sábado, 5 de dezembro de 2009




The New York Company - downtown

* Por Suzana Vargas

Nem um poema sai
sobre esses prédios
sobre essas nuvens
cúmplices do cimento
e o espírito gelado desses homens

Nas tubulações a fumaça
não aquece nem disfarça
o mergulho raso nesses dias
à beira do Hudson
do World Trade Center
dos sanduíches no Sacks
e as comidas empacotadas com a alma

A ilusão esvoaça
nessa Babel de rostos:
chineses
japoneses
mexicanos
alemães
(americanos)
— em princípio reunidos —
não se vêem,
são peças de um cenário
dividido
no leitmotiv da pressa
no que não mastigam da existência
sempre "later", "in a hurry"
e a máscara da ordem
"don’t worry"

Polícias, buildings, papers,
removables notes,
Wall Street na mão
24 horas à disposição dos chefes
em qualquer cordial setor
das agências de banco
nos cafés onde o amor
é o último a chegar
e permanente
— ferida em aberto —
para o fim da vida.

Também em Nova Yorque
queremos ser felizes pelo avesso
Mas felicidade a esse preço
eu agradeço.

* Poetisa gaúcha, radicada no Rio de Janeiro, autora de literatura infantil e ensaísta. Tem 16 livros publicados, entre os quais “Sombras chinesas” , “Caderno de Outono” (indicado ao Prêmio Jabuti) e “O amor é vermelho”.

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