seis livros, três dos quais
publicados após sua morte, a maioria coletâneas de artigos e de ensaios
publicados na imprensa. Se eu não estiver equivocado (e é possível que esteja),
suas obras são as seguintes: “Homens e deuses, estudos de História e de
Literatura” (1867), “Bárbaros e bandidos, o prussiano e a comuna” (1872), “As
duas máscaras, tragédia e comédia” (em 3 volumes, entre 1880 e 1884, póstumo), “Victor
Hugo” (1884, póstumo), “Antigos e modernos” (1886, póstumo) e “O teatro
contemporâneo: Émile Augier e Alexandre Dumas Filho” (1889, póstumo).
Paul Saint-Victor
nasceu em Paris, em 11 de julho de 1825, cidade em que morreu em 9 de julho de
1881, dois dias antes de completar 56 anos de idade. Tenho, desse escritor,
quatro ensaios, em que se revela muito mais o jornalista, objetivo e direto, do
que o escritor que eventualmente tenha se preocupado com estilo, floreado e
cheio de firulas, como era característica da época em que viveu. Certamente,
citá-lo-ei diversas vezes, na sequência destas considerações, pela fartura de
informações que fornece, ao contrário dos tantos outros biógrafos de Benvenuto
Cellini, que se limitam ao trivial.
Boa leitura.
O Editor
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.
Bem diferente do habitual.
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